O Descanso Eterno dos Santos

 

 

"Assim, ainda resta um descanso para o povo de Deus"- Hebreus 04.09.

 

 

Meus queridos amigos, Se eu, ou meu trabalho, tem alguma utilidade pública, ou valor, ele é todo seu, mas não apenas de vocês. Estou convencido, pela providência, de que esse é o desejo de Deus. Tive esse claro discernimento a primeira vez que estive com vocês, durante minha permanência com vocês e na época de minha ausência forçada.  O convite de vocês para que retornasse, sua obediência à minha doutrina, a grande afeição que ainda sinto por vocês, mais que por todas as outras pessoas, como também, de modo geral, a sincera contribuição de amor que recebo de vocês, tudo isso me convence de que fui especialmente enviado a esse mundo para servir à alma de vocês. E para que eu possa, mesmo depois de morrer, ajudar a salvação de vocês, o Senhor forçou-me, sem levar em consideração minha decisão, a escrever este tratado e entregá-lo em suas mãos. Nem cogitava em tornar-me uma figura pública e fadigar o mundo com meus escritos; mas veja como Deus ignora nossas decisões e as transpõe.Aquartelado longe de casa, imerso em sofrimento e fraqueza extremos--pela perda repentina e excessiva de sangue, após muitos anos de debilidade física--, sem conhecidos nem livros por perto, exceto minha Bíblia, mergulhei meus pensamentos, em constante expectativa da morte, no descanso eterno. E como minha memória, em virtude da fraqueza extrema, fora prejudicada, peguei minha caneta e comecei a escrever o sermão de meu próprio funeral; como também anotei alguns itens que pudessem me ajudar em minha meditação sobre o céu, a fim de que eles adoçassem o resto de minha vida e minha morte.Deus agradou-se de manter-me nessa condição por cinco meses, distante de casa, onde, por ser incapaz de fazer qualquer outra coisa, prossegui com esse trabalho que se estendeu muito até chegar a este aqui que agora vocês recebem. Não é de admirar, portanto, que eu tenha sido tão abrupto no início, pois, naquele momento, tinha a intenção de escrever algo que tivesse a extensão de um ou dois sermões. E muito menos admiração deve causar a vocês, se o todo estiver muito imperfeito; pois foi escrito, por assim dizer, com um pé na cova, por um homem que estava entre a vida e a morte, que queria que a força da natureza apressasse a invenção, ou a emoção, e que não tinha nenhum outro livro consigo, exceto sua Bíblia, enquanto terminava a parte principal; nem tinha qualquer intenção de ornamentos humanos, se ele tivesse essa provisão.Ó quão doce é essa providência agora que a recapitulo; pois ela, tão alegremente, forçou-me a fazer esse trabalho de meditação, algo que antes já descobrira ser tão proveitoso para minha mente; e a providência também me demonstrou ainda mais misericórdia ao privar-me de outras fontes de ajuda, algo que não percebera na época, levando meus pensamentos a alimentar-se com esse assunto divino, e isso me beneficiou mais que todos os estudos de minha vida!E agora, meus queridos amigos, assim como está, eu o ofereço a vocês; e, com minha alma de joelhos, ofereço meu agradecimento ao Deus misericordioso que enviou este livro e a mim, salvo da sepultura, para servir a vocês; ao Senhor que reverteu a sentença de morte atual, proferida pelos médicos mais competentes em relação à minha vida; ao Soberano que interrompeu as funções que desempenhava para que ele me forçasse a prestar a vocês um serviço mais duradouro que, de outra forma, nem cogitaria em realizá-lo.

Seu mais afetuoso, embora indigno, mestre.

 

RICHARD BAXTER

Kidderminster

15 de janeiro de 1649.

 

 

DEDICAÇÃO

AO JUSTO ADORADOR SIR THOMAS ROUS,

BARONETE, E A SUA ESPOSA, LADY JANE ROUS.

 

Justo adorador,Esta é a primeira parte deste tratado que foi escrito sob seu teto e, portanto, apresento este exemplar não como um presente, mas como propriedade sua; não para sua proteção, mas para sua instrução e orientação; pois nunca os vi como aqueles homens, possessos por um espírito maligno que faz com que os homens escutem seus mestres como se fossem seus servos, a fim de censurar a doutrina deles, ou para apenas ser entretido por eles, em vez de aprender com eles. Tampouco, tenho a intenção de publicar esta carta para divulgar suas virtudes, pois vocês sabem muito bem em qual julgamento devem permanecer ou cair.O julgamento dos homens é algo pequeno: se você for sentenciado como justo no tribunal de Cristo, e for chamado por ele, o abençoado de seu Pai, não importa muito por qual nome você é chamado aqui. Todos os santos não têm a si mesmos em alta consideração e, portanto, não têm sede de que os outros os tenham em alta estima. Aquele que conhece o que o orgulho fez no mundo, e ainda faz, e como esse horripilante pecado se apega à natureza de todos nós, certamente não considera amigo aquele que alimenta o fogo com mais combustível; nem julga o soprar o carvão uma atitude amigável.

No entanto, aquele que aceitou tão gentilmente a caixa com perfumes de uma mulher, os quais excederam em muito a quantia que Judas achou suficiente receber pela vida de seu Senhor, a ponto de a história ficar registrada em seu evangelho, para que essa boa ação possa ser lembrada por todos que o lêem, assegura-me, por seu exemplo, a anexar a menção de seus favores a este tratado. E a ingenuidade usual comanda-me a reconhecer com gratidão que vocês, assim que souberam que fui acometido de extrema fraqueza, acorreram a vários condados para buscar-me onde me encontrava aquartelado e, ao não me encontrar, novamente foram buscar para que eu ficasse em sua casa, onde, por muitos meses, encontrei um hospital, um médico, uma enfermeira e amigos verdadeiros; ainda, e acima de tudo, orações diárias e incessantes pelo restabelecimento de minha saúde; e desde que sai da casa de vocês, sua profusão de gentileza ainda me acompanha. E tudo isso por um homem que era um desconhecido para vocês, a quem jamais tinham visto antes, exceto entre soldados, um fardo para vocês; e fizeram isso por alguém que não fez insinuações argutas para ganhar o favor de vocês, nem era cínico o suficiente para retribuir-lhes com bajulação; sim, alguém que tinha grandes obstáculos entre seu coração e sua língua, a ponto de ele mal poder expressar belamente apenas um pouco de seu agradecimento e de estar muito mais incapacitado de retribuir-lhes por tudo. A melhor retribuição que posso lhes oferecer por seu amor é recomendar que pratiquem essa divina responsabilidade; assim solicito que vocês sejam mais diligentes e infatigáveis, pois vocês podem dedicar mais tempo a ela que as pessoas pobres, e vocês, portanto, têm muito mais tentações para desviá-los; e é extremamente mais difícil para aqueles que têm muitas coisas aqui a realmente colocar sua felicidade na outra vida e, desse modo, pôr seu coração ali, como o local de seu descanso, algo que precisa ser feito por todos aqueles que serão salvos. [...] Todas as coisas deste mundo não oferecem consolo para a alma que está prestes a partir! Minha oração constante por vocês é para que Deus permita que todas as coisas estejam abaixo dele no coração de vocês, e que vocês possam dominar totalmente os desejos da carne e mortificá-los, e que vocês possam viver acima, no Espírito, com o Pai dos espíritos, até que vocês cheguem em sua morada final junto ao espírito aperfeiçoado dos justos. Seu muito agradecido servo, RICHARD BAXTER.

 

 

Capítulo 1

Na queda de Adão, perdemos não só nosso interesse em Deus e no desfrutar real dele, mas também todo nosso conhecimento espiritual a respeito dele e a verdadeira disposição a tal felicidade. O homem tem agora um coração muito adequado a sua condição atual: estado degradado e espírito vil. E quando o Filho de Deus vem com a graça regeneradora, e descobertas, e propostas de alegria e de glória eternas e espirituais, ele não encontra fé no homem capaz de acreditar nisso. Mas, assim como o homem pobre é incapaz de acreditar que alguém seria capaz de ter a soma de dez mil reais, também os homens dificilmente acreditariam agora que haja tal felicidade como a que outrora tivera, e muito menos que Cristo agora nos busca.

O apóstolo dedica a maior parte de sua carta para combater esse destempero. Meu texto é sua conclusão, seguindo argumentos profundos; uma conclusão muito útil para todo cristão, aquele que tem o fundamento para todo seu conforto, o fim de todas suas responsabilidades e sofrimentos, a vida e a essência das promessas do evangelho e dos privilégios cristãos, para que você perceba facilmente por que fiz com que esse fosse o assunto deste meu presente discurso. O que poderia ser mais bem-vindo para os homens, sob o fardo das aflições pessoais, tarefas cansativas e sucessões de sofrimentos, que o descanso? Que notícia poderia ser mais bem-vinda para os homens, sob a influência de calamidades públicas e empregos desagradáveis, bem como sob o peso de pilhagens, de perdas e de acontecimentos tristes--o que é comum a todos nós--que o descanso? Ouvintes, oro a Deus para que dediquem sua atenção, sua intenção de espírito e seu acolhimento, para que vocês dedi-quem, pelo menos, metade de sua resposta à verdade, à necessidade e à maravilha deste assunto para, desse modo, ter razão de louvarem a Deus enquanto viverem, se escutarem essa mensagem e, como eu, sempre a estudarem.O texto refere-se à afirmação do apóstolo em toda uma proposição: "Portanto", i.e., claramente se refere à afirmação a seguir: "resta ainda"--como o acordo resta ainda depois da determinação; a execução depois da promessa; o antítipo depois do tipo, e o fim derradeiro depois de todos os meios--um descanso "para o povo de Deus". Deus tem um povo duplo na igreja: um que é apenas dele, pela vocação comum; e o da aliança, santificado pelo sangue da aliança, a fim de ficar separado dos inimigos declarados de Cristo; e todos sem a igreja que, nesse sentido, não deve ser considerada comum e impura, como o são os judeus e os pagãos; mas, em grande medida, sagrados e santos, como a nação dos judeus e de todos os prosélitos gentios é santa, antes da vinda de Cristo. Estes são chamados de ramos infrutíferos e, portanto, deverão ser cortados. Mas Deus tem um povo particular que é seu por vocação especial, pela aceitação cordial de Cristo, que tem aliança interna e sincera, e é santificado pelo sangue da aliança e pelo Espírito da graça, para que não apenas sejam separados dos infiéis declarados, mas também dos cristãos não regenerados, tornando-se ramos em Cristo e dando frutos; e para estes resta ainda o descanso em meu texto.Ser o povo de Deus sob seu domínio é fato para todas as pessoas, até mesmo para seus inimigos declarados; ser do Senhor por meio da aliança verbal, da profissão de fé e do chamado externo é fato para todos que estão na igreja visível e pertencem a ela, até mesmo traidores e inimigos secretos; mas ser do Senhor por eleição, por união a Cristo, pelo interesse especial, é propriedade particular daqueles que terão esse descanso. Esse descanso é para o povo de Deus graças à certeza, ou apenas graças à possibilidade?  A promessa é para os crentes, e eles podem saber (embora de forma imperfeita) que são esse povo; apesar de haver a condição de superar, de permanecer em Cristo e de resistir até o fim, ainda que essa condição tenha sido totalmente prometida, ela ainda continua absolutamente certa por causa da promessa.  Embora o propósito eterno de Deus não nos dê nenhum direito ao benefício, ainda assim o evento, ou o desfrutar dele, é certo graças ao decreto imutável de Deus, ao seu desejo eterno de que assim fosse, ao fato de ele ser a causa primeira e infalível que, no devido tempo, isso se realizará, ou resultará.

 

 

Capítulo 2

A DEFINIÇÃO DESSE DESCANSO

 

O sentido do texto, entretanto, inclui na palavra "descanso" tudo o que representa sossego e segurança, o que a alma--exausta por causa do fardo do pecado e do sofrimento, e perseguida pela lei, ira e consciência--tem com Cristo nesta vida, o descanso da graça, e por que, principalmente, almeja o descanso da glória eterna, como seu fim e a parte principal, mas restringirei meu discurso apenas a esse último.O descanso é o fim e a perfeição do movimento. O descanso do santo, aqui em questão, é o estado mais feliz de um cristão, quando chegar ao fim de seu percurso; ou o perfeito e eterno desfrutar de Deus pelos santos aperfeiçoados, de acordo com a medida da capacidade a que sua alma chega ao momento da morte; e tanto a alma como o corpo desfrutarão disso plenamente após a ressurreição e o julgamento final.Chamo isso de estado do cristão (embora a perfeição consista em ação, de acordo com o pensamento dos filósofos), o observar tanto o desfrutar passivo como o ativo, em que repousa a bênção cristã e a continuidade de ambos.. Nossa condição será perfeita e perfeitamente limpa; nós, e também nossa capacidade, aperfeiçoada; nossas posses e nossa segurança para sua perpetuidade, perfeitas; nos-so receber de Deus, perfeito; nossos movimentos, ou ações, nele e em relação a ele, perfeitos; e, portanto, nosso desfrutar dele e, por conseguinte, nossa felicidade, serão, naquele momento, aperfeiçoadas. Chamo esse estado de o mais feliz de todos, para diferenciá-lo não apenas de toda a aparente felicidade que encontramos no prazer da companhia das pessoas, mas também daqueles inícios, antecipação, ganhos, primeiros frutos e graus imperfeitos, tudo que temos aqui nesta vida, enquanto estamos apenas no caminho. Esse é o bem maior que o mundo há muito pleiteia, embora de forma equivocada, ou ainda o negligencie, e sem o qual o homem, mesmo com a confluência de todos os outros benefícios, é desgraçado. Chamo esse estado de cristão, mas tenho em mente apenas os cristãos sinceros, os regenerados e os santificados, cuja alma, ao descobrir a maravilha em Deus--algo que não se encontra no mundo--, por meio de Cristo e por causa disso estar próximo a ele e, cordialmente, estabelecido nele. Não quero com isso dizer todos os que nasceram em países em que o cristianismo é a religião predominante e o aceitam como qualquer outra peculiaridade cultural, tornando-se cristãos sem nem saber como ou por que; tampouco me refiro àqueles que professam a Cristo por meio de palavras, mas o negam em suas ações. Esse é um estado que muitos aspiram, e com muita convicção; e como eles sabem que apenas os cristãos o alcançam, declaram-se, portanto, cristãos. No entanto, multidões, por fim, saberão, para seu eterno pesar, que essa é apenas a herança dos santos, e apenas aqueles cristãos que não estão no mundo herdarão esse descanso. Acrescento que essa felicidade consiste da obtenção do fim, mas quero dizer com isso o fim supremo e derradeiro. Não o fim da conclusão, em relação ao tempo, pois todo homem tem seu fim; mas o fim da intenção, que leva a alma a agir e é a razão primeira de todas as suas ações.  O estado eterno, realmente, depende muito de nosso correto julgamento e apreciação de nosso fim!  Mas a grande dúvida de muitas pessoas é saber se a obtenção dessa glória pode ser nosso fim; não, concluíram eles, pois isso é ser mercenário; sim, pois tornar a salvação o fim da obediência é legalismo e o mesmo que agir sob a aliança das obras, cujo lema é: "Faça isso e viva". E muitos outros que acham que esse pode ser nosso fim, embora achem que talvez não seja nosso fim supremo, pois este deve ser apenas a glória de Deus. Responderei, de forma breve, a cada uma dessas posições.É apropriadamente chamado de mercenário, pois espera receber pelo trabalho feito, e, assim, não devemos fazer do pagamento nosso fim. De outra forma a ordem de Cristo não passaria de mercenarismo. Portanto, considere o que esse fim quer dizer, ele é o gozo de Deus em Cristo: e se buscar Cristo é ser mercenário, eu quero ser mercenário.Isso também não é uma observação legalista, pois o fundamento de muitos dos últimos equívocos em relação à divindade é achar que o lema: "Faça isso e viva", refere-se apenas à linguagem da aliança de obras. É verdade, em certo sentido, que é; mas, em outro sentido, não é. A lei das obras apenas afirma: "Faça isso", ou seja, cumpra perfeitamente toda a lei, "e viva", ou seja, por fazer isso; mas a lei da graça também diz: "Faça isso e viva"; ou seja, creia em Cristo, busque-o e lhe obedeça como seu Senhor e Rei; renuncie a tudo, sofra todas as coisas e supere, e, ao fazer isso, ou por fazer isso, como a condição que o evangelho propõe para a salvação, você viverá. Se, novamente, estabelecer a revogação das obrigações da lei, então você é legalista; se você estabelecer as responsabilidades do evangelho em lugar de Cristo, em sua totalidade ou em parte, isso ainda é um erro. Cristo tem seu lugar e sua missão; as responsabilidades também têm seu lugar e sua missão; ponha cada coisa em seu devido lugar e espere com isso apenas a parte que lhe é devida, e você estará no caminho certo.  Nenhum homem deve procurar mais responsabilidades do que as que Deus determinou; e podemos e devemos fazer isso. Para aqueles que pensam que esse descanso deve ser nosso fim, mas não nosso fim supremo, pois este deve ser apenas a glória de Deus, não me oporei a eles. Apenas espero que considerem que o que Deus uniu, o homem não deve separar. A glória de Deus e a salvação de seu povo não são dois decretos de Deus, mas apenas um, o de glorificar sua misericórdia na salvação de seu povo, embora devamos reconhecer que um é o fim do outro; assim, acho que eles deveriam estar juntos conosco em nossas intenções. Devemos objetivar a glória de Deus, mas não considerada por si só, sem a nossa salvação, mas em nossa salvação. Estou certo de que Cristo é oferecido à fé em termos que, em grande parte, respeita o bemestar do pecador, mais que sua glória em separado. Ele será recebido como Salvador, Mediador, Redentor, Reconciliador, Intercessor. E todos os preceitos das Escrituras, endossados por tantas promessas e ameaças, e Deus realmente quis que eles fossem nossa razão de viver, realmente deixam implícito outro tanto. Na definição, considero a felicidade do cristão como o fim de seu caminho, mas quero dizer com isso o mesmo que Paulo quando se referiu a todo o escopo de sua vida (2Tm 4.7). [...] Considero a felicidade a obtenção desse fim; pois isso não é a mera promessa daquilo que nos faz, de imediato, perfeitamente felizes, nem o mero resgate de Cristo, nem nossa mera busca, mas a apreensão e a obtenção que põem a coroa na cabeça do santo.  Ó que todos nós acreditemos firme e sinceramente que jamais seremos verdadeiramente felizes até esse momento! Portanto, não devemos cometer disparates para alcançar uma aparente felicidade aqui.

 

 

Capítulo 3

O QUE ESSE DESCANSO PRESSUPÕE

 

Para uma compreensão ainda mais clara desse descanso, você precisa saber que há algumas coisas necessariamente pressupostas nele.Todas estas coisas são pressupostas nesse descanso:A pessoa em movimento, em busca de descanso. O homem aqui está a caminho; anjos e espíritos glorificados já têm isso; e os demônios e os condenados não têm nenhuma esperança; um fim para o qual caminha para seu descanso; cujo fim deve ser suficiente para seu descanso; caso contrário, esse descanso, quando obtido, seria uma ilusão para o homem que para lá caminha. Esse descanso só pode ser Deus, o bem maior. Aquele que pega qualquer outra coisa para sua felicidade, já deu o primeiro passo para sair desse caminho. O principal pecado para a condenação é tornar qualquer outra coisa, que não Deus, nosso fim ou nosso descanso. E o primeiro verdadeiro ato salvador é escolher apenas Deus como nos-so fim e felicidade.Para esse fim, pressupõe-se certa distância; caso contrário, não haveria nenhum movimento em sua direção. Essa triste distância é fato penoso para toda a humanidade desde a queda; basicamente foi nosso Deus que perdemos, e fomos excluídos de sua graciosa presença. Embora haja comentários de perdermos apenas nossa felicidade terrena e temporal, tenho certeza de que a queda foi nossa separação de Deus, e foi a ele que perdemos e, por essa razão, dizemos estar sem ele no mundo. Pois o pecado não destruiu nosso ser, nem nos tirou o movimento; mas aniquilou a retidão e o bem-estar de nosso movimento. Quando Cristo vem com a graça regeneradora e salvadora, ele não encontra nenhum homem sentado e imóvel, uma vez que todos estão a caminho da ruína eterna, até que ele, pelo convencimento, os traz antes de mais nada a uma parada; e, pela conversão, faz com que, primeiro, o coração e, depois, a vida deles se voltem sinceramente para ele. Aqui se pressupõe o conhecimento do fim verdadeiro e supremo e de sua maravilha, bem como da intenção séria de alcançar esse fim. Pois o movimento da criatura racional prossegue: um fim desconhecido não é um fim; isso é uma contradição. Não podemos ter como fim aquilo que desconhecemos; tampouco nosso principal fim pode ser aquilo que não conhecemos, ou algo que não consideramos como o bem supremo. Um bem desconhecido não faz mover o desejo nem o esforço; portanto, sempre que não se reconhece que Deus é verdadeiramente esse fim, nem que o Senhor contém todo o bem, não há a possibilidade de se obter, de uma forma comum e conhecida, nenhum descanso, quaisquer que sejam as formas pelas quais Deus mantém esse fim em segredo. Aqui se pressupõe não apenas uma distância desse descanso, mas também o verdadeiro conhecimento dessa distância. Se um homem perdeu seu caminho e não o conhece, ele não procura retornar; se ele perde seu ouro, e não o conhece, ele não o busca. Portanto, talvez eles nunca saibam que estão sem Deus e, ainda talvez, não tenham se deleitado no Senhor; e, desse modo, eles nunca poderiam saber que estavam natural e realmente no caminho para o inferno, e que ainda não conhecem o caminho para o céu.  Esse é caso lamentável de milhares de pessoas, e a razão pela qual apenas poucos obtêm esse descanso: eles não podem ser convencidos nem tornar-se sensíveis a ele, pois eles, quanto à posição, estão distante desse caminho e, quanto à prática, são contrários a ele. Eles perderam seu Deus, sua alma, seu descanso, e não conhecem nada disso nem acreditam naquele que lhes disser isso. Quem viajaria para um local se achar que já está lá, ou quem procuraria algo que sabe que não perdeu? Aqui também se pressupõe uma causa superior para o movimento e uma influência proveniente daí, ou, caso contrário, todos ficaríamos imóveis e não daríamos um passo adiante em direção ao nosso descanso; da mesma forma que as pequenas engrenagens de um relógio de corda não se movem se a mola, ou o primeiro motor, for retirada. Esse primum movens primeiro motor é Deus. Se Deus não nos mover, não podemos nos mover; portanto uma parte muito necessária de nossa sabedoria cristã refere-se ao manter nossa subordinação a Deus e nossa dependência nele; e, ainda, estar no caminho onde ele caminha, e naquele caminho onde seu Espírito mais usualmente se move. Acautele-se para não ficar separado de Deus, nem afastar-se dele, nem relaxar em suas expectativas diárias da ajuda renovada, nem ficar insensível à contínua influência e assistência do Espírito. Assim que você começar a confiar em seu estoque habitual de graça, a depender de seu próprio entendimento ou resolução para a responsabilidade e para o santo caminhar, isso quer dizer que você está em um perigoso estado de declínio. Aqui se pressupõe um princípio interno da vida na pessoa. Deus não move um homem como se este fosse uma pedra, mas faz isso primeiro ao lhe doar vida, ao não permitir que se mova sem Deus, mas, por meio disso, ao qualificá-lo para que se mova por si, subordinado a Deus, o primeiro motor. Determinar qual a natureza des-sa vida espiritual é uma questão extremamente difícil. Se, como alguns acham (mas que considero um equívoco), for Cristo em pessoa e em essência, ou o Espírito Santo pessoalmente; ou, se, como outros distinguem (e desconheço em que sentido), for o Espírito Santo, mas não pessoalmente: quer seja por acidente, quer seja por qualidade, quer seja por substância espiritual, como a alma mesma; se for apenas um ato, uma disposição, ou um hábito, como geralmente se considera, quer seja um hábito infundido, quer seja adquirido por atos assíduos, aos quais a alma foi moralmente persuadida; quer seja um tanto distinto de um hábito, isto é, um poder, a saber, potentia proxima intelligendi, credendi, volendi, etc., in spiritualibus [o poder de entender as coisas próximas, o poder de crer nas coisas espirituais, o poder de querer etc.], o que alguns consideram como o mais provável -- muitas dessas dificuldades ocorrem, e serão dificuldades, apesar de a doutrina dos espíritos e das obras espirituais parecer tão obscura para nós, e isso sempre será assim enquanto o pó da mortalidade e da corrupção estiver em nossos olhos. Este é meu conforto: que a morte brevemente soprará este pó, e, naquele momento, isso e tantas outras coisas serão resolvidas. Nesse meio tempo, continuo cético e pouco conheço sobre toda essa doutrina dos espíritos e das obras espirituais, além daquilo que as Escrituras revelam claramente, como também creio que faremos muito bem em manter-nos próximos a sua linguagem.Aqui se supõe um movimento real antes do descanso; o descanso é o fim do movimento: sem movimento não há descanso. O cristianismo não é uma profissão nem emprego sedentários; tampouco consiste de meros negativos. Não fazer o bem não é o mal menor: sentar-se imóvel o fará perder o céu, como também o perderá se correr dele. [...] Sei que quando tivermos feito tudo, seremos servos inúteis; e ninguém que confie nos supostos méritos de suas obras pode ser cristão, no sentido apropriado; no entanto, aquele que esconde seu talento, receberá o salário de um servo indolente.Aqui também se supõe o movimento exatamente como foi ordenado e direcionado para o fim; e não é todo movimento, todo trabalho e toda busca que trazem o descanso. Nem todos os caminhos levam a esse fim; mas aquele cuja bondade decreta o fim, decreta, por meio de sua sabedoria e de sua soberana autoridade, o caminho. Nossos próprios caminhos, inventados por nós mesmos, podem parecer mais sábios, mais agradáveis, mais atrativos e mais eqüitativos aos nossos olhos; mas apenas o decreto de Deus é que poderá abrir essa fechadura, e ele é a melhor chave para abri-la.  Cristo é a porta; o único caminho para esse descanso. Alguns jamais permitirão que nada mais seja chamado de o caminho, com receio de que ele se afaste de Cristo. A verdade é que Cristo é o único Caminho para o Pai; no entanto a fé é o caminho para Cristo; e a obediência ao evangelho, a fé e as obras, esse é o caminho que os que estão em Cristo devem percorrer. Há, como antes, muitas condições para a submissão a Cristo, mas não há nenhuma que atue em conjunção com ele; assim, só o caminho de Deus nos levará a esse fim e a esse descanso.Aqui também se supõe o movimento, como o movimento corretamente ordenado, tão constante e firme para que se possa alcançar o fim. Se não pusermos força no arco, a flecha não alcança a marca; o mundo preguiçoso, que pensa muito, descobrirá, a um alto preço, isso um dia. Os que acham que menos trabalho poderia servir a esse fim reprovam a Cristo por nos fazer realizar tantas coisas. Aqueles que foram mais santos, cuidadosos e pacientes para alcançar a fé e a segurança acham, quando estão prestes a morrer, que realizaram muito pouco. Observamos diariamente os melhores cristãos, quando à beira da morte, arrependerem-se por sua negligência; mas jamais observei alguém se arrepender de sua santidade e de seu zelo.  Se o caminho para o céu não for mais árduo que o mundo imagina, então Cristo e seus apóstolos não conheciam o caminho, ou, então, eles nos enganaram.  Se alguma alma alcançar a salvação da forma comum, desleixada e fácil do mundo, então diria que esse caminho é mais curto que o que Deus, por meio das Escrituras, revelou aos filhos dos homens.  Deus conhece o caminho melhor que eles, e sua Palavra é o meio verdadeiro e infalível para descobri-lo.Também vi essa doutrina ser ignorada com desdém por pessoas que dizem: "O quê? Você quer dizer que nós devemos trabalhar para alcançar o céu? Nossa obediência contribui para algo? Cristo já não fez tudo? Isso não o torna um Salvador incompleto? E isso não é o mesmo que pregar a Lei?". Em resposta a esses questionamentos, devo dizer o que representa pregar a Lei de Cristo; é pregar a obediência a Cristo. Cristo fez e fará toda a obra e, portanto, é o Salvador perfeito, mas, mesmo assim, deixa algo para que nós façamos. Ele pagou todo o preço e não deixou nada para que nós pagássemos; no entanto, ele jamais teve a intenção de que seu resgate nos pusesse em uma condição absoluta, imediata e pessoal em relação à glória, isso em relação à lei, e muito menos que tomássemos posse imediata dela. Ele comprou a coroa para conferi-la apenas mediante a fé, aos que negam a tudo por ele, sofrem com ele, perseveram e vencem.  O que salva não é apenas a oferta do Salvador, mas o recebê-lo; não é apenas o sangue derramado de Cristo que salva plenamente, mas o lavar-se nesse sangue; tampouco Cristo nos leva para o céu em uma cadeira segura. Nossa justiça, que a lei das obras exige e por meio da qual é satisfeita, está totalmente em Cristo, e sabemos que nem um grão dela está em nós; tampouco devemos ousar pensar em costurar juntas a justiça legal de Cristo e a nossa; ou seja, achar que nossas ações podem ser a menor parte da satisfação por nossos pecados, ou ter algum mérito inerente. Contudo, nós devemos cumprir pessoalmente as condições da nova aliança e, dessa forma, ter uma justiça pessoal e evangélica, ou jamais ser salvo pela justiça de Cristo; portanto, não diga que não se refere à obediência, mas a Cristo; pois é Cristo em uma forma de obediência. Como a obediência não dispensa Cristo, também Cristo não pode dispensar a obediência.E esse movimento deve ser firme, como também deve ser constante; ou ele ficará aquém do descanso. Começar pelo Espírito e acabar pela carne, isso não levará os santos a alcançar seu fim. A certeza para a perseverança dos santos não torna inútil a admoestação para a constância; homens, tão santos quanto os melhores de nós, caíram . Até mesmo os discípulos de Cristo receberam ordens para continuar no amor de nosso Salvador, e isso se alcançaria por meio do guardar seus mandamentos e do permanecer nele, e da permanência de sua Palavra neles, como também da permanência de Cristo neles. Pressupõe-se também que para a obtenção desse descanso é preciso ter um intenso desejo por ele. O movimento da alma não é aquele que pede violência ou coação--ninguém pode forçar esse movimento --, mas é algo natural, de acordo com nossa nova natureza. Como tudo se inclina a seu próprio centro, também a criatura racional é carregada em todo seu movimento, por meio do qual deseja alcançar seu fim. Esse fim é a primeira coisa a que se almeja, e a que mais se deseja, embora seja a última a ser obtida. Observe esse fim e acredite nele, seja você quem for; jamais houve uma alma que tenha conseguido tornar Cristo e a glória seu principal fim, nem que tenha alcançado o descanso com Deus, se seu desejo não estivesse depositado nele, e esse desejo estivesse acima de todas as demais coisas existentes no mundo. Primeiro, Cristo traz o coração da pessoa para o céu, e só depois a pessoa.  Todo aquele que verdadeiramente se deleitou em Deus por intermédio de Cristo mais que em todas as outras coisas do mundo alcançará esse descanso; e todo aquele que desejou ter qualquer outra coisa não o alcançará, a menos que Deus o transforme. É verdade que o que resta de nossa velha natureza enfraquecerá muito esse desejo e o obstruirá, mas jamais o vencerá. O movimento apaixonado de nossos desejos é, com freqüência, mais forte em relação às coisas inferiores e sensoriais; mas a vontade ou escolha deliberada, nosso desejo racional, é principalmente proveniente de Deus.Finalmente, aqui se propõe a angústia e o cansaço em nosso movimento. Isso surge não de qualquer maldade na obra ou no caminho, pois o jugo de Cristo é suave; seu fardo, leve; e seus mandamentos, penosos, mas em virtude da oposição com a qual nos defrontamos, pois ainda restam em nossa natureza os princípios contrários, as fraquezas de nossa graça e, portanto, de nosso movimento.E com que esforço e arquejo um homem fraco sobe aquela montanha que o homem saudável escala correndo e com facilidade. Todos nós, até mesmo os melhores, somos fracos. Uma profissão de fé que jamais se depara com essas dificuldades e dores é um triste sinal de um coração doente. Cristo, na verdade, libertou-nos das impossibilidades da aliança das obras e do fardo e jugo das cerimônias legais, mas não das dificuldades e dores da obediência ao evangelho. Nossa contínua distância do fim também causará alguma tristeza; pois o desejo e a esperança, ao implicar a ausência da coisa desejada e esperada, sempre implicam alguma tristeza por essa ausência; e tudo isso se dissipa quando tomamos a posse. Portanto, aqui deveriam os cristãos depositar seu mais supremo cuidado e esforço. Faça a sua parte, e Deus certamente fará a dele. Examine seu coração e sua obediência, os quais Deus está sempre pronto a ajudar com sua graça, e o Senhor providenciará para que você não perca sua recompensa. Ó como muitos cristãos desonram a Deus e a si mesmos quando ficam mais apreensivos sobre a parte da obra de Deus que à deles mesmos, como se eles devessem suspeitar mais da fidelidade de Deus que do coração infiel e traiçoeiro deles! Esse descanso é glorioso, e Deus é fiel! A morte de Cristo é suficiente; e a promessa, livre, universal e verdadeira. Você não deve temer perder o céu por causa da deficiência ou da ausência de qualquer uma dessas coisas. No entanto, para tudo isso, a falsidade do coração do homem, se ele não o examinar, pode destruí-lo. Se você duvidar disso, acredite no Espírito Santo. "Visto que nos foi deixada a promessa de entrarmos no descanso de Deus, que nenhum de vocês pense que falhou" (Hb 4.1). A promessa é verdadeira, mas condicional. Jamais tema que o Senhor possa quebrar sua promessa, mas tema caso você não preencher totalmente a condição, pois nada mais poderia impedir você de alcançar esse benefício.

 

 

Capítulo 4

O QUE HÁ NESSE DESCANSO

 

Mas tudo isso se refere ao pátio externo, ou, pelo menos, não ao "Lugar Santíssimo", o mais santo de todos. Agora que já subimos os degraus, podemos olhar atrás do véu? Podemos mostrar o que há nesse descanso, como também o que ele pressupõe? Mas, ai de mim! Como conheço tão pouco o que estou prestes a descrever. Devo falar antes de conhecer? Mas se eu chegar até onde conheço bem, não terei de falar de novo. Portanto, falarei, enquanto puder, sobre aquele pouco, muito pouquinho que conheço, em vez de me calar totalmente. O Senhor revelará isso para mim, para que eu possa revelar para você; e o Senhor lançará luz para mostrar a mim e a você a herança que ele nos reservou,  como a pérola, descrita no evangelho, revelou-se ao comerciante que não sossegou até que tivesse vendido tudo que tinha para comprá-la; e como o céu se abriu para o abençoado Estêvão, quando ele estava prestes a ali entrar, e a glória da qual tomaria posse em breve lhe foi revelada.

 

I

Há nesse descanso a cessação do movimento ou da ação; não de todas as ações, mas apenas daquela que tem a natureza de um meio e implica a ausência do fim. Quando obtivermos o refúgio, nosso navegar se finda; quando o trabalhador recebe seu salário, isso quer dizer que ele cumpriu suas responsabilidades; quando estamos no fim de nossa jornada, já completamos o caminho. Todos os movimentos se findam no centro, e todos os meios cessam quando temos o fim. Portanto, as profecias desaparecem, as línguas cessam, e o conhecimento passa; ou seja, por ele ter a natureza de um meio e ser imperfeito. E, do mesmo modo, é possível dizer que a fé cessa, não toda fé, pois como poderíamos conhecer todas as coisas passadas, as que não vimos, mas apenas cremos nelas? Como poderíamos conhecer o juízo final, a ressurreição do corpo de antemão, se não fosse pela fé? Como poderíamos conhecer a vida eterna, a eternidade de alegrias que temos, se não fosse pela fé? Mas toda essa fé, que como um meio nos fez alcançar nosso fim, deve cessar. Não haverá mais oração, pois não mais será necessária, mas apenas a alegria plena por tudo aquilo pelo que oramos.  E não mais necessitaremos jejuar, e chorar, e estar atentos, pois estaremos fora do alcance do pecado e das tentações. E as exortações e o ensino não mais serão proveitosos; a pregação não mais existe, e o ministério do homem cessa, os sacramentos tornam-se inúteis, os trabalhadores são chamados, pois a colheita foi reunida; o joio, queimado; e o trabalho, findo, os irregenerados não mais têm esperança, os santos não mais sentem medo, e isso para sempre. E, menos ainda, haverá qualquer necessidade para trabalhar por objetivos menores, como o fazemos aqui, observando-se que todos eles serão devolvidos ao oceano do fim supremo, e o bem menor será totalmente tragado pelo maior de todos.

 

II

Nesse descanso encontramos a perfeita liberdade de todos os que nos acompanham ao longo de nossa caminhada, e que necessariamente seguem nossa ausência do bem maior.  Como Deus não reconhecerá os perversos com povo seu, também o céu não conhecerá a iniqüidade para recebê-las, pois ali não entra nada que esteja corrompido ou que seja imundo; ali não se encontra nada disso. E, indubitavelmente, ali não se conhece a tristeza nem o arrependimento. Tampouco encontramos ali faces pálidas, corpos lânguidos, juntas fracas, bebês doentes, decrepitude causada pelo envelhecimento, temperamento pecaminoso, doenças dolorosas, medos opressivos, preocupações desgastantes; e nada ali merece ser chamado de mal. Na verdade, um vendaval de murmúrios e suspiros e um rio de lágrimas nos acompanharam até as portas de nosso descanso e, ali, despedir-se-ão de nós para sempre. Nós choramos e lamentamos enquanto o mundo se alegra; mas nossa tristeza se transforma em alegria, e nossa alegria nenhum homem pode tirar de nós. Deus não seria o bem maior e perfeito, se o pleno gozo dele não nos livrasse de todo mal.

 

III

Nesse descanso, encontramos o mais alto grau da perfeição pessoal dos santos, tanto do corpo como da alma. Isso, necessariamente, os qualifica a desfrutar da glória e a compartilhar da doçura desse descanso. Se a glória não fosse tão grande, e se eles não se tornassem capazes, por meio da perfeição pessoal, a ajustar-se a esse lugar, ele seria menor para eles. É necessário que o recipiente tenha a disposição certa para desfrutar do regozijo e da emoção ali encontrados. Isso é uma das coisas que torna a alegria dos santos tão magnífica ali. Aqui, "olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam" (1Co 2.9) e que esperam nele. Pois nosso olho de carne não é capaz de ver isso; mas ali, o olho, o ouvido e o coração tornam-se capazes de desfrutar de tudo que o Senhor preparou para seus santos, ou, caso contrário, como eles poderiam desfrutar disso? Quanto mais perfeita a visão, mais prazeroso aos olhos é o belo objeto. Quanto mais perfeito o apetite, mais doce a comida. Quanto mais musical o ouvido, mais agradável a melodia. Quanto mais perfeita a alma, mais alegres essas alegrias e mais gloriosa é essa glória para nós.

 

IV

Nesse descanso, a parte principal dele, encontramos nosso gozo ao chegar mais próximo de Deus, o bem maior e mais importante. E aqui, caro leitor, não imagine se ficarei perdido e se minhas apreensões recebem pouco daquilo que está estampado em meu semblante. Se o discípulo amado, homem cheio das revelações do Senhor, ousou examinar os segredos de Cristo e falar sobre eles, e viu a Nova Jerusalém em sua glória, e viu a Cristo, Moisés e Elias, na parte desse descanso que lhes cabia; se o que será não apareceu para ele, não é de surpreender que eu conheça tão pouco. Por conhecer a Deus tão pouco, não posso conhecer muito sobre o desfrutar dele. Por conhecer minha alma tão pouco,  menos ainda conheço a Majestade infinita, ou a condição dessa alma quando estiver bem imersa nessa alegria! Por conhecer o espírito e os seres espirituais tão pouco, menos ainda conheço o Pai dos espíritos!  Contanto que a superstição ateniense se ajuste muito bem aos meus sacrifícios, "AO DEUS DESCONHECIDO", e enquanto não posso ter nem um riacho, então só posso ter muito pouco desse imenso oceano. Jamais seremos capazes de conhecer claramente até podermos desfrutar totalmente desse descanso; nem poderemos assim fazer até que realmente desfrutemos do Senhor. Que concepções estranhas do sol e de sua luz têm o homem que nasceu cego; ou da natureza dos sons e da música, o homem que nasceu surdo! Assim também nós não temos aquele sentido por meio do qual podemos conhecer a Deus claramente. Fico de pé para observar um formigueiro e vejo todas as formigas de uma vez, muito ocupadas com um pequeno propósito. Elas não me conhecem, tampouco conhecem meu ser, meus pensamentos ou minha natureza, embora eu seja uma criatura como elas; quão pouco, portanto, devemos conhecer o grande Criador, embora ele nos veja a todos de uma vez e continuamente. No entanto, o conhecimento que temos, embora imperfeito, passará. Os santos vêem apenas um reflexo, como em espelho, o qual nos capacita a ter um vislumbre pobre, bastante generalizado e obscuro do que veremos na glória. Como todo esse bem, qualquer que seja ele, está em Deus, e em todas as criaturas temos apenas gotas desse oceano, assim toda a glória dos abençoados está no alegrar-se no Senhor; e se houver alegrias intermediárias ali, elas não passam de gotas desse oceano. Ó alegrias plenas oferecidas ao cristão naquela única sentença de Cristo! Não trocaria esse versículo por nada do mundo, nem daria um grande tesouro para que fosse retirado da Bíblia: "Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que me deste" (Jo 17.24). Cada uma dessas palavras é cheia de vida e de alegria. Para esses, Cristo dará "o direito de comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus" (Ap 2.7). Se o Senhor lançar a luz de seu semblante sobre nós aqui, ele põe mais alegria em nosso coração que o mundo todo pode nos dar. E quanto maior será essa alegria quando estivermos em sua luz, pois aí não teremos trevas, e ele nos deixará plenos de alegria com seu semblante.

O benefício é extremamente alto.  Não ousaria pensar nas primazias nesta vida, conforme as Escrituras as apresentam, se essa não fosse a verdade expressa de Deus.  Isso mesmo, tão verdadeiro como o Senhor Deus é verdadeiro, assim se fará ao homem a quem Deus se deleita em honrar. Ó cristãos! Creiam nisso e considerem essa verdade. O sol, a lua, as estrelas e todas as criaturas foram chamadas a louvar ao Senhor? Então, o que seu povo deve fazer? Certamente, eles estão mais próximos dele e desfrutam mais dele que os brutos. Todas as obras dele louvam a Deus, mas, acima de tudo, os santos dele devem louvá-lo. A pobre alma clama das profundezas como se seu Pai estivesse surdo; algumas vezes, ele repreende as nuvens que se interpõe no caminho; outras vezes se enfurece com os vastos abismos que existem entre eles; outras vezes ainda, ele afasta o véu da mortalidade e acha que a morte se esqueceu de cumprir sua responsabilidade; ele sempre argumenta com o pecado que o separa do Senhor e anseia pelo momento em que se separará de sua alma, para que não possa mais ser separado de Deus. Oras, pobre cristão, com bom ânimo, está perto o tempo em que Deus e você estarão próximos, tão próximos quanto você poderia desejar; você habitará em sua família, e isso não é suficiente? É melhor ser porteiro nessa casa que desfrutar da porção do iníquo aqui. Você estará para sempre diante dele, ao redor do trono, na sala do trono com ele, na sala de sua presença. Você ainda gostaria de estar mais perto? Você será seu filho, e ele, seu Pai. Você será um com seu Filho, que é um com o Pai. O que mais você poderia desejar?

 

V

Nesse descanso, nesse desfrutar de Deus, há uma doce e constante ação de todos os poderes da alma e do corpo. Esse não é o descanso de uma pedra, em que se cessa todo movimento, quando ela atinge o centro.  Como o minério é lançado no fogo, uma pedra que ali é lançada sai tão pura quanto o metal, a ponto de merecer outro nome, e a diferença entre ela e o ouro é extremamente grande, e muito maior será a mudança de nosso corpo e de nossos sentidos, tão grande que nem podemos concebê-la. Se a graça faz com que um cristão difira tanto daquilo que era, a ponto de ele poder dizer a seu companheiro, "Ego non sum ego" Não sou o homem que era, quanto mais a glória nos transformará? Podemos dizer muito mais ainda: "Este não é o corpo que tinha, e estes não são os sentidos que tinha". Mas como não tenho outro nome para eles, nós o chamaremos de sentidos, chamaremos de olhos e ouvidos, visão e audição, mas só podemos imaginar a diferença esse tanto; que como um corpo espiritual, maior que o sol em glória, excede esse punhado frágil, fétido de carne, ou de imundice, que, agora, carregamos conosco; e nossos sentidos da visão e da audição excederão esses que agora possuímos. E, indubitavelmente, assim como Deus aumenta nossos sentidos e desenvolve nossa capacidade, também ele aumenta a felicidade desses sentidos e enche toda essa capacidade consigo mesmo. Uma certeza temos, o trabalho eterno desses santos abençoados será ficar diante do trono de Deus e do Cordeiro e louvá-lo para todo o sempre. À medida que o coração e os olhos deles se encherem com o conhecimento, a glória e o amor do Senhor, também a boca deles se encherá com os louvores de Deus. Prossigam, portanto, ó santos, enquanto estão na terra, nessa divina responsabilidade. Aprendam, ó aprendam aquela responsabilidade apropriada aos santos, pois na boca dos santos do Senhor o louvor de Deus é agradável. E se o corpo ocupar-se dessa responsabilidade, ó como a alma ficará enlevada! À medida que a força e as habilidades desse corpo ficam mais notáveis, também sua ação fica mais firme, e seu prazer, mais doce. À medida que os sentidos do corpo desempenham sua atitude e ação apropriadas, por meio das quais recebem os objetos e desfrutam deles, também a alma em sua ação desfruta de seu objeto, ao conhecer, ao pensar, ao lembrar, ao amar e ao alegrar-se encantadoramente com ele, e este é o deleite da alma. Por meio desses olhos, ela vê e, por meio desses braços, ela abraça. O conhecimento por si só é bastante desejável;  e qual, portanto, não seria o deleite deles ao conhecer o Deus da verdade. Que nobre faculdade da alma é essa compreensão! O conhecimento pode esquadrinhar a terra, medir o sol, a lua e o céu; pode prever um eclipse com precisão de minutos muitos anos antes de ela ocorrer; sim, mas o ápice de toda sua maravilha é o conhecer a Deus, o ser infinito que fez todas essas coisas; um pouco aqui, e mais um pouco, e muito mais daí por diante. Ó a sabedoria e a bondade de nosso abençoado Senhor! Ele criou o entendimento com tendência e inclinação naturais para a verdade como seu objeto; e à verdade superior e primeira como seu objeto superior e primeiro; e com receio de que nos voltemos a qualquer outra criatura, ele mantém essa verdade superior e primeira como sua prerrogativa divina, não comunicável a nenhuma criatura. O homem verdadeiro, estudioso e contemplativo sabe que isso é verdade; aquele que sente um doce abraço entre seu intelecto e a verdade, algo muito mais rápido que os olhos, o sentido mais rápido, é capaz de apreender seu desejado objeto. Mas o cristão verdadeiro, estudioso e contemplativo o conhece muito mais; ele é aquele que, algumas vezes, sentiu os abraços mais doces entre sua alma e Jesus Cristo, mais que qualquer verdade inferior poderia oferecer.  Cristão, você, algumas vezes, após mirar longamente o céu não pareceu ter um vislumbre de Cristo? Você não teve a sensação de ter estado com Paulo no terceiro céu, quer no corpo quer fora do corpo, e viu ali coisas indizíveis?  Você não olhou por um longo período o sol de Deus, até que seus olhos ficassem deslumbrados com a glória deslumbrante do Senhor? E o esplendor desse astro não faz com que todas as coisas daqui de baixo pareçam obscuras e cobertas de trevas quando você olha para baixo novamente; especialmente no dia em que você sofre por Cristo, o momento em que ele usualmente aparece de forma mais manifesta para seu povo? E não viu alguém, similar ao Filho de Deus, andando no meio da fornalha com você? Cristãos, acreditem em mim, sim, creiam em Deus, e, para todos os que aqui conheceram um pouco mais de Deus por intermédio de Cristo, isso é muito pouco em comparação com aquilo que deve ser chamado de conhecimento. A diferença entre nosso conhecimento aqui e o conhecimento que lá teremos é tão grande quanto a diferença entre nosso corpo carnal de agora e o corpo espiritual e glorificado que lá teremos; pois o conhecimento atual, como também este corpo, deve desaparecer para que o mais perfeito o possa suceder. Cristãos, não queiram, portanto, saber como é a vida eterna e conhecer a Deus e seu Filho Jesus Cristo; você realmente precisa saber que se deleitar em Deus e em Cristo é a vida eterna, e o deleite da alma está nesse conhecimento.E, indubitavelmente, não se pode considerar a memória indolente nem inútil quando se ocupa com esse trabalho, nem que seja ao olhar para o que já passou a fim de valorizar seu deleite. Nosso conhecimento aumenta, e não diminui; portanto, o conhecimento das coisas passadas não nos será retirado; e o que é esse conhecimento a não ser a lembrança? Sem dúvida, daquela altura, o santo pode olhar tanto para o que ficou para trás como para o que está diante dele; e comparar as coisas passadas com as presentes deve fazer surgir, na alma abençoada, estima inconcebível e senso de sua condição. Subir naquele monte, em que podemos ver, ao mesmo tempo, o deserto e Canaã; e estar no céu e olhar para a terra, e pesar os dois juntos na balança do sentido de comparação e de julgamento, como isso deve transportar a alma e fazê-la clamar: "Foi esse resgate que custou tão caro quanto o sangue de Cristo? Não é de admirar: ó preço abençoado! E três vezes abençoado o Amor que o inventou e consentiu com isso! É esse o fim último da fé? É esse o fim do operar do Espírito? Os vendavais da graça me arrastaram para esse porto? É deste lado que Cristo atrai minha alma?

 Ora, minha alma, você não fica envergonhada por ter questionado aquele amor que o trouxe até aqui? Por ter desconfiado da fidelidade de seu Senhor? Por ter duvidado do amor de Deus quando deveria apenas suspeitar de si mesma? Por não viver continuamente enlevada pelo amor de seu Salvador? E por ter, alguma vez, sufocado um movimento do Espírito Santo? Você não se envergonha de todos os pensamentos cruéis que dedicou a este Deus; de todas suas interpretações equivocadas, e de toda sua murmuração em relação a todas as providências, e de todos seus queixumes por causa de todas as formas que esse fim tem? Agora você está suficientemente convencida de que esses caminhos, que chamou de árduos, e o cálice, que chamou de amargo, eram totalmente necessários; de que seu Senhor tem fins mais doces e queria lhe fazer mais bem do que você pudesse imaginar; e de que seu Redentor a estava salvando, tanto quando contrariava seus desejos como quando os concedia; tanto quando partia seu coração como quando ele a abraçava?  Assim, como a memória do iníquo promoverá eternamente o tormento dele, ao examinar os prazeres que desfrutava, o pecado cometido, a graça recusada, Cristo negligenciado e o tempo perdido, também a memória dos santos proporcionará para sempre sua alegria.

 

VI

Mas a alegria plena, íntima e doce é aquela das emoções, do amor e da alegria; e ela é íntima, pois o amor é a essência da alma, e o amor a essência de Deus. "Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele" (1Jo 4.16).  Agora a pobre alma clama, ó, que eu possa amar mais a Cristo! Mas--ai de mim!--não consigo; sim, mas você não pode fazer nada a não ser escolher amar ao Senhor; eu quase disse, abstenha-se disso se puder.  Bem, sua salvação não é aperfeiçoada, nem suas misericórdias compradas; contudo, desista; mas quando a lápide for lançada, você, aos berros, implorará: "Graça, graça!". Agora, sua santificação é imperfeita, e seu perdão e justificação não são tão completos como o serão em nosso descanso eterno; agora você não conhece aquilo que lhe traz alegria e, portanto, ama o que é menor; mas quando você sabe que muito lhe foi perdoado e muito lhe foi concedido, você amará ainda mais.  Cristãos, o seu amor não se agita quando se lembram de todas as experiências e as manifestações do amor do Senhor, quando olham em retrospectiva para a vida de misericórdias? A gentileza não os faz derreter, e a luz da divina bondade não aquece o coração enregelado de vocês? O que ele fará naquele momento em que você viverá imerso em amor e tiver tudo nele, que é tudo? Ó deleites do amor, desse amor; a alegria que o coração encontra nele; a satisfação que ele nos traz junto com ele! Certamente, o amor é trabalho e retribuição!E se isso fosse tudo, que grande favor Deus nos prestaria ao permitir que o amemos; que ele se digne a ser abraçado por braços que já abraçaram o pecado e a ganância antes de abraçá-lo. Ele retribui amor por amor; não mil vezes mais, pois, por mais perfeitos que sejamos, não podemos alcançar a medida de seu amor. Cristão, você transbordará de amor; mesmo que ame o tanto que lhe for possível, deverá ser dez mil vezes mais amado. Você acha que não conseguiria amá-lo em demasia? Como! Amar mais que o Amor? Os braços do Filho de Deus não estavam sobre a cruz, e seu lado não foi perfurado com a lança, e esse coração e esses braços não estarão abertos para você na glória? Ele não começou a amá-lo antes que pudesse amá-lo e não continuará a amá-lo agora? Ele não amou você, um inimigo; você, um pecador; você que, até mesmo, despreza a si mesmo, e o comprou como seu quando você o repudiou? E ele não amará imensamente você, um filho; você, um santo perfeito; você, que retribui amor com amor? Você está habituado a questionar seu amor? Duvide deste amor agora, se puder.  Aos seus olhos, ser amado por Deus é algo pequeno? Cristão, creia nisso e pense sobre isso. Você será eternamente abraçado nos braços desse amor, que sempre foi eterno e durará por toda a eternidade; este amor que trouxe o Filho de Deus do céu para a terra, da terra para a cruz, da cruz para a sepultura, da sepultura para a glória; este amor que ficou cansado e faminto, e que foi tentado, escarnecido, açoitado, esbofeteado, humilhado, crucificado e furado com uma lança; esse amor que jejuou, orou, ensinou, curou, chorou, suou, sangrou, morreu --, esse amor o abraçará eternamente. Quando o amor perfeito e criado e o amor mais perfeito e incriado se encontrarem, ó abençoado encontro!  Cristo é a pedra preciosa poderosa, atraente e eficaz que atrai para si todos que são semelhantes a ele.  Você agora não tem mais de lidar com criaturas inconstantes, mas apenas com ele "em que não há mudança, nem sombra de variação", Tg 1.17, o Deus imutável.

O que devemos dizer a essas coisas? O amor infinito certamente é um mistério para a capacidade finita. Não é de admirar que os anjos desejem espreitar esse mistério; e a responsabilidade dos santos aqui é procurar descobrir a altura, a largura e a profundidade desse amor, embora ele ultrapasse qualquer entendimento. E o descanso dos santos é esse deleitar-se em Deus por meio do amor.

 

VII

O sentimento de alegria não tem a menor participação nesse deleitar-se. É a isso que todo o descanso nos leva e a isso que se resume; exatamente a complacência que os abençoados sentem ao ver, ao conhecer e ao amar a Deus e também ao ser o amado do Senhor.  Essa é a "pedra branca com um novo nome nela inscrito, conhecido apenas por aquele que o recebe" (Ap 2.17); e se há alguma alegria que o estrangeiro desconhece, então, certamente, e acima de tudo, é essa. Todos os caminhos da misericórdia de Cristo levam às alegrias dos santos e ali findam. Ele chorou, entristeceu-se e sofreu para que eles pudessem se regozijar; ele enviou o Espírito Santo para ser o Consolador deles; ele multiplica suas promessas, revela a felicidade futura deles para que a alegria deles possa ser plena; as misericórdias do Senhor para com eles sobejam; ele os faz repousar em verdes pastagens e os conduz a águas tranqüilas; sim, o Senhor abre as fontes de água viva para que a alegria deles seja plena; para que não mais tenham sede e para que a vida eterna brote neles. Sim, ele permitiu que sofressem para que pudessem regozijar-se; e os purificou para que pudesse lhes dar o descanso; e os fez beber de um ribeiro à beira do caminho para que pudessem erguer a cabeça.

Ó quão grande alegria será essa; em que a alma foi perfeitamente preparada para a alegria, e a alegria preparada por Cristo para a alma, e o regozijo será eternamente nosso trabalho e nossa responsabilidade!  Sua pobre alma que ora por alegria, que espera pela alegria, que reclama em razão da falta de alegria, que anseia pela alegria--oras, naquele momento, você terá a alegria plena, tanta que não poderá abraçá-la, e muito mais que foi capaz de imaginar, e seu coração de desejar. E, nesse meio tempo, ande cuidadosamente, esteja sempre atento e, depois, deixe que Deus meça seu tempo e sua medida de alegria. É possível que o Senhor os guarde até que você não tenha mais necessidade deles: é melhor perder o conforto que a segurança. E não apenas a sua alegria; é alegria mútua, como também amor mútuo. Houve tal alegria no céu quando você se converteu, e não haverá nenhuma em sua glorificação? Os anjos não lhe darão as boas-vindas e o saudarão por sua chegada segura? Sim, essa é a alegria de Jesus Cristo; pois agora, quando alcançarmos nossa alegria, ele tem o fim da obra que realizou, ao sofrer e morrer; quando ele for "glorificado em seus santos e admirado em todos os que creram" (2Ts 1.10). Somos sua semente e o fruto do trabalho de sua alma e, quando ele nos vir, ficará satisfeito. Essa é a colheita de Cristo, quando ele ceifará a colheita de seu trabalho; e quando ele vir que não foi em vão, isso não o fará se arrepender de seus sofrimentos, pois ele se alegrará com sua herança resgatada, e seu povo se alegrará nele.Sim, o Pai também acrescenta alegria a nossa alegria. Da mesma forma que entristecemos seu Espírito e o cansamos com nossas iniqüidades, ele também se alegra com nosso bem. Ó como ele aqui observa prontamente o retorno do filho pródigo, mesmo a grande distância; como ele corre para encontrá-lo; e a doce compaixão com que o abraça ternamente e o beija; e veste-o com a melhor veste, e coloca um anel em seu dedo e calçados em seus pés, e escolhe um novilho gordo para que possam comer carne e celebrar! Esse realmente é um encontro afortunado; mas não é nada em comparação com os abraços e a alegria do último e grandioso encontro.Sim, e ainda mais. Deus ama e se alegra mutuamente, e ele também faz desse nosso descanso o seu descanso. Ele não instituiu o sábado como descanso dos seis dias de trabalho quando viu que tudo que fizera ficou bom, e muito bom? E que eterno sabatismo teremos naquele momento em que toda a obra de redenção, de santificação, de preservação e de glorificação estiver completa, e sua obra estiver mais perfeita que nunca, e realmente ficar muito boa! Assim, afirma-se que o Senhor se regozija e se deleita com seu povo. Ó, cristãos, escrevam estas palavras em letras de ouro: "O SENHOR, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo"

 

Capítulo 5

OS QUATROS GRANDES PREPARATIVOS

PARA NOSSO DESCANSO

 

Assim, ao abrir uma janela na direção do templo, permitindo um breve vislumbre dos fundos desse descanso dos santos que vi no espelho do evangelho, vimos a seguir as abençoadas características desse descanso.

E, por essa razão, amados cristãos, descobrimos "um novo e vivo caminho" (Hb 10.20), consagrado para nós por meio do véu; o corpo de Cristo por meio do qual podemos entrar de forma ousada no Lugar Santíssimo; o sangue de Cristo por meio do qual chegarei mais perto com a mais plena confiança; e descobrir que a espada flamejante foi removida e, assim, poderemos mais uma vez ver o paraíso de nosso Deus. Para vocês, cristãos, preparou-se esse manjar, despejou-se esse vinho, abriu-se essa fonte!

Consideremos as grandes preparações, aquela notável introdução para esse descanso; pois o pórtico desse templo é supremamente grandioso, e a porta dele chama-se Formosa; e aqui essas quatro coisas oferecem-se a si mesmas como os quatro cantos desse pórtico.

 

I

A gloriosa vinda e manifestação do Filho de Deus. Que a vinda de Cristo seja bem estimada na glória de seu povo.  Ele santificou-se a si mesmo em sua missão em favor de seu povo, por quem ele veio a este mundo, sofreu, morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus; e por quem ele retornará. A partida do noivo não se deu por causa de divórcio, e ele não nos deixou com o propósito de não mais retornar; ele deixou garantias suficientes para nos assegurar disso.  Recebemos, com freqüência, pequenos indícios de seu amor, os quais servem para nos mostrar que ele não se esqueceu nem de sua promessa nem de nós. Nós observamos os precursores dessa vinda, profetizada por ele mesmo, acontecer todos os dias. Vemos a figueira estender seus galhos e, portanto, sabemos que o verão se aproxima. Vemos os campos brancos, prontos para a colheita. Que os santos levantem sua cabeça, pois sua redenção se aproxima. Por Deus, companheiros cristãos, o que devemos fazer, se nos-so Senhor não retornar?  Ele apenas nos comprou por um alto preço para depois nos jogar fora, abandonando-nos ao pecado, ao sofrimento, aos lamentos, à morte diária para não mais retornar para nós? Isso não acontecerá; jamais tema isso, pois não pode ser assim. Isso se assemelha à forma indelicada como tratamos a Cristo, pois, quando nos sentimos abrigados e confortáveis neste mundo, não nos importamos em chegar até ele; mas essa não é a forma como Cristo nos trata. Aquele que veio para sofrer certamente virá para triunfar; e aquele que veio para nos comprar certamente virá para tomar posse daquilo que é seu.  Cristãos, Cristo fez-nos renunciar ao mundo todo e ser esquecido pelo mundo todo; a odiar tudo e ser odiado por todos; e tudo isso por ele, para que possamos ter a ele, em vez de todo o resto; e, depois disso tudo, ele mesmo, assim pensa você, esquecerá  de nós e renunciará a nós? Que esse pensamento fique bem distante de nosso coração. Mas por que ele não ficou com seu povo já que estava aqui? Por quê? O Consolador não deveria ser enviado? A missão na terra não estava completa? Ele não deveria receber a recompensa e entrar em sua glória? Ele não deveria tomar posse em nosso favor? Ele não deveria preparar um lugar para nós? Ele não deveria interceder junto ao Pai, e pedir em nome de seus sofrimentos, e ser cheio do Espírito para dar e receber autoridade, e subjugar seus inimigos? Nossa permanência aqui é breve e, se ele tivesse ficado na terra, o que representaria para nós desfrutar dele alguns dias e depois morrer? Mas ele habitará em meio a muitos santos e justos de muitas gerações aperfeiçoados ali. Ademais, ele quer que vivamos pela fé, não pela visão. Ó companheiros cristãos, que dia será aquele para nós, que estávamos prisioneiros, quando o Senhor mesmo virá nos buscar?  Sua vinda não será como a primeira, em simplicidade, e em pobreza, e em humilhação; ele não mais virá para ser negligenciado e desprezado. E, no entanto, essa primeira vinda -- que, por nossa causa, necessariamente aconteceu em enfermidade e vergonha -- não quis a sua glória.  Se as estrelas do céu guiaram homens de partes remotas do mundo para vir adorar uma criança em uma manjedoura, como a glória de sua segunda vinda não constrangerá o mundo todo para que reconheça sua soberania?  Ó com que proclamação de bênçãos, de paz e de glória ele virá na direção da Nova Jerusalém!Menciona-se, com freqüência, essa vinda de Cristo nos profetas, um grande apoio ao espírito de seu povo até o momento; e sempre que os apóstolos precisavam de avivamento para sua missão, ou conforto, ou encorajamento para esperar pacientemente, eles, em geral, alcançavam esse intento ao mencionar a vinda de Cristo. Assim, por que não usamos mais essa sincera consideração sempre que quisermos apoio e conforto?  E os santos não clamariam com inimaginável alegria, "Lá vem ele em quem confiamos e, agora, vemos que ele não ludibriou nossa confiança; ele, por quem há muito esperamos, e a quem, agora, vemos que não esperamos em vão". Pensei sobre isso muitas vezes, como um pequeno emblema daquele dia, quando vi um exército vitorioso aproximar-se de cidades e castelos do inimigo. Ó como o coração de todos os prisioneiros se alegra quando estes ouvem as notícias e observam sua chegada! Como eles correm para a janela de sua prisão e, dali, os observam com alegria! Como eles berram: "Liberdade, liberdade"!  Ó, quando o Leão de Judá, nosso Conquistador, aparecer junto com todos os exércitos celestiais; quando ele surpreender o mundo desatento e descuidado, como um ladrão à noite; quando chegar como um relâmpago que sai do Oriente e se mostra no Ocidente, assim eles devem observar sua chegada; e que mudança essa visão operará tanto no mundo como nos santos!  Onde está aquele coração profano e desatento que despreza Cristo e seu Espírito, e que resistiu a todas as ofertas da graça? Cristãos, não deveríamos apresentar fervorosamente esta petição: "Venha o teu Reino!" (Mt 6.10); pois "o Espírito e a noiva dizem: 'Vem!'" (Ap 22.17). E que todo cristão que ouça e leia isso diga: "Vem". E ainda agora, vem, Senhor Jesus!

 

II

A segunda corrente que nos leva ao Paraíso é aquela grande obra de Jesus Cristo, ao ressuscitar nosso corpo do pó, unindo-o nova-mente à alma. Um feito maravilhoso de poder e de amor infinitos. Deixe-me, com reverência, como Eliú, suplicar a Deus e a esse poder por meio do qual espero ressuscitar. Você vê esse enorme corpo maciço, a terra? O que a sustenta, e sobre quais alicerces ela se assenta? Veja esse vasto oceano de águas! O que fixa seus limites, e por que ele não transborda e inunda a terra? De onde surge o constante fluxo das marés baixas e altas?  Olhem para cima. Não vê aquele glorioso corpo de luz, o sol? Quantas vezes mais ele é maior que a terra e, mesmo assim, quantos milhares de quilômetros ele percorre em um minuto, e isso sem se cansar nem falhar por um minuto sequer? O que você acha? Não acha que o poder que faz tudo isso é capaz de o ressuscitar? Você não vê, todos os dias, obras tão grandes quanto a ressurreição diante de seus olhos, mas, em virtude de elas se tornarem comum, não mais as admira? Ressuscitar dos mortos não é tão fácil quanto fazer o céu e a terra, e fazer tudo isso do nada?  Portanto, não olhe para os ossos mortos, o pó, e as dificuldades, mas apenas para a promessa.  Que deitemos em paz e cheguemos ao nosso descanso; essa não será uma noite eterna, nem um sono eterno.  Tão certo como acordamos de manhã, após dormir a noite toda, também acordaremos naquele momento.  Se o que você mais teme é o desnudar-se, oras, pode vestir sua melhor roupa. Se for o ficar ao relento o que você mais teme, oras, lembre-se, nesse momento, que "se for destruída a temporária habitação terrena em que vivemos, temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna nos céus, não construída por mãos humanas" (2Co 5.1). Entregue de bom grado esse corpo natural, terrestre; acredite nisso, você o receberá de novo, um corpo celestial e espiritual. E você, embora o deite na lama com grande desonra, o receberá na glória com honra; e, embora se separe dele por meio de sua fragilidade, ele será novamente levantado e se unirá a você por meio do poder divino.  Triunfem agora, ó cristãos, nessas promessas; brevemente vocês triunfarão no cumprimento delas. Pois esse é o dia em que o Senhor fará isso, e, naquele momento, nós regozijaremos e nos alegraremos. O sepulcro que não pôde reter nosso Senhor também não pode nos reter: ele ressuscitou para nós e, pelo mesmo poder, também nos ressuscitará. "Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram" (1Ts 4.14). Ó, escreva essas doces palavras em seu coração, cristão. "Porque eu vivo, vocês também viverão" (Jo 14.19).  Além dessa vida, temos "agora a sua vida [que] está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória" (Cl 3.3,4). Ó, que não sejamos como o mundo obtuso que não consegue enxergar longe, e não miremos a cova, mas fixemos nosso olhar na ressurreição que fica além dela. A fé tem visão apurada e consegue enxergar  tão longe quanto a eternidade. Portanto, que nosso coração se alegre; nossa carne também repousa em esperança. Sim, "portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil" (1Co 15.58).

 

III

A terceira parte deste prólogo ao descanso dos santos é o processo público e solene em seu julgamento, do qual eles devem primeiro ser inocentados e justificados; e, depois, com Cristo, julgar o mundo. Público, posso muito bem dizer isso, pois todo o mundo deve comparecer a ele: jovens e velhos de todas as posições sociais e de todas as nações devem ali comparecer e receber seu julgamento. O julgamento deve ser estabelecido; e os livros, abertos; e o livro da vida, apresentado. Ó, que dia aterrador! Ó que dia jubiloso! Terrível para aqueles que permitiram que sua lâmpada apagasse e não ficaram atentos, pois se esqueceram da vinda de seu Senhor! Jubiloso para os santos, cuja espera e cuja esperança era ver esse dia. Naquele momento, o mundo verá a bondade e a severidade do Senhor; aos que perecem, severidade; mas aos escolhidos, bondade, quando todos terão de prestar contas de sua administração.  Pecador, já passou o tempo em que Cristo pediria, mas você não ouviria. Naquela época, ele o seguia, em vão, com súplicas. Pecador, não seja leviano, pois assim como você viveu, também verá aquele dia, exceto se uma minuciosa transformação, ao aceitar a Cristo, previna isso.  Pobre e descuidado pecador, não acho que disse muito para você aqui; pois minha responsabilidade é renovar os santos; mas se essas linhas caírem em suas mãos e você dignar-se a lê-las, eu, aqui, recomendo que você, diante de Deus e do Senhor Jesus Cristo, apresse-se para ficar sozinho e ponderar muito sobre essas coisas. Pergunte ao seu coração: "Isso é verdade, ou não; haverá um dia como esse, e eu o verei?

O que eu farei naquele momento? Por que continuar a gastar o tempo com coisas inúteis? Já não é tempo de que me certifique de que tenho Cristo e seu conforto? Já não deveria ter feito isso há muito tempo? Devo, após perder tanto tempo, sentar-me inerte mais um dia?"  Ó, pense nessas coisas! Algumas horas melancólicas gastas com essa séria antecipação é uma prevenção barata; ou isso vale a pena, ou não vale nada!  Mas, ó alma humilde e graciosa, por que estremecer?  O Senhor não conhece seu rebanho que ouviu sua voz e o seguiu?  Ele, cuja primeira vinda não foi para "condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele" (Jo 3.17), assim tenho certeza, não tem a intenção de condenar seu povo, mas sim quer que este seja salvo por meio dele. Ele já nos deu vida eterna por título e por posição e também, sim, já tomamos, parcialmente, posse dela; e ele nos condenará depois disso? Quando ele nos deu a possibilidade de conhecer a seu Pai e a si mesmo, ele nos deu a vida eterna.  Se nosso juiz era nosso inimigo, como ele é para o mundo, então poderíamos muito bem temer; pois nosso Juiz é Cristo, aquele que morreu, bem, melhor dizendo, aquele que ressuscitou e faz petições a nosso favor.  Que alegria inexprimível isso representa para o crente: de que nosso querido Senhor, que ama nossa alma, e quem nossa alma ama, será nosso Juiz!  Cristãos, ele veio ao mundo, e sofreu, e chorou, e sangrou, e morreu por você, e agora ele o condenará?  Sua salvação custou-lhe tão caro, para agora ele o destruir? Ele já fez o máximo para o mundo, ao redimir, regenerar, santificar, justificar, preservar e aperfeiçoar você, e agora ele desfará tudo isso novamente? Ele não acabará o que já começou? Este é o dia da justificação plena do crente. Eles já foram justificados antes, e considerados justos e, pela fé, justificados na Lei; e isso, para alguns, foi evidenciado à consciência deles. Mas agora eles devem, por defesa, manter-se justo e, por sentença, declarados realmente justos pela voz vigorosa do Juiz; e esta é a mais perfeita justificação. Portanto, aquele momento pode ser chamado de tempo de refrigério, pois, para os santos, é a conclusão de todos os refrigérios anteriores. A sentença de perdão, proferida pelo Espírito e pela consciência que habitam em nosso interior costumava ser extremamente doce; mas isso resolverá a questão de uma vez por todas e, para todo o sempre, não deixará espaço para novas dúvidas.  E, agora, não basta isso para tornar aquele dia um dia bem-vindo aqui, e o pensar nele algo que nos deleita?  Mas ainda há mais. Devemos ficar muito distantes do temor desse julgamento, pois nós mesmos seremos os juízes! Cristo levará seu povo, por assim dizer, em comissão com ele; e eles se sentarão e aprovarão o justo julgamento do Senhor. Paulo declara: "Vocês não sabem que os santos hão de julgar o mundo?  Vocês não sabem que haveremos de julgar os anjos?" (1Co 6.2,3). Certamente, se não fosse a Palavra de Deus que afirmasse isso, essa idéia pareceria incrível, e a idéia, arrogante. Assim serão os santos honrados, e "os justos triunfarão sobre eles" (Sl 49.14) pela manhã. Regozijem-se, portanto, ó santos, mas fiquem atentos e segurem firme aquilo que vocês têm até que o Senhor venha.  Sigam o seu caminho, fiquem próximos de Deus e esperem até que sua transformação ocorra, e até que esse fim aconteça. "Você descansará e, então, no final dos dias, você se levantará para receber a herança que lhe cabe" (Dn 12.13).

 

IV

O quarto antecedente, e o passo mais alto para o avanço dos santos, é sua coroação solene, em que serão entronizados e recebidos no reino. Pois, como Cristo, o Cabeça, foi ungido Rei e Sacerdote, também eles, sob o comando dele, serão transformados em reis e sacerdotes de Deus, para reinar e oferecer louvores para todo o sempre. A coroa de justiça que foi preparada para eles deverá ser, naquele dia, entregue a eles  pelo Senhor, o justo Juiz, e, de acordo com seus talentos, seu governo e dignidade serão aumentados, de forma que eles não são dignificados com títulos vazios, mas com domínios reais: pois Cristo os tomará e os estabelecerá, com ele, em seu próprio trono e lhes dará poder sobre as nações e lhes dará o mesmo que recebeu de seu Pai, a estrela da manhã.  Eles serão entronizados com proclamação solene e abençoada: "Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo" (Mt 25.34). Vida e alegria em cada uma dessas palavras! "Venham", esse é o momento em que ele estende o cetro de ouro para permitir que nos aproximemos dessa glória.  O gozar desse reino é como o gozar da luz do sol; cada um tem o todo, e, não obstante, o resto. O amor eterno lançou o fundamento. Ele preparou o reino para nós e, depois, preparou-nos para o reino.  Esses são os pensamentos eternos do amor de Deus em relação a nós, e isso é o que ele propõe para nós.Mas surge uma grande dificuldade. Em que sentido é possível alegar, como a razão de nossa coroação e glória, o aperfeiçoamento de nosso talento por fazer o bem, por conseguir vitórias, por trabalhar, visitar e alimentar Cristo por meio de seus pequeninos? Isso não é o mero fruto do que Cristo comprou com seu sangue? Se todo homem deve ser julgado de acordo com suas obras e receber de acordo com o que fez aqui, quer tenha praticado o bem quer tenha praticado o mal, e Deus "retribuirá a cada um conforme o seu procedimento" (Rm 2.6) e dará a vida eterna a todos os homens se eles pacientemente continuarem na prática do bem; e se essa última sentença de absolvição completar nossa justificação, e se "os que obedecem à Lei serão declarados justos" (Rm 2.13)--ora, então, o que acontece com a graça, a justificação pela fé somente, ou a justiça de Cristo para que sejamos aceitos? Então, os papistas estavam corretos ao afirmar que somos justos por nossa justiça pessoal, e nossas boas obras concorrem para nossa justificação.  Atente para isso, a alma que não é humilde é muito mais apta a dedicar-se às responsabilidades e à justiça pessoal que a Cristo; assim também um cristão humilde e abnegado, por outro lado, tem a tendência de também errar ao dar menos importância às responsabilidades do que Cristo deu e lançar todas as responsabilidades que são suas sobre Cristo, por temor de roubar a Cristo a honra que lhe é devida; e ele olha tanto para Cristo sem se levar em consideração e acha que não deve olhar para nada em si mesmo, que acaba por esquecer que Cristo habita em seu interior. Quando negamos a obra interna de santificação de seu Espírito e exaltamos a justificação pela graça, frutos igualmente de seu mérito, nós o tornamos um Salvador imperfeito. Mas arrogar a nós qualquer parte da prerrogativa de Cristo é a situação mais desesperadora de todas, e nenhuma doutrina nega mais o evangelho que a da justificação por méritos nossos ou por obras da lei.Assim, sondamos, pelas linhas e prumo das Escrituras, essa corrente quádrupla e vemos o cristão aportar seguramente no Paraíso e, nessa carruagem de fogo com quatro rodas, ser conduzido honrosamente ao seu descanso. Agora, consideraremos seus privilégios e examinaremos se existe glória como essa.

 

 

Capítulo 6

ESSE DESCANSO MAIS MAGNÍFICO,

DESCOBERTO PELA RAZÃO

 

O próximo assunto a ser tratado diz respeito às excelentes propriedades desse descanso e aos seus admiráveis atributos que, como as muitas jóias, adornarão a coroa dos santos. Antes de discorrer sobre elas em particular, tentemos compreender essa alegria pela regra dos filósofos para ver se eles não aprovarão esse bem mais transcendental; não como se eles fossem o teste suficiente, mas para que tanto a pessoa comum quanto o santo possam perceber quando algo entra em competição com essa glória do pré-iminente, a razão mesma não aceitará isso. Bem, seguindo a ordem do bem para o mal, o filósofo lhe dirá que por essas regras você pode saber o que é melhor.

 

I

O que se deseja e se busca por si mesmo é melhor que o que se deseja para alguma outra coisa; ou, o fim, como tal, é melhor que todos os meios. Isso conclui em favor da pré-eminência do céu. Todas as coisas não passam de meios para aquele fim. Se nada aqui é excelente, isso acontece por aqui ser um passo para lá chegarmos; e quanto mais ele nos conduz nessa direção, mais ele é excelente. A salvação de nossa alma é o fim último de nossa fé, de nossa esperança, de nosso zelo, de todas as misericórdias, de todas as ordenanças, como já comprovado anteriormente. Não se deseja nem se usa tudo isso por si mesmo, mas para esse descanso. A oração não é o fim da oração; nem a pregação, o fim da pregação; nem a fé, o fim da fé. Isso tudo não passa de um caminho para ele, que é o caminho para esse descanso. Na verdade, Cristo é tanto o caminho quanto o descanso, o meio e o fim. Se tudo que você viu, ou desejou, parece desejável e encantador, então o fim disso tudo deve ser muito mais que o que você vislumbrou.

 

II

Em ordem do bom para o pior, o último ainda é o melhor; pois todo o bem tende à perfeição. O fim é ainda o último a ser desfrutado, embora seja o primeiro a ser almejado. Agora, esse descanso é o último estado dos santos. O início foi como um grão de mostarda, mas a perfeição deles será um estado elevado e florescente . O primeiro dia foi um de pequenas coisas, mas o último será de perfeição eterna. Eles plantaram com lágrimas, mas colherão com alegria. Se a prosperidade deles aqui, sua res secundae [sorte favorável], fosse desejável, muito mais sua res ultimae sorte final, a ventura derradeira.  Certamente, tudo que é bom termina bem, e é bom o que é bom afinal; e, portanto, o céu precisa ser bom.

 

III

Outra regra é esta: aquilo, cuja ausência ou perda é o pior, ou o maior, mal, tem de ser o melhor, ou o maior, bem; e há perda maior que perder esse descanso?  Pois ninguém conhece a doçura a não ser aqueles que a desfrutam, assim ninguém conhece essa perda a não ser aqueles que são privados dela. Os homens perversos, aqui, são insensíveis quanto à perda, pois não sabem o que perdem;  quando eles souberem tanto o que perderam como pelo que perderam e por que perderam, certamente eles chorarão e rangerão os dentes. O homem que perde riquezas pode ganhar de novo, e o que perde a honra pode repará-la; ou, se isso não for possível, ainda assim ele não está perdido. O homem que perde a vida pode salvá-la; mas o que acontece com aquele que perde a Deus? O que ou quem pode reparar essa perda? Podemos suportar a perda de tudo aqui; se não temos algo, podemos tanto viver sem isso, como também podemos morrer e viver eternamente sem isso; mas podemos fazer isso sem Deus em Cristo?

 

IV

Outra regra é esta: tudo que não pode ser dado pelo homem, nem pode ser tirado pelo homem, é muito melhor do que aquilo que pode; e, depois, espero que o céu arrebate isso; pois quem tem a chave para os tesouros eternos, e quem é árbitro da distinção e da dignidade dos santos? Certamente, todo passo para a glória, todo ato e dom graciosos, toda libertação e misericórdia para com a igreja, tudo é tão claramente de Deus que seu nome será escrito na fronte disso tudo, e seus excelsos atributos estampados em tudo, para que o homem que corre possa ler isso e reconhecer que essa obra é de Deus. E a questão pode ser facilmente respondida, quer ela seja proveniente do céu quer seja proveniente do homem; e, assim, ficará ainda mais evidente que essa glória é dom do Deus da glória. O quê? O homem pode dar a Deus? Ou a terra e o pó podem dar ao céu? Certamente que não. E também está fora do alcance deles nos privar disso. Tiranos e perseguidores podem destituir-nos de nossos bens, mas não de nosso bem maior; podem nos privar de nossos direitos aqui, mas não de nossa condição de liberdade; podem cortar nossa cabeça, mas não nossa coroa. Podemos ser trancafiados em prisões; e ser expulsos da igreja ou dos limites do reino, mas não do céu. Ponha à prova coisas menores: você pode nos negar a luz do sol e impedi-lo de brilhar? Você pode interromper a influência dos planetas? Ou impedir que desfrutemos do orvalho que cai do céu? Ou ordenar às nuvens que fechem suas torrentes de água? Ou estancar o curso das correntes de água? Ou fechar as passagens das profundezas do abismo? E muito menos ainda você pode privar-nos de nosso Deus, negar-nos a luz de seu semblante, interromper as influências de seu Espírito, proibir que o orvalho de sua graça caia sobre nós, estancar o curso das correntes de seu amor, estagnar suas fontes transbordantes e incessantes, ou selar as profundezas insondáveis de sua recompensa. É possível que você mate nosso corpo, se o Senhor assim permitir, mas tente, se assim puder, alcançar nossa alma. Não, os santos não têm poder para lhes dar essa glória, nem para que a retirem; assim, de acordo com essa regra, não há estado como o do descanso do santos; pois homem algum pode nos dar esse descanso, e ninguém pode roubar essa alegria de nós.

 

V

Outra regra é esta: é sempre bom, ou superior, aquilo que torna aquele que o tem melhor, ou superior; e, certamente, de acordo com essa regra, não há estado como o céu. Riquezas, honra e prazer não tornam um homem melhor nem superior: a graça nos torna melhor, mas não superior: reserva-se essa prerrogativa à glória. Esse é o bem que nos faz bem, e só nos faz bem o que nos torna bons; caso contrário, podemos ter algo que é bom em si mesmo, mas inútil para nós. O bem externo está muito distante para ser nossa felicidade. Ter o coração elevado para com Deus e para com o céu quando temos riqueza e abundância no mundo não é fácil nem algo comum. Embora a alma e o corpo componham apenas um homem, raramente prosperam juntos. Portanto, nosso bem maior é o que nos fará bem ao coração; e nossa verdadeira glória, a que torna nosso interior totalmente glorioso; e o dia abençoado, o que nos transformará em homens abençoados e santos; o que não só enfeitará nossa casa, mas limpará nosso coração; o que não só nos dará uma nova habitação e novos relacionamentos, mas também uma nova alma e um novo corpo. A verdade é que os cristãos se queixam com mais freqüência, e mais amargamente, das aflições e das carências em seu interior que das de seu exterior.  Portanto, seu desejo é o lugar e a condição em que tenha alívio apropriado a suas necessidades e queixas. E, certamente, isso só existe nesse descanso.

 

VI

Outra regra é esta: a dificuldade em obter demonstra a maravilha; e, certamente, se apenas considerar o quanto custou a Cristo para comprar esse nosso descanso; o quanto custa ao Espírito para trazer o coração do homem a ele; o quanto custa aos ministros persuadir os homens disso; o quanto custa aos cristãos, depois disso tudo, obtê-lo; e o quanto custa a muitos meio-cristãos que, afinal, ficam sem ele, você dirá que aqui isso é difícil e, portanto, demonstra-se assim sua maravilha. É mais fácil queimar cem casas que construir uma; e matar mil homens que dar vida a um. A descida é fácil, a subida nem tanto. Aquele que fez o caminho, e conhece esse caminho melhor que nós, disse-nos que o caminho é estreito e apertado e exige luta; e os que o abraçaram de forma mais verdadeira e vigilante nos dizem que esse caminho passa por muitas tribulações e é preciso enfrentar muitas dificuldades para percorrê-lo. Conclui-se, desse modo, que, com certeza, deve valer alguma coisa algo que custa tudo isso para ser conquistado.

 

VII

Outra regra é esta: é melhor o que não apenas supre as necessidades, mas também as supre abundantemente. Por necessidade queremos dizer, aqui, aquilo sem o que não podemos viver; e por abundância queremos dizer um suprimento mais perfeito, uma abundância mais confortável, não inútil.  Aqui não devemos ficar tão cheios, pois nosso vazio deve causar fome; e nossa fome, busca e desejo ardente; e nosso desejo ardente deve testificar de nossa dependência, e ocasionar o receber, e nosso receber ocasionar a retribuição com o agradecimento, e tudo isso faz avançar a glória do Doador. Mas quando formos trazidos para a nascente e estivermos juntos à fonte de água a jorrar, não mais teremos sede, pois não mais ficaremos vazios. Certamente, se essas almas abençoadas não sobejassem em sua ventura, elas nunca sobejariam em louvores. Tais bênçãos, e honras, e glórias, e louvores a Deus jamais acompanhariam as misericórdias comuns.  O coração cheio de alegria e a boca cheia de louvores comprovam seu estado fecundo de venturas plenas.

 

VIII

A razão conclui que o melhor está no julgamento dos homens melhores e mais sábios. Embora, é bem verdade, o julgamento dos homens imperfeitos não pode ser a regra perfeita da verdade ou da bondade, ainda que Deus revele esse bem a todos a quem ele o concede e não esconde de seu povo o fim que devem almejar e obter. Se os homens mais santos são os melhores e mais sábios, então a vida deles revela a você o julgamento deles; e o trabalho infatigável e os sofrimentos incessantes deles para alcançar esse descanso mostram a você que eles o aceitam em razão da perfeição da alegria da qual desfrutarão. Se os homens com a mais excelente experiência fossem os sábios, e os que experimentaram esses dois estados, então, aqui embaixo, existe apenas vaidade e vexação, e, lá em cima, felicidade e descanso.  Os homens decepcionaramme; mas apelamos para o julgamento inerrante da sabedoria mesma, e até mesmo do sábio e onisciente Deus, se é melhor "um dia nos teus átrios do que mil noutro lugar" (Sl 84.10); e se não é melhor "ficar à porta da casa do meu Deus a habitar nas tendas dos ímpios" (Sl 84.10).  Se a sabedoria, portanto, pode passar a sentença, você verá o caminho que a causa seguirá; e "a sabedoria é comprovada pelas obras que a acompanham" (Mt 11.19).

 

IX

Por fim, outra regra da razão é esta: o bem que contém todos os outros tipos de bem em si deve ser o melhor. E como você concebe com a razão que todos os mananciais de bondade, por fim, acabam por se esvaziar? Eles não são provenientes de Deus, de onde, por intermédio de fontes secretas, eles primeiramente procedem? Para onde mais todas as linhas da bondade convergem? E esse fogo não contém todas as chamas, e esse oceano, todas as gotas de água? Certamente, houve tempo em que não havia nada além de Deus e, naquele tempo, todo o bem estava apenas nele. E, até mesmo agora, a essência e a existência da criatura são secundárias, originam-se dele e são impróprias e contingentes em comparação às dele, que é, e era, e sempre será; aquele cujo nome é EU SOU. O que seus olhos e seu coração concebem como desejável que não esteja ali? Você teme perder alguma coisa com a qual agora se deleita ou separar-se dela? O quê? Você teme que sinta falta dela quando chegar ao céu? Você escolheria as gotas de água, se pudesse ter o oceano? Ou a luz da vela, quando tem o sol? Ou a criatura superficial quando tem o Criador perfeito?  Não faria reparos no céu, a não ser que Deus tenha nos enganado totalmente; quem ousaria imaginar isso?

Todos os homens aventurem-se, fundamentados na palavra e na promessa de Deus. Há um dia de descanso prestes a chegar e [que] pagará totalmente por tudo. Todos os centavos e tostões que você gastou para ele estão contidos, com vantagem infinita, em sua coroa. Quando Alexandre revelou seu tesouro, eles perguntaram-lhe onde esse tesouro estava, e ele apontou para os pobres e disse: "In scriniis" "Em meu peito". E quando saiu em uma expedição auspiciosa, ele distribuiu seu ouro; e quando lhe perguntaram o que guardara para si, respondeu: "Spem majorum et meliorum"

"A esperança das coisas maiores e melhores". E quanto mais ousados devemos ser e abrir mão de tudo e apontar para o céu, e dizer, está in scriniis [em meu peito], em nosso tesouro eterno; e pegue essa esperança de coisas maiores e melhores e troque-a por tudo. Mais ainda, perca a si mesmo por Deus, e renuncie a si mesmo, e, nesse dia, encontrará a si mesmo nele. Dê a si mesmo a ele, e ele receberá você nos mesmos termos que Sócrates recebeu seu pupilo, Aeschines, que se entregou a seu mestre, pois não tinha nada mais: Accipio, sede ea lege ut te tibi meliorem reddam quam accepi Que ele possa retornar você a si mesmo melhor que quando o recebeu.  Assim também, esse descanso é o bem que contém to-dos os outros tipos de bem em si.Portanto, você, de acordo com as regras da razão, vê, de forma geral, a transcendente maravilha da glória dos santos.

A seguir, mencionaremos as maravilhas particulares.

 

 

Capítulo 7

AS MARAVILHAS DE NOSSO DESCANSO

 

Contudo, examinemos um pouco mais de perto e bebamos diretamente da fonte pura, as Escrituras, que outras maravilhas esse descanso nos oferece. E o Senhor esconde-nos nas fendas da rocha e cobre-nos com as mãos da indulgente graça, enquanto nos aproximamos para ter essa visão.E o Senhor permita que possamos descalçar os sapatos de irreverência e das concepções carnais enquanto estivermos nesse solo sagrado.

 

 I

Quanto ao estilo do descanso dos santos ser chamado de a posse comprada é uma honra singular e ornamento notável; isso é fruto do sangue do Filho de Deus; sim, o fruto principal; sim, o fim e perfeição de todos os frutos e a infalibilidade desse sangue. Certamente, o amor é o ingrediente mais precioso em toda sua composição; e de todas as flores que crescem no jardim do amor, poderia haver alguma mais doce e mais bela para a grinalda que esse sangue? Amor maior que este não há: sacrificar a própria vida em favor do amante. E, para isso, nosso Redentor, bem diante de nossos olhos, derramou esse amor, o sentido mais vivo, e a lembrança mais revigorante, sobre nossa alma! Ó, como nossa alma ficará plena com os perpétuos arroubos, e pensar que  passamos por tudo isso e chegamos seguramente aqui no seio de Deus!  E, para todo o sempre, contemplaremos, por assim dizer, as feridas do amor com olhos e coração amorosos. Naquele momento, com que maravilhosa compreensão, os santos contemplarão, por toda a eternidade, seu abençoado Redentor! Não tratarei da vã e audaciosa questão daqueles que querem saber se o glorioso corpo de Cristo ainda reterá as feridas, ou se elas serão apenas cicatrizes. Mas o que é realmente certo é que a memória desse sacrifício será vívida, e as marcas desse amor profundas, e sua ação tão forte como se essas feridas ainda estivessem em nossas retinas.  Agora, o coração do Senhor está aberto para nós, e o nosso, cerrado para ele; mas quando o coração dele se abrir, o nosso também se abrirá. Ó abençoada assembléia que lá teremos. Mas aqui estou perdido, pois meu entendimento me engana e, em sua percepção, fica muito aquém de tudo que lá teremos. Sei apenas isto: esse descanso será o louvor extraordinário de nossa herança, comprada com preço daquele sangue; e a extraordinária alegria dos santos, ao contemplar quem nos comprou e o preço pago junto com aqueles que foram comprados por ele. Nem a visão das feridas do amor reavivará nossas feridas de tristeza. Ali, como o amor de Cristo, para todo o sempre, será precioso para nós, os que o despimos, por assim dizer, de sua majestade e glória e pusemos sobre ele nosso miserável roupão de carne, para que ele pudesse pôr sobre nós os roupões de sua própria justiça e glória; e ele não nos salvou da injustiça cruel, mas da merecida ira de seu Pai! Bem, cristãos, como costumam fazer em seus livros, e em seus bens: escrever o preço que eles lhe custaram; assim também em sua glória e em sua justiça, escreva o preço: o precioso sangue de Cristo.

 

II

A segunda pérola no diadema dos santos é o ser de graça. Esta parece eclipsar a qualidade anterior.  Mas essa aparente discórdia não passa de uma agradável diversidade, compondo aquela harmonia que constitui a melodia. Esses dois atributos, comprado e de graça, são dois elos de ouro que, por meio de seu agradável entrelaçamento, compõem a coroa para as colunas no templo de Deus.Isso custou muito caro para Cristo, mas, para nós, é de graça. Toda pedra utilizada na edificação desse templo não é uma pedra de graça? Ó, a admiração eterna que, certamente, deve surpreender os santos que pensam sobre essa gratuidade. O que o Senhor viu em mim para julgar que eu deveria gozar dessa condição? Por que eu, um pobre miserável, doente e desprezado, deveria ser revestido com o brilho de sua glória?  Ó, quem pode sondar esse amor incomensurável? Não se menciona nosso valor nem nossa infâmia; se o valor fosse a condição para nossa admissão, poderíamos nos sentar com João e chorar, "porque não se encontrou ninguém [no céu nem na terra] que fosse digno de abrir o livro" (Ap 5.4). Mas o Leão da tribo de Judá é digno e prevaleceu; e, por meio desse título, ganhamos a herança.  Aqui nossa comissão é esta: "Vocês receberam de graça; dêem também de graça" (Mt 10.8). Cristo, no entanto, a recebeu por um alto custo, mas nos deu de graça.  O papa e seus servos recebem pelo perdão e pelas indulgências que concedem, Cristo, porém, não recebe nada dos seus. A comutação da pena deve custar muito caro ao bolso dos homens, caso contrário, são expulsos da sinagoga, e alma e corpo, entregues para o demônio; mas ninguém fica de fora daquela igreja por falta de dinheiro, tampouco a pobreza é algo desagradável para Cristo. Um coração vazio pode impedir a entrada de alguém, mas não um bolso vazio. Seu reino de graça sempre foi mais congruente com a desprezível pobreza que com a riqueza e a honra, e as riquezas dificultam muito mais a entrada que a carência; pois Deus escolheu "os que são pobres aos olhos do mundo para serem ricos em fé e herdarem o Reino que ele prometeu aos que o amam" (Tg 5.2).Sei que "o trabalhador merece o seu salário" (Lc 10.7) e aqueles "que pregam o evangelho, que vivam do evangelho" (1Co 9.14).

 No entanto, desejaria que os bem-intencionados ministros de Cristo levassem em consideração o que é aconselhável, e também o que é legítimo, sabendo-se que a salvação de uma alma é melhor que uma grande quantidade de dinheiro, e que nosso ganho, embora legítimo, é um ganho abominável, pois é pedra de tropeço para a alma de nosso rebanho. Tornemos o evangelho da graça tão pouco oneroso e incômodo quanto possível. Prefiro não aceitar o dízimo de meu rebanho que destruir as almas por quem Cristo morreu; e embora Deus tenha ordenado que aqueles "que pregam o evangelho, que vivam do evangelho" (1Co 9.14), prefiro sofrer todas as coisas que ser um obstáculo para o evangelho; e seria melhor morrer que permitir que algum homem transforme isso em minha honra inútil.  Se a necessidade das almas e a promoção do evangelho exigir isso, prefiro pregar o evangelho maltrapilho e faminto que contender implacavelmente pelo que é legítimo; e se eu assim agir, não terei do que me gloriar, pois a carência se abaterá sobre mim; sim, que o infortúnio me persiga, se não pregar o evangelho, embora jamais tenha recebido algo dos homens. Quão impróprios são os mensageiros dessa graça e desse reino gratuitos se preferirem perder a alma e o coração de seu rebanho que perder um tostão daquilo que lhe é devido; se preferirem aborrecer as pessoas depondo contra a mensagem de Deus que tardar um pouco seus direitos, contendendo com elas em juízo pelo salário do evangelho, e transformando as boas novas que alcançam seu coração carnal parecer as tristes novas por causa desse fardo! Esse não é o caminho de Cristo e seus discípulos, nem a veneração da abnegada doutrina de entrega e de sofrimento que eles ensinaram. Fora com todas essas ações que vão contra o fim principal de nosso estudo e chamado de ganhar almas; e que o infortúnio acompanhe esse ganho que obstrui o ganhar pessoas para Cristo. Sei que a carne agora fará objeções por causa das necessidades, e a desconfiança não aceita argumentos; mas nós que temos o suficiente para responder às reservas de nosso povo, levemos algumas dessas respostas para casa para que ensinemos a nós mesmos antes de ensinar ao nosso rebanho. Quantas pessoas você conhece, por quem Deus sofreu, que passam fome na vinha do Senhor?  Assim como não pagamos nada pelo amor eterno de Deus, nem pelo Filho de seu amor, nem pelo seu Espírito, nem por nossa graça e fé, também não devemos pagar nada pelo nosso descanso eterno. O coração quebrantado que conheceu o deserto do pecado entende e sente o que digo. Que pensamento maravilhoso pensar na insondável diferença entre o que merecemos e o que recebemos; entre o estado em que deveríamos estar e o em que estamos.  Ó, como foi de graça todo esse amor; e como foi de graça toda essa glória que desfrutamos.  A sabedoria infinita moldou todo o plano da salvação do homem em um molde de compra e de gratuidade, para que o amor e a alegria do homem possam ser aperfeiçoados, e a honra da graça, mais altamente desenvolvida; que o pensamento do mérito não obscureça a alegria e o amor do homem, nem obstrua a graça, para que a porta do céu se abra apoiada nessas duas dobradiças. Portanto, que: "Merecido", seja escrito no chão do inferno, mas na porta do céu: "O dom gratuito".

 

III

O terceiro atributo confortável desse descanso é que ele é a posse apropriada e específica dos santos. Dentre todos os filhos dos homens, ele não pertence a ninguém mais; não que isso diminua a grandeza ou a gratuidade dessa dádiva, pois agradaria a Deus que todo o mundo desfrutasse dele. Contudo, Deus resolveu que seria de outra forma, e que esse descanso seria desfrutado apenas por poucos; assim, encontrar nosso nome entre esses poucos faz valorizar ainda mais nossa alegria.  A misericórdia da escolha exerce mais influência em nós que qualquer outra misericórdia. Se chovesse apenas em nosso terreno, ou se o sol iluminasse apenas nossa casa, ou se a bênção do céu fosse dividida entre nossos rebanhos e os dos outros homens, como o foi entre Jacó e Labão, devemos agradecer com muito mais fervor que agora, enquanto possuímos o mesmo em comum.  Quanto mais baixo o peso no prato da balança descer, mais alto o outro sobe; e se uma das pás do moinho cair, isso faz com que a outra suba. As misericórdias dos santos aqui não seriam enfraquecidas, se o mundo todo fosse tão santo quanto eles; e a transmissão de sua felicidade é o maior desejo deles; no en-tanto, isso talvez pudesse entorpecer sua gratidão, e a graça diferenciadora não seria conhecida. Mas quando uma pessoa é iluminada, mas outra permanece na escuridão; uma é transformada, e outra, aprisionada por seus prazeres, isso nos leva a clamar da mesma forma que o discípulo: "Senhor, mas por que te revelarás a nós e não ao mundo?" (Jo 14.22). Naquele momento, o mundo impenitente verá uma razão para a singularidade dos santos, enquanto estiveram na terra, e será capaz de responder a suas exigências: "Por que você deve ser mais santo que seu próximo?". Até mesmo por que eles, de bom grado, seriam mais felizes que seu próximo. E por que você não pode ser como os outros e viver como o mundo a sua volta? Até mesmo porque são totalmente avessos a se apressar como os outros, ou ser condenados como o mundo ao redor deles. Nesse momento, não se conhece que a singularidade sincera na santidade não é hipocrisia nem loucura. Se o ser singular nessa glória é algo tão desejável, certamente ser singular no viver piedoso não é algo desprezível. Como cada um deles conhece suas próprias feridas e sua tristeza, também eles sentirão sua própria alegria; e se agora podem dizer que Cristo é deles, e Deus é deles, muito mais poderão dizer isso quando tomarem posse total do Senhor! Pois assim como o Senhor toma seu povo como sua herança, também ele será a herança de seu povo para todo o sempre.

 

IV

O quarto atributo desse descanso é que ele é a comunhão dos abençoados santos e anjos de Deus. O cristão não será tão singular a ponto de ser solitário. Embora apropriado aos santos somente, é comum a todos os santos, mas o que é uma associação dos espíritos abençoados em Deus; uma corporação dos santos aperfeiçoados, da qual Cristo é o Cabeça; a completa comunhão dos santos? E isso não faz com que essas alegrias sejam, portanto, mediadas, obtidas para nós por meio de criaturas, como acontece aqui; pois todas as linhas saem do centro, e não umas das outras, e, no entanto, a disposição delas as torna mais comuns que uma pessoa só poderia ser. Embora as cordas não recebam seu som e doçura umas das outras, ainda assim, a cooperação entre elas cria uma harmonia que uma só delas não poderia criar; e aqueles que oraram, e jejuaram, e choraram, e foram atentos, e esperam juntos para, agora, alegrar-se, e desfrutar, e louvar juntos, acho eu, deve aumentar muito a alegria deles. Caros companheiros cristãos, estou certo que da mesma forma que estivemos juntos no trabalho, na obediência, no perigo e na angústia, também deveremos estar juntos na grande recompensa e libertação; e da mesma forma como enfrentamos zombarias e desdém, também seremos coroados e honrados juntos; e nós, que enfrentamos o dia da tristeza, também desfrutaremos juntos daquele dia de alegria; e aqueles que estiveram conosco na perseguição e na prisão, também estarão conosco naquele lugar de consolação. Quando observo a face do precioso povo de Deus e, com fé, penso naquele dia, que pensamento revigorante experimento!Nós, você deve cogitar, não nos lembraremos dos ferimentos que tivemos aqui; de nossa comunhão em obediência e em sofrimento; com que assiduidade, nossos gemidos, por assim dizer, formaram um único som; e o conjunto de nossas lágrimas, um único manancial; e nossos desejos conjuntos, uma única oração? E agora todos os nossos louvores devem formar apenas uma melodia, e todas as nossas igrejas, uma só igreja, e todos nós, um só corpo; pois seremos um em Cristo, assim como ele e o Pai são um. É verdade que precisamos ser muito cuidadosos nesse caso, de que, em nosso pensamento, não buscamos nos santos aquilo que somente está em Cristo, e que não lhes damos o privilégio próprio do Senhor, nem esperamos que grande parte de nosso conforto esteja no desfrutar deles: somos muito propensos a esse tipo de idolatria. No entanto, ele que nos ordena a amá-los agora nos dará licença, na mesma subordinação a ele mesmo, de amá-los naquele momento em que o Senhor os transformar em pessoas muito mais passíveis de ser amadas; e se podemos amá-los, certamente regozijaremos neles; pois o amor e o regozijo não podem ficar sem a alegria em resposta a eles.  Sei que Cristo é tudo em todos; e que é a presença de Deus que faz com que o céu seja céu. Mas, lembrar-me que ali encontrarei meus mais queridos e preciosos amigos -- de quem recebi doces conselhos, os que andaram comigo em temor ao Senhor, e em integridade de coração, na face de quem estava escrito o nome de Cristo, cuja doce e sensível menção de suas maravilhas fez meu coração arder em meu peito--adoça meu pensamento. Alguns têm dúvidas quanto a se reconheceremos uns aos outros no céu ou não. Certamente, nenhum conhecimento que temos agora deve cessar, exceto aquele que implica em nossa imperfeição; e que imperfeição isso pode implicar? Ainda mais, nosso presente conhecimento será expandido de forma inacreditável. Ele realmente será posto de lado, assim como a luz das velas e das estrelas são postas de lado com o nascer do sol; e, mais propriamente, nossa ignorância, mais que nosso conhecimento, é que será posta de lado; realmente, não reconheceremos uns aos outros conforme a carne, nem por meio da estatura, voz, cor, compleição, aparência ou forma exterior. Se tivéssemos conhecido a Cristo dessa forma, então não mais o conheceríamos ali dessa mesma maneira; ali tampouco conheceremos por talentos ou pelo dom do conhecimento, nem por títulos de honra ou sinais de dignidade no mundo, nem por afinidade ou consangüinidade; nem por benefícios ou relacionamentos influentes, nem por faixa etária ou, assim creio, sexo; mas seremos conhecidos pela imagem de Cristo e por meio do relacionamento espiritual, e também por nossa antiga fidelidade para aumentar nossos talentos; e, sem dúvida, é dessa forma que conheceremos e seremos conhecidos. Não só conheceremos nossos velhos amigos e conhecidos, mas também todos os santos de todas as eras, cujas faces jamais vimos quando estávamos na carne, e esses santos nós os conheceremos e desfrutaremos de sua presença. Aqueles que agora estão dispostos a ministrar para o nosso bem, naquele momento, prontamente, serão nossos companheiros na alegria para a perfeição de nosso bem; e aqueles que, em nossa conversão, tiveram tamanha alegria no céu, regozijarão alegremente conosco em nossa glorificação. Cristão, acho que essa será a assembléia mais honrada que você já viu, e o grupo mais alegre a que você já pertenceu.  Já chegamos lá no que diz respeito ao título, à sinceridade e às primícias; mas apenas lá tomaremos posse total de nossa herança. Ó amado, se já há felicidade em morar com os santos em sua imperfeição, enquanto eles ainda têm o pecado para os afligir, mas também a santidade para adoçar o convívio, como seria morar com eles em sua perfeição, onde os santos são santos, e só santos?

 Se achamos que estamos nos subúrbios do céu, quando os ouvimos anunciar a beleza de nosso Senhor e falar sobre as maravilhas de seu reino, então que dia magnífico será aquele quando nos unirmos a eles, no reino e por aquele reino, em louvores ao nosso Deus! Portanto, concluo que esta é uma maravilha singular do descanso no céu: a de que somos "concidadãos dos santos e membros da família de Deus" (Ef 2.19).

 

V

Outra propriedade de nosso descanso é que as alegrias dele são provenientes diretamente de Deus. Devemos ver Deus face a face e ficar continuamente em sua presença e, por conseguinte, receber nossa vida e conforto diretamente dele. Se Deus fará uso de alguma criatura para o nosso serviço ali, ou, se assim fizer, não poderia dizer que criatura e que uso, pois isso é mais do que já conheço. Parece que a criatura terá um dia de libertação, e isso na gloriosa liberdade dos filhos dos homens; mas estas ainda são questões muito difíceis para mim: se antes, ou se no momento da grande e completa libertação; se perdurará por toda a eternidade, ou para qual finalidade em particular elas continuarão a existir. Quando Deus falar claramente, e meu entendimento ficar mais claro, então saberei essas coisas, mas é certo que nossas grandes e maiores alegrias serão imediatas, se não todas elas. Agora, realmente não temos nada imediatamente. Da terra, do homem, do sol e da lua, da influência dos planetas, da ministração de anjos, do Espírito e de Cristo; e, indubitavelmente, quando mais a corrente de água se distancia da fonte, mais impura ela é. Ela reúne todas as impurezas que encontra no caminho.  Cristo, na verdade, é a pérola preciosa, mas ele, geralmente, é apresentado por meio de mãos leprosas; e, assim, desonramos as riquezas do evangelho quando procuramos torná-lo honrado aos olhos dos homens; e ofuscamos a glória dessa jóia por meio de nossas expressões grosseiras e entorpecidas, pois não temos a intenção de revelar seu brilho, e os ouvintes a julgam por intermédio de nossas expressões, e não por intermédio de seu real valor. A verdade é o melhor que os homens apreendem, mas representa pouco do que Deus expressa em sua Palavra, e, ainda assim, o que eles conseguem apreender são incapazes de proferir.Se um anjo do céu pudesse pregar o evangelho, ainda assim ele não poderia entregar sua mensagem de acordo com sua glória; e muito menos nós que jamais vimos o que eles viram e que mantemos esse tesouro em vasos de barro. Os confortos que fluem por meio do sermão, dos sacramentos, da leitura, da companhia, das reuniões e das criaturas não passam de confortos parciais; e a vida que provem disso não passa de uma vida parcial, em comparação com aquilo que o Senhor deve proferir com sua própria boca e estender para nós por meio de sua própria mão. O cristão, aqui, sabe por experiência que suas alegrias mais imediatas são suas mais doces alegrias: as que têm menos do homem e provêm mais diretamente do Espírito. Essa é uma razão, em minha concepção, por que os cristãos que passam muito de seu tempo em oração secreta, e em meditação e contemplação são homens cuja vida e cuja alegria são mais notáveis, em comparação com os que estão mais envolvidos em escutar, ler e participar de conferências, pois aqueles que estão mais próximos do poço recebem tudo mais imediatamente das mãos de Deus.  Ainda não chegamos ao tempo e à posição em que receberemos tudo diretamente da mão de Deus. Da mesma forma como Deus fez todas as criaturas e instituiu todas as ordenanças para nós, ele também continuará a suprir todas as nossas necessidades. Devemos, até que recebamos tudo nele, ficar contentes com os presentinhos de amor que ele nos oferece. Há alegria nessas ofertas à distância, mas a plenitude está em sua presença. Ó cristão! Você conhecerá a diferença entre a criatura e o Criador, e o que a essência de cada um deles propicia. Ali, teremos luz sem o candeeiro, e dia perpétuo sem o sol. Ali, teremos descanso sem que seja preciso dormir, pois Deus será nosso descanso.  Ali, teremos o entendimento iluminado sem que seja preciso ter a lei escrita, pois Deus aperfeiçoará sua lei em nosso coração, e todos nós seremos perfeitamente instruídos por Deus. E sua lei será a nossa, e sua face será nossa luz para sempre. Ali, nós teremos alegria, que não obtemos das promessas, nem nos foi entregue em casa pela fé e pela esperança. O olhar e a posse excluirão a maioria delas. Ali, teremos comunhão sem os sacramentos, quando Cristo deverá beber conosco o vinho do fruto novo; ou seja, renovar-nos-á com o vinho reconfortante da alegria imediata, no reino de seu Pai. Ali, devemos viver na casa e na presença de meu Pai, e Deus será tudo em todos; ali, estamos realmente em casa e no descanso.

 

VI

Outra maravilha é esta: ele, para nós, será o repouso oportuno. Aquele que espera o fruto da vinha na época propícia, e que faz com que seu povo seja como as árvores plantadas à beira do riacho, frutífero em sua época apropriada, ele também lhe dará sua coroa na época propícia. Aquele que tem palavras de alegria para a época da fadiga certamente fará com que o tempo da alegria apareça na época mais oportuna. E os que conheceram a época da graça, e se arrependeram, e creram na época apropriada, se não desfalecerem, também serão colhidos na época oportuna. Se Deus conhece a época oportuna das misericórdias, até mesmo para seus inimigos, e as semanas apropriadas para a colheita na época propícia, e, por meio de aliança inviolável estabeleceu o dia e a noite em suas épocas apropriadas, então, certamente, a colheita dos santos e o dia de alegria dele também chegarão à época oportuna.  Aquele que deu a conhecer à cegonha, à garça azul, à andorinha seu tempo propício certamente guardará seu tempo propício. Neste mundo, após uma longa noite de tristes trevas, o raiar do dia e o levantar do sol da justiça não parecerá oportuno? Após enfrentar um rigoroso inverno, a chegada da primavera, nesse clima frio, não será oportuna? Após navegar, como Paulo, vagarosamente por muitos dias, e muito tempo for despendido, e a navegação ficar cada vez mais perigosa; e após o sol e as estrelas não aparecerem por muitas noites e dias, e uma feroz tormenta cair sobre nós, e perdermos praticamente todas as esperanças de sermos salvos, você não acha que o porto do descanso será oportuno? Após uma longa e entediante viagem, com muitos perigos ao longo do caminho, nossa casa não parecerá oportuna? Após uma longa e temerária guerra, em que vivemos em meio aos nossos violentos inimigos, em que tivemos de ficar constantemente alertas, e após muitos ferimentos profundos, a paz com vitória não parecerá oportuna? Após muitos anos de prisão, insultado pela zombaria dos inimigos, após padecer muitas necessidades, e mal suprir as necessidades básicas, a libertação total em que se goza de uma condição plena, saindo dessa prisão para subir ao trono, não seria oportuna? Certamente, um homem, que olha o mundo de frente, pensaria que o descanso parece oportuno para todos os homens. Alguns de nós definham por causa da doença e gemem em razão das sérias dores, clamando ao amanhecer: "Deus, como gostaria que já fosse noite!", e à noite: "Deus, como gostaria que já fosse dia!"--fatigado de ir, exausto de sentar-se, fatigado de ficar em pé, fatigado de deitar-se, fatigado de comer, de falar, de andar, fatigado dos nossos grandes amigos, fatigado de nós mesmos. Ó, quantas vezes isso não aconteceu comigo, e, assim, o descanso não seria ainda mais oportuno? Alguns reclamam sob a pressão dos tempos; fatigados de seus impostos, fatigados de seu aquartelamento, fatigados de pilhagens, fatigados de seus medos e perigos, fatigados de sua pobreza e necessidades, e, assim, o descanso não seria ainda mais oportuno? Onde quer que você vá, quem quer que seja sua companhia quando voltar--onde não se ouve a voz da lamúria, já que os homens vivem em contínua fadiga, mas, especialmente os santos, que estão mais fatigados daquilo que o mundo não pode sentir? Por mais piedoso que seja o grupo ao qual pertence, mas você não ouvirá sempre as lamúrias de que algo aflige essas pessoas? Alguns se fadigam por causa da mente cega, das dúvidas com respeito ao caminho que percorrem, inquietados por quase todos seus pensamentos; outros estão fadigados por causa de um coração endurecido, ou orgulhoso, ou ainda apaixonado, e outros ainda estão fadigados por causa disso tudo e muito mais; alguns estão fadigados por causa de suas dúvidas diárias e de seu temor quanto a sua condição espiritual; e outros em razão da ausência de alegrias espirituais, e outros ainda em virtude da compreensão da ira de Deus; o descanso não é agora ainda mais oportuno? Quando um pobre cristão deseja a libertação, e ora e espera por ela há muitos anos, o descanso não lhe é oportuno? Quando ele está prestes a desistir, dizendo: "Temo não chegar ao fim, e também que minha fé e paciência não se sustentem", essa não é uma ocasião oportuna para o descanso? Se a voz do rei foi oportuna para Daniel, quando, bem cedinho, ele o chamou na cova dos leões pedindo que aceitasse muito mais do que tinha antes, então, em minha opinião, aquela voz matinal de Cristo, nosso Rei, chamando-nos para deixar para trás o terror em meio aos leões, para obter seu descanso em meio a seus santos, aquela voz, para nós, deverá ser bem oportuna.  Aqui, reclamamos, com freqüência, por não termos uma fatia maior nos confortos desta vida; por nossos livramentos não acontecerem com maior rapidez e de forma mais notável; pelo mundo prosperar mais que nós; por ausência de resposta, no momento, às nossas orações, sem levar em consideração que nossa porção está guardada para uma época mais oportuna; por esses frutos nem sempre serem de inverno, mas, quando o inverno chegar, teremos nossa colheita. Reclamamos por não acharmos uma Canaã no deserto, nem cidades de descanso na arca de Noé, nem canções de Sião em terra estranha; por não termos um porto no principal oceano; por não encontrarmos nossa casa no meio do caminho, e por não sermos coroados em meio ao combate, e por não termos nosso descanso no calor do dia, por não termos nossa herança antes de ficarmos idosos, e por não termos o céu antes de sair da terra; e isso tudo não seria bastante oportuno?Confesso, em relação ao culto da igreja, que a remoção dos santos pode parecer um tanto inoportuna.Devo confessar que esse é um dos pensamentos que mais me entristece, pensar naqueles instrumentos úteis, a quem Deus, recentemente, chamou para que abandonassem sua vinha, quando há muitos indolentes, e a colheita é grande, e muitas congregações estão abandonadas, e o povo parece um rebanho sem pastor, e, ainda assim, os trabalhadores são chamados e abandonam seu trabalho, especialmente quando se abre uma porta de liberdade e de oportunidade; não podemos deixar de lamentar um juízo tão doloroso e achar que a remoção, em relação à igreja, é inoportuna. Sei que proclamo exatamente o pensamento de vocês, e vocês estão realmente prontos para tomar a minha dianteira nessa solicitação. Temo que vocês estejam muito sensibilizados em relação a essas minhas palavras e, portanto, sinto-me relutante em aguçar a ferida de vocês. Percebo que adotam a postura dos presbíteros efésios e prefiro apaziguar a violência da paixão de vocês.  Mas ponderem, ó meus queridos amigos, será que Deus necessita de um verme como eu? Ele não pode suprir mil vezes mais as necessidades de vocês? Sabem muito bem que quando o caso de vocês era ainda pior, o Senhor, mesmo assim, proveu para vocês. Ele tem um trabalho a fazer e não encontrará instrumentos para realizá-los? E, embora vocês não vejam onde eles estão no momento, eles jamais estão tão distantes a ponto de não poder alcançá-los.  Vocês, ultimamente, não viram muitas dificuldades superadas, e tantas obras improváveis realizadas que, assim pensamos, elas silenciam a descrença para sempre? Mas se isso tudo não aquieta vocês--pois a tristeza e o descontentamento são paixões incontroláveis--, lembre-se, pelo menos, disso; suponha que o que vocês mais temem aconteça, ainda assim tudo deve ficar bem com todos os santos; a sua vez logo chegará; e todos nós habitaremos junto com Cristo, onde vocês não mais sentirão falta de seus amigos e ministros. E quanto ao pobre mundo, deixado para trás, e cujo estado de irregenerado os leva a sofrer, considere isto: por que o homem deve achar que é mais misericordioso que Deus? Ele não se interessa mais que nós pela igreja e pelo mundo?  Há uma época oportuna para o julgamento e para a misericórdia também.

Confesso que apenas podemos extravasar nossa dor por nossas congregações abandonadas, e não fica bem para nós fazer vir à luz a indignação de Deus.  Concluo, portanto, que, independentemente do que isso representa para os que são deixados para trás, ainda assim a partida dos santos, para eles mesmos, é geralmente oportuna.

 

VII

Outra maravilha desse descanso é esta: como ele é oportuno, então é um descanso apropriado, apropriado às naturezas, aos desejos [e] às necessidades dos santos. À natureza deles. Se a apropriabilidade não cooperar com a maravilha, então as melhores coisas podem ser ruins para nós; pois é o que torna as coisas boas em si boas para nós. Quando escolhemos nossos amigos, nós muitas vezes ignoramos o mais excelente para escolher o mais apropriado. Nem todo bem concorda com qualquer natureza. Viver ao ar livre, sob os raios quentes do sol, é excelente para o homem, porque é apropriado; mas o peixe, que tem outra natureza, prefere outro elemento; e aquilo que para nós é muito magnífico tornar-se-ia rapidamente destrutivo para esse animal.  Bem, aqui temos a associação da apropriabilidade com a maravilha; a nova natureza dos santos é apropriada ao espírito deles para esse descanso; e, na verdade, a santidade deles não passa de uma faísca retirada desse elemento, a qual, por intermédio do Espírito de Cristo, é inflamada no coração deles, a chama da qual, por mais cuidadosa que seja quanto a sua origem divina, sempre levanta a alma às alturas e tende a pô-la no lugar de onde ela vem. Ela trabalha em direção a seu próprio centro e nos deixa inquietos até que ali descansemos. O ouro e a glória terrena, as coroas e os reinos temporais não podem ser um descanso para os santos. Da mesma forma que não podem ser redimidos com um preço tão aviltante, também eles não são revestidos com uma natureza tão aviltante.  Assim como Deus receberá deles uma adoração espiritual, apropriada a seu ser espiritual, ele também lhes dará um descanso espiritual, apropriado à natureza espiritual de seu povo. Assim como os espíritos não têm substância carnal, também eles não se deleitarão com prazeres carnais; isso seria muito vil e grosseiro para eles.  Um céu cheio do conhecimento de Deus e de Cristo; uma agradável complacência nesse amor mútuo; um regozijo eterno no gozo de nosso Deus; um louvor eterno diante de sua suprema exaltação; esse é o céu para o santo, um descanso espiritual para uma natureza espiritual.  Se nossa natureza não fosse, de algum modo, divina, o desfrutar da verdadeira natureza divina não seria, para nós, um descanso apropriado.É apropriado ao desejo dos santos: pois o desejo deles estará em conformidade com a natureza deles; e o descanso deles estará em conformidade com o desejo deles. Na verdade, temos agora uma natureza mista; e de princípios contrários surgem desejos contrários; e assim como eles são carne, eles têm desejos da carne; e eles também têm desejos pecaminosos . Esses desejos não são os desejos apropriados a esse descanso, nem os acompanharão nesse descanso. Mas esse descanso é apropriado aos desejos de nossa natureza renovada, os que os cristãos comumente têm. Embora nosso desejo continue incorrupto e mal orientado, negá-los, sim, destruí-los, é uma piedade muito maior que satisfazê-lo; mas aqueles que são espirituais foram plantados pelo Senhor, e ele certamente os regará e efetuará o crescimento. É tão grande o trabalho de fazê-los crescer em nós para, depois disso tudo, definharem e desaparecerem?  Ele estimulou nossa fome e sede por justiça para que ele pudesse nos tornar plenamente felizes. Cristão, esse é um descanso segundo seu coração; ele contém tudo que seu coração pode desejar; aquilo que você anseia, tudo pelo que você orou e trabalhou, ali você encontrará tudo isso. Você prefere ter Deus em Cristo que todo o mundo; oras, ali você o terá! O que você não daria para ter certeza do amor do Senhor? Oras, ali você terá certeza plena, sem a menor dúvida. Não, agora seus desejos não conseguem alcançar a altura do que você deve obter ali. Esta é uma vida de desejo e de oração, mas aquela será uma vida de satisfação e de alegria.  Ó! Aqueles pecadores também considerariam que ver a Deus não lhes proporcionará uma alegria apropriada aos seus desejos sensuais; portanto, a sabedoria deles é esforçar-se para ter desejos apropriados à verdadeira felicidade e direcionar seu navio para o porto certo, uma vez que percebem que não podem trazer o porto para seu navio.O descanso é muito apropriado às necessidades dos santos como também a sua natureza e aos seus desejos. Ele tem tudo que eles verdadeiramente desejam.  É de Cristo e de sua santidade que eles mais precisam, e eles serão aqui supridos principalmente com isso. A chuva que a oração de Elias procurava não era mais oportuna após três anos de seca que esse descanso será para a alma sedenta.

 

VIII

Outra maravilha de nosso descanso será esta: de que ele será absolutamente perfeito e completo; e isso tanto na sinceridade quanto na universalidade dele. Ali, teremos alegria sem tristeza, e descanso sem cansaço. Como não há corruptibilidade alguma em nossas bênçãos, também não haverá sofrimento algum em nosso consolo. Não há nenhuma dessas ondas naquele porto, ondas essas que agora nos carregam para cima e para baixo. Haverá um aperfeiçoamento universal de todos os nossos talentos e poderes; e embora a parte positiva seja a mais doce e a que tira a outra após surgir, como o nascer do sol elimina a escuridão; no entanto, a parte negativa não deve ser desprezada, nem mesmo nossa liberdade, de tantas e grandiosas calamidades. Ele exclui totalmente o pecado, tanto o pecado original, como o da natureza; tanto o atual como o da cidadania; pois ali não entra nada que o avilte, nem que produza abominação, nem que seja mentira. Quando eles estiverem lá, os santos serão realmente santos. Aquele que os lavará com o sangue de seu coração, em vez de fazê-los sofrer por entrar impuros, garantirá com perfeição que isso aconteça; aquele que se encarregou para presenteá-los a seu Pai, "sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santos e inculpáve[is]" (Ef 5.27), certamente realizará o que prometeu.  Sei que se você tivesse opção de escolha, certamente escolheria ficar livre do pecado que tornar-se herdeiro do mundo todo. Oras, espere até aquele momento, e seu desejo será cumprido: aquele coração duro e aqueles pensamentos vis, que se deitam e se levantam com você, que o acompanham em todas suas responsabilidades, que você não con-segue deixar para trás, da mesma forma que também não consegue deixar a si mesmo para trás, serão todos deixados para trás para todo o sempre. Eles podem o acompanhar até a morte, mas não podem dar um passo adiante desse ponto. O seu entendimento jamais será perturbado pelas trevas: ignorância e erro são incompatíveis com essa luz. Agora você caminha como um homem que segue adiante à luz do crepúsculo, sempre com temor de perder seu caminho;  mas, ali, toda essa claridade será dispersa, e nosso entendimento cego será totalmente clarificado, e não mais teremos dúvidas quanto ao nosso caminho. Saberemos qual era o lado correto, e qual era o errado; o que era a verdade, e o que era o erro.

 O que não daríamos para ver todas as partes obscuras das Escrituras tornarem-se evidentes, ver todas as aparentes contradições harmonizadas! Oras, quando a glória retirar o véu de seus olhos tudo isso será compreendido em um momento; naquele momento, perceberemos claramente todas as controvérsias sobre a doutrina ou a disciplina, assuntos que agora nos deixam perplexos. O mais simples cristão é divinamente aperfeiçoado ali, mais que qualquer um pode ser aqui.  Quando nossa ignorância for perfeitamente curada, então seremos homens apaziguados e resolvidos; ali, nosso opróbrio será retirado de nós, e não mais mudaremos nosso julgamento.  Ó! Aquele dia alegre que se aproxima, dia em que o erro desaparecerá para sempre; em que nosso entendimento for cheio de Deus mesmo, cuja luz não deixará treva alguma em nós! Sua face será a Escritura em que leremos a verdade; e ele mesmo, em vez de mestres e conselheiros, aperfeiçoará nosso entendimento e nos familiarizará com ele, a verdade perfeita. Não haverá mais erros, nem escândalo para os outros, nem inquietação em nosso espírito; nem zelo equivocado por causa da falsidade; pois não mais haverá pecado em nosso entendimento. Há muitos homens piedosos aqui que, em seu zelo equivocado, são meios para o engano e a perversão de seus irmãos e, quando vêem seu próprio erro, já não sabem dizer como esclarecê-los; mas, ali, nós todos agiremos de acordo com a única verdade, ao ser um nele que é essa verdade.E descansaremos de todos os pecados de nossa compreensão, e de nossos desejos, e de nossas emoções, e de nossa fala. Não mais manifestaremos esse princípio rebelde, que ainda nos afasta de Deus. Sem dúvida, não mais seremos oprimidos com o poder de nossas corrupções, tampouco seremos envergonhados com sua presença; não mais seremos atormentados pelo orgulho, pelas paixões, pela indolência, pela insensatez, nada disso entrará em nós; não estranharemos a Deus nem às coisas de Deus; não haverá indiferença em nossas emoções, nem imperfeição em nosso amor; não haverá caminhar acidentado, nem entristeceremos o Espírito; não haverá ações escandalosas, nem conversas impiedosas: descansaremos para sempre disso; ali, nosso entendimento receberá a luz da face de Deus, como a lua cheia recebe a luz do sol, quando a terra não se interpõe entre eles; ali, nossos desejos corresponderão ao desejo divino, como a face corresponde à face no espelho; e esse mesmo desejo divino será nossa lei e regra e jamais nos desviaremos dele.

 

IX

É o descanso perfeito do sofrimento. Quando a causa desaparecer, o efeito cessa. Nossos sofrimentos não passavam de conseqüências de nosso pecado, e, ali, os dois desaparecerão juntos. Descansaremos de nossas dúvidas e de nossos medos desconcertantes; não mais se dirá que as dúvidas são como o cardo, uma erva daninha, que crescem em bom solo; elas, agora, serão arrancadas e não mais perturbarão a alma graciosa. Não precisaremos mais de tantos sermões, livros e marcas e sinais para esclarecer a pobre alma que duvida: o gozo mesmo desse amor soluciona, agora, suas dúvidas para sempre. Descasaremos de todo aquele sentimento do desprazer de Deus, nosso grande tormento aqui, ao sermos tragados por aquele oceano de amor infinito, quando nossos sentidos nos convencerão de que a fúria não habita em Deus; e ele, embora por um breve momento esconda sua face, receber-nos-á e abraçar-nos-á com sua eterna compaixão. Descansaremos de todas as tentações de Satanás, por meio das quais ele perturba nossa paz. Que tristeza para o cristão, embora não ceda à tentação, ainda ser importunado para negar a seu Senhor; que tal pensamento seja lançado em seu coração; que ele não consiga fazer nada do que é bom, mas Satanás ainda o convence a não fazê-lo, desviando a atenção dele, ou desencorajando-o! Que tormento e que tentação ter esses movimentos estimulados em sua alma!  Algumas vezes, pensamentos cruéis em relação a Deus, e outras vezes, pensamentos que desvalorizam Cristo; algumas vezes, pensamentos que põem em dúvida as Escrituras e, outras vezes, pensamentos ofensivos em relação à providência; algumas vezes, ser tentado para voltar-se às coisas presentes e, outras vezes, brincar com as iscas do pecado; algumas vezes, aventurar-se nos deleites da carne e, outras vezes, mergulhar no ateísmo insípido; especialmente quando conhecemos a infidelidade de nosso coração, pois este, como o material inflamável e a pólvora, está pronto a propagar o fogo, assim que uma dessas faíscas cai sobre ele. Como o pobre cristão, quando sente esses movimentos, vive em contínua inquietação! Mas ainda mais por seu coração ser o solo para essa semente, e a matriz extremamente frutífera desses frutos; e, acima de tudo, por meio do medo, com receio de que eles por fim prevaleçam, e esses movimentos amaldiçoados devem procurar seu consentimento. Mas, aqui, temos nosso conforto; quando não nos sustentamos por nossa própria força e não deveremos ser incriminados com nada disso; assim, quando o dia de nossa libertação chegar, descansaremos completamente dessas tentações. Satanás será aprisionado; e o tempo de tentação chegará ao fim. Agora, andamos em meio a seus laços e corremos o risco de ser envolvidos por seus métodos e vilezas; mas, ali, estaremos muito acima de seus laços e fora do alcance de sua voz cheia de fascínios sedutores. Ele tem poder aqui para nos tentar no deserto, mas ele não entrará na cidade santa.  Aqui, não há mais trabalho para Satanás.Descansaremos também de todas nossas tentações a que somos submetidos pelo mundo e pela carne, bem como por Satanás; e elas são incontáveis, e seu peso, se não olhássemos para a graça que nos sustenta, seria intolerável.  Para nós, todos os sentidos, todos os membros, todas as criaturas, todas as misericórdias e todas as responsabilidades são um laço. Mal podemos abrir os olhos, e já estamos em perigo. Se consideramos os outros acima de nós, corremos o risco da inveja; se os consideramos inferiores a nós, corremos o risco do desdém. Se o que vemos são prédios suntuosos, casas agradáveis, honras e riquezas, corremos o risco de nos deixar levar pelos desejos cobiçosos; se o que vemos são os trapos e a pobreza dos outros, corremos o risco da inclemência e dos pensamentos em que aplaudimos a nós mesmos; se o que vemos é a beleza, essa é uma isca para a cobiça; se o que vemos é a deformidade, essa é uma isca para o desprezo e a aversão. Mal podemos ouvir uma palavra, e já ela representa um motivo para a tentação. E, por essa passagem, muito rapidamente relatos difamadores, zombarias vis, falas devassas insinuam-se em nosso coração! Como nosso apetite pela tentação é forte e dominante, e como isso exige vigilância firme e constante! Temos graça e beleza? Que combustível para o orgulho. Temos alguma deformidade? Que oportunidade para o lamento. Temos bom raciocínio e facilidade para aprender? Como é difícil não se orgulhar disso! Impulsionar a nós mesmos; caçar aplauso; desprezar nossos irmãos; desgostar-se da simplicidade que há em Cristo: tanto na essência quanto no estilo das Escrituras, na doutrina, na disciplina, na adoração e nos santos; prestigiar um culto pomposo, carnal e ilusório a Deus e exaltar a razão acima da fé. Somos pessoas cujas mentes são superficiais e incultas e cujos membros são insuficientes? Como somos aptos a desprezar o que não temos e a subestimar o que não conhecemos; e a errar confiantes graças a nossa ignorância: e se a presunção e o orgulho se fizerem presentes, tornamo-nos, com o pretexto da santidade e da verdade, zelosos inimigos da verdade e principal perturbador da paz na igreja. Somos homens eminentes e ocupamos cargos de autoridade? Quão forte é nossa tendência de diminuir nossos irmãos, de abusar de nossa confiança, de impulsionar a nós mesmos, de fundamentar-nos em nossa honra e privilégios; de ignorar a nós mesmos, a nossos irmãos pobres e ao bem de todos: como é difícil devotar nosso poder à glória do Senhor, de quem o recebemos; como somos propensos a tornar nosso desejo nossa lei e a eliminar toda a alegria dos outros, tanto religiosos quanto leigos, por intermédio de nossas malditas regras e detestáveis modelos que apenas buscam satisfazer nosso próprio interesse e diretriz! Somos inferiores e vassalos? Como somos propensos a julgar a importância dos outros e tomar a liberdade de apresentar todas suas ações no tribunal de nosso incompetente julgamento; e a censurá-los, e a difamá-los, e a murmurar a respeito das medidas adotadas! Somos ricos e não somos muito exaltados? Somos pobres e não estamos descontentes e tornamos nossas necessidades um pretexto para roubar a Deus em todo seu serviço? Mas para sempre seja abençoado o amor onipotente que nos salva disso tudo, e que faz com que nossas restrições e dificuldades resultem nos benefícios da glória de sua graça salvadora.  No céu, o perigo e os problemas ficam para trás; não há nada exceto o que promove nossa alegria. Descansamos das tentações, como também dos abusos e das perseguições que sofremos nas mãos de homens perversos. Não mais seremos desprezados, escarnecidos, aprisionados, banidos, massacrados; as orações da alma derramadas diante do altar de Deus serão respondidas, e Deus vingará o sangue deles sobre os que habitam na terra. Este é o tempo em que os santos receberão a coroação com espinhos, os tapas e as cuspidas; aquele é o tempo para sermos coroados com glória. [...] Agora, devemos ser odiados por todos os homens por causa do nome de Cristo e do evangelho; depois, Cristo será admirado em seus santos que foram odiados desse modo. Agora, por não sermos do mundo, pois Cristo nos tirou do mundo, o mundo, portanto, realmente nos odeia; depois, por não sermos do mundo, pois fomos retirados de suas calamidades, o mundo, portanto, realmente nos admirará.. Agora, da mesma forma que odiaram a Cristo, eles também nos odiarão; depois, da mesma forma que honrarão a Cristo, eles também nos honrarão.  Quando a onda de perseguições cessar, e a igreja for chamada para sair do deserto, e a Nova Jerusalém descer do céu, e a misericórdia e a justiça forem totalmente glorificadas, então não mais sentiremos a fúria deles.  Deixamos tudo isso para trás de nós, assim que entrarmos na cidade de nosso descanso; os nomes lollardista, huguenotes, puritanos não mais serão utilizados; a inquisição da Espanha será ali condenada; os estatutos dos "Seis Artigos" serão ali repelidos; a lei de haereticis comburendis [os hereges devem ser queimados] mais justamente executada; a data do interim [interino] ali se expiará; o consentimento e a obediência não mais serão estimulados; o silêncio e o aprisionamento serão ali mais que suspensos; não há bispos nem cortes do chanceler; não haverá visitas nem julgamentos da Alta Comissão; nem censuras quanto à perda de membros, não haverá a prisão perpétua, nem o banimento. Cristo não será ali vestido com um manto suntuoso nem ficará com os olhos vendados; [...] tampouco a verdade estará revestida com os mantos da mentira, nem será influenciada por aquilo que ela contradiz mais diretamente; não teremos feridas que levem aos cismas, nem se verá um santo sangrando; tampouco nossos amigos nos influenciarão, embora nos confundam com seus inimigos. Ali, não há nada desse trabalho louco e cego.  Até aquele momento, guarde sua alma com paciência; amarre todo opróbrio como uma coroa para nossa cabeça; considere-o como riquezas maiores que os tesouros humanos; considere motivo de alegria quando enfrentar tribulações. Você, nesses momentos, vê que Deus pode libertar-nos; mas isso não é nada comparado com nossa conquista final. Ele recompensará com tribulação os que lhe causaram problemas; e você que foi atormentado receberá o descanso com Cristo. Descansaremos também de nossas divisões e das discussões, nada cristãs, uns com os outros. Não haverá disputas, pois, ali, não encontramos nada desse orgulho, ignorância ou qualquer outra corrupção. Paulo e Barnabé estão, agora, totalmente reconciliados. Ali estão eles, cada um deles não é afetado por seu próprio entendimento, nem apaixonado com a questão de suas próprias idéias, mas todos admiram a perfeição divina e estão apaixonados por Deus e uns pelos outros. Conforme o sênior Gryneus escreveu a seu amigo: "Se não mais o vir na terra, ainda assim nós nos encontraremos ali, onde Lutero e Zuínglio desfrutam agora de boa concordância de opinião" Há plena reconciliação entre sacramentalistas e ubiqüistas; calvinistas e luteranos; reformistas e contrareformadores; conformistas e não-conformistas. Antinomianos e legalistas não são termos conhecidos ali; presbiterianos e independentes estão em perfeita concordância. Não há disciplina criada por política de Estado, nem qualquer licenciosa regra popular; não há governo, exceto aquele de Cristo! E não é uma vergonha verificar que nosso rumo hoje é tão contrário? Não basta o mundo inteiro ser contra nós, mas também precisamos ficar uns contra os outros? Será que já passou por minha mente a idéia de ouvir cristãos reprovarem e desprezarem cristãos? E homens que professam o temor a Deus, mas que demonstram poucos escrúpulos em censurar, vilipendiar, desprezar e envergonhar uns aos outros?  Deus meu! Se o julgamento já se perverteu, e o erro influencia a faculdade suprema, para onde os homens vão, e o que eles farão? Não! O que eles não farão? Ó que tremendo instrumento para Satanás é a consciência mal-orientada!  Hoje, eles podem ser ortodoxos e unânimes e estar unidos em amor, mas, talvez, dentro de poucas semanas já estejam divididos e em amarga oposição por causa de sua paixão por questões que não tendem a edificar.  Ó alegre dia do descanso dos santos na glória! Quando, da mesma forma que teremos um só Deus, um só Cristo, um só Espírito, também teremos um só julgamento, um só coração, uma só igreja, uma só ocupação para todo o sempre! Quando não mais teremos circuncisão e incircuncisão, nem judeus e gentios, nem anabatistas, pedobatistas, congregacionalistas, separatistas, independentes, presbiterianos ou episcopais, mas apenas Cristo, e Cristo tudo em todos. Ali, não duvidaremos de nossa comunhão, nem das ordenanças da adoração divina; ali não teremos alguém a favor do cantar hinos, e outros contra; mas todos os que foram veementes na discórdia ficarão unidos na abençoada concórdia e formarão um melodioso coral. Descansaremos de todas as horas dolorosas e dos pensamentos tristes que agora nos assolam por que participamos com nossos irmãos de seus flagelos. Ai de nós! Se não tivéssemos nada que nos perturbasse, ainda assim o coração poderia deixar de lado a tristeza que existe nas vibrações dos sofrimentos da igreja? A igreja na terra não passa de um hospital. Qualquer que seja a direção que tomamos, escutamos lamentos, e onde que quer que repousemos nosso olhar, vemos coisas lamentáveis e aflição.  Quem não chora quando tudo isso sangra? E como as tristezas de nossos amigos são as nossas, também a libertação de nossos amigos será a nossa.  E não será mais confortável vê-los perfeitos que, agora, vê-los feridos, fracos, doentes e aflitos? Nosso dia de descanso livrará a nós e a eles disso tudo. Ó, as cenas tristes e de partir o coração que vi nesse curto espaço de tempo de quatro anos! Nessa guerra  todos os meses, todas as semanas víamos ou recebíamos notícias de sangue. Certamente, não há nada disso no céu.  Nossa tarja negra e vestes de luto se transformarão, ali, em vestes brancas e em trajes de alegria. Meu coração mal cabe em si quando penso nesse, e naquele, e naquele outro amigo cristão que foi morto ou que partiu! O quanto esse mesmo coração se alegrará quando vir todos eles vivos e glorificados! Mas a tristeza maior é para nosso espírito, ao ver as misérias espirituais de nossos irmãos;  ao ver nossos amigos mais queridos e íntimos se afastar da verdade de Cristo;  ao ver muitas pessoas próximas de nós negligenciar a Cristo e a sua alma! Ó! Que dor contínua enche nosso coração, dia a dia, com todas essas cenas tristes e pensamentos sombrios! E o dia em que descansarmos disso tudo não será um dia abençoado?  Que coração não se fere ao pensar nas longas desolações da Alemanha?  Veja os quatro anos de derramamento de sangue na Inglaterra, uma terra próspera agora em ruínas!  Veja a Escócia, veja a Irlanda; veja isso em quase todos os lugares!  Abençoado seja aquele dia que se aproxima, quando nossos olhos não mais verão essas cenas, nem nossos ouvidos ouvirão quaisquer dessas notícias! Descansaremos de todos nossos sofrimentos pessoais--quer naturais, quer costumeiros, quer extraordinários -- provenientes da mão de Deus que nos aflige. E isso, embora pareça pouca coisa para aqueles que vivem em constante conforto e sobejam com todo tipo de prosperidade para a alma afligida diariamente, assim acho, deve tornar aprazível os pensamentos de antecipação do céu. E como nossos sentidos não passam de entradas para o pecado, também se tornam entrada para nossa tristeza. O pesar se insinua através de nossos olhos e ouvidos e em quase todos os lugares. O medo nos consome e obscurece nosso deleite, da mesma forma que a geada destrói os tenros botões de flor. Os cuidados nos consomem e se alimentam de nosso espírito, da mesma forma que o sol escaldante faz murchar as flores delicadas.  Que peça delicada é esse nosso corpo de pó! Que frasco frágil este que carregamos; e quantos milhares de perigos ele enfrenta, e como é difícil restaurá-lo após ele se quebrar!

Acho que esse descanso, o que quer que ele represente para uma pessoa saudável e forte, parece aceitável para mim que, nesses dez ou doze anos, praticamente não tive um dia sequer sem que sentisse algum tipo de dor. Ó noites e dias extenuantes; ó debilidade apática e inútil; ó brumas do trabalho agitado; ó medicamentos fastidiosos e repugnantes, isso sem levar em consideração a expectativa diária de que o pior aconteça! Não seria agradável descansar disso tudo?  Ó abençoada tranqüilidade daquela região onde não há nada além da doce e incessante paz!  Nossa vida será apenas uma alegria, pois nosso tempo será transformado em apenas uma eternidade,  pois em breve há de acontecer, e o Senhor, naquele dia, nos dará descanso de nossos sofrimentos, e de nossos medos, e da dura servidão na qual servimos. O pobre não mais ficará cansado de seu incessante trabalho: não mais usará o arado, o cesto de junco, a foice, o foicinho; o servo não mais se inclinará ao senhor; nem o arrendatário ao dono da terra; não haverá fome, nem sede, nem frio, nem nudez, nem geada cortante, nem calor abrasante.  Não mais haverá separação de amigos, nem se ouvirá a voz de lamento em nossa casa; nem rompimento de amizades, nem desigualdade nem qualquer problema em nossos relacionamentos.  Ali, os que foram "comprados pelo Senhor retornarão e virão a Sião com cânticos, e alegria eterna estará sobre eles: eles obterão alegria e contentamento, e o sofrimento e o lamento fugirão de nós". Espere, portanto, um pouco mais, ó minha alma; agüente as enfermidades de seu tabernáculo terreno;  só um pouco mais; o som dos pés de seu Redentor está à porta, e a sua libertação mais próxima que a de muitos outros. E você que muito chorou, na linguagem do sublime poeta:O sofrimento era toda minha alma; mal acreditei. Até que o pesar contou-me claramente que vivi, sentirá, naquele momento, que Deus e a alegria são toda sua alma, e seu gozo, e a libertação de todo esse sofrimento fará com que saiba, de forma mais sincera e sensível, que viveu, e agradecerá por isso com seu louvor eterno.Descansaremos de todos os problemas e as dores de nossa responsabilidade. O magistrado consciencioso, agora, brada: "Ó! O fardo que está sobre mim!". Os pais conscienciosos, que conhecem a preciosidade da alma de seus filhos, e os constantes esforços exigidos para a educação piedosa deles, bradam: "Ó! Esse fardo!". Os ministros conscienciosos, quando lêem suas responsabilidades e vêem seu feitio; quando eles tentaram por algum tempo determinar o que se deve estudar, pelo que orar e o que pregar,  indo de casa em casa, e de alguém próximo a alguém próximo, e suplicar a eles, noite e dia, com lágrimas, e, depois disso tudo, ser odiado e perseguido por assim fazer, não é de admirar que brademos: "Ó! Esse fardo!". E, raras vezes, um ministro vive tanto a ponto de ver o amadurecimento de seu povo; mas um ara e planta, outro rega, e um terceiro colhe e recebe o crescimento.  Instruir o pecador maduro e inexperiente, convencer o teimoso, considerado sábio pelo mundo, persuadir um patife intencionalmente obstinado, to-car um coração de pedra em seu âmago, fazer uma rocha chorar e tremer, apresentar Cristo de acordo com nossa necessidade e sua maravilha, confortar a alma que Deus deixa abatida, esclarecer dúvidas difíceis e obscuras, opor-se, com argumentos convincentes, a todos os opositores, honrar o evangelho com conversas exemplares, quando multidões apenas estão à espera de nosso vacilo: "Ó! Quem é apto para todas essas coisas?  Assim, todo cristão consciencioso brada: "Ó! Esse fardo! Ó minha fraqueza que o torna muito pesado!". Mas nosso descanso que está por vir nos aliviará desse fardo. Por fim, descansaremos de todas nossas tristes emoções que, necessariamente, acompanham nosso afastamento de Deus.  Não mais olharemos em nosso armário por darmos pela falta de nosso tesouro; nem olharemos em nosso coração por darmos pela falta de Cristo; tampouco o procuraremos de ordenança em ordenança, nem perguntaremos às pessoas que encontramos se sabem onde nosso Deus está; nosso coração não mais ficará na mão, nem nossa alma suspirará sempre que assim pedirmos, mas tudo se completa em um gozo pleno e abençoado.

 

X

A última jóia em nossa coroa, e abençoado atributo desse descanso, é de que ele é um descanso eterno. Essa é a coroa de nossa coroa; sem ela tudo é, comparativamente, pequeno, ou nada. O pensamento mesmo de abandoná-lo amargaria todas as nossas alegrias; e ainda nos feriria ainda mais por causa das maravilhas singulares às quais precisaríamos renunciar.

 A mortalidade é a desgraça de todos os deleites terrestres. Pensar que ela deve, em breve, sacrificar nossa vida atual faz com que nosso viver--se não fosse pela referência que tem com Deus e com a eternidade--tenha pouco valor.  Certamente, se não fosse pela eternidade, consideraria o homem uma obra tola; e toda a sua vida e honras desprezíveis;  uma sombra vã. Não consigo valorizar nada que terá um fim, exceto se este levar àquilo que não tem fim; ou, por se originar naquele amor que não tem início nem fim. Falo isso a partir de minhas meditações.  O que devo dizer quando falo sobre a eternidade? Será que meus pensamentos, bastante superficiais, podem conceber tudo que essa expressão sublime contém? Ser eternamente abençoado, e muito abençoado! Oras, certamente isso, se é que algo é semelhança de Deus: a eternidade é uma parte da infinitude.  Assim, ó minha alma, deixe ir seus sonhos referentes aos prazeres atuais e livre-se de seu apego à terra e à carne. Não tema entrar naquele estado em que seus temores cessarão para sempre. Sente-se,  e reflita sobre essa eternidade. Estude com freqüência; estude de forma detalhada esta palavra: eternidade; e, quando tiver aprendido totalmente essa palavra, você jamais examinará livros de novo! O quê? Viver e jamais morrer? Regozije-se e regozije-se para sempre! Ó que doces palavras são estas: "nunca e sempre".  Ó que a graciosa alma estude cheia de fé esta palavra: eternidade: acho que ela a reavivaria em sua mais profunda agonia! Senhor, devo viver para sempre? Então, também amarei para todo o sempre. Minhas alegrias precisam ser imortais; e meus agradecimentos também não devem ser imortais? Certamente, se jamais perder minha glória, meus louvores jamais cessarão.  Se o Senhor aperfeiçoar e perpetuar minha glória, da mesma forma que serei dele, e não de mim mesmo, também minha glória será sua glória; e como tudo brotou do Criador, também tudo será novamente devolvido ao Senhor; e a glória do Senhor realiza seu fim supremo em minha glória, também ela será minha, quando o Senhor me coroar com aquela glória que não tem fim. E ao "Rei eterno, o Deus único, imortal e invisível, sejam honra e glória para todo o sempre. Amém" (1Tm 1.17).E, assim, esforcei-me para mostrar a você um vislumbre da glória que se aproxima: mas, ó, como minhas palavras ficam muito aquém de sua maravilha! Leitor, se você for um crente sincero e humilde, e se espera com desejo ardente e com dificuldade por esse descanso, brevemente verá e sentirá a verdade disso tudo.  Nesse meio tempo, permita que ela realmente acenda seus desejos, e lute, e continue em seu caminhar, pois, certamente, você tem um prêmio diante de você. Deus não zombará de você: não zombe de você mesmo, não traia sua alma, ao protelar ou ao perder tempo, e tudo isso será seu.

 

Capítulo 8

A DESCRIÇÃO DO POVO DE DEUS

 

Tendo, pois, realizado minha primeira tarefa de descrever o descanso dos santos, sigo agora para a segunda em que lhe mostrarei quem são as pessoas destinadas a esse abençoado descanso, ou seja, o "povo de Deus", e por que são assim chamados.  Ao ler sobre essa alta e indescritível glória, um estranho pode querer saber para que criatura ímpar essa poderosa preparação se destina, e talvez espere que algum ilustre sol irrompa; mas, veja bem, apenas uma casca cheia de pó, animada por uma alma invisível, e esta purificada pelo poder restaurador e inobservável da graça; essa criatura é que deve ter tal glória!  Mas vejamos, com mais particularidades, quem é esse "povo de Deus".  Eles são uma pequena parte da humanidade perdida, a que Deus desde a eternidade predestinou para esse descanso, para a glória de sua misericórdia; e o Senhor deu a seu Filho para que por meio dele, eles fossem redimidos de uma forma especial e recuperados de seu estado de perdição, marchando para essa glória superior: tudo que Cristo faz, em seu devido tempo, foi, portanto, conquistado para eles pelo Salvador e por seu Espírito que está sobre eles.  O "pequeno rebanho a quem foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino" (Lc 12.32). Se os que são santificados são poucos, os salvos também devem ser poucos: em número menor do que o mundo imagina; no entanto, não tão poucos quanto alguns espíritos abatidos julgam,  que suspeitam que Deus não está disposto a ser o Deus deles, quando eles, não obstante, estão dispostos a ser seu povo. O plano do decreto eterno de Deus é glorificar sua misericórdia e graça ao máximo na salvação deles; e, portanto, é necessária uma grande salvação. Todo passo de misericórdia nessa direção foi grandioso; e quanto mais ainda será esse fim de todas as misericórdias, que está ao lado do fim último de Deus, sua glória. Deus não pode permitir que nenhum trabalho inferior ou mesquinho seja a grande ocupação de um propósito eterno. Deus deu todas as coisas a seu Filho; e ele não perderá nada de tudo que o Pai lhe deu.Mas isso é apenas uma parte da descrição deles, a que diz respeito à obra de Deus por eles e neles; vejamos, de novo, o que eles também são em relação ao trabalho da alma deles para seguir em direção a Deus e ao Redentor deles.

Esse "povo de Deus" é aquela parte que foi chamada, e que foi radicalmente regenerada, embora de forma imperfeita, pelo Espírito de Cristo e, depois disso, foi convencida de algumas coisas e tornando-se sensível a elas: o mal no pecado, a torpeza em si mesmos, a vaidade na criatura, a necessidade de Jesus Cristo, e a suficiência e maravilha do Redentor para que abominem aquele mal, lamentem aquela torpeza e convertam seu coração daquela vaidade; e para que aceitem, de forma muito amorosa, Cristo como seu Salvador e Senhor, para que Deus lhes traga ao bem superior, e os apresente perfeitamente justos diante dele, e para que eles, portanto, entrem em uma aliança cordial com o Senhor, e, assim, entreguem a si mesmos a ele, e, desse modo, perseverem até o fim de suas vidas. Quando deveríamos estudar a Deus, estudamos a nós mesmos; quando deveríamos nos importar com Deus, importamonos conosco; quando deveríamos amar a Deus, amamos a nosso ser carnal; quando deveríamos confiar em Deus, confiamos em nós mesmos; quando deveríamos honrar a Deus, honramos a nós mesmos; e quando deveríamos atribuir a Deus e admirá-lo, atribuímos a nós e admiramos a nós mesmos; e, em vez de Deus, temos os olhos e a dependência de todos os homens postos em nós, e todos os agradecimentos dos homens dirigidos a nós, e, com muita alegria, seríamos o único homem da terra exaltado e admirado por todos. E, naturalmente, somos, portanto, nossos próprios ídolos. Mas, assim que Deus renova a alma, esse Dagon cai; e o grande interesse dessa obra é trazer o coração de volta para Deus.  Convence-se a alma, e ela se torna sensível dessa absoluta necessidade, da plena suficiência e maravilha de Jesus Cristo, tanto quando se considera ele por si só como quando se considera ele em relação a nós; tanto quando se considera ele o único caminho para o Pai como quando se considera ele o fim, pois ele é um com o Pai.  Assim, o Espírito convence a alma.Assim, enumeram-se claramente para você os aspectos essenciais desse povo de Deus: não um retrato completo deles em suas maravilhas.Não serei imaturo, nem inaproveitável, a ponto de fazer um relato do estado de vocês e de ver vocês exatamente nesse espelho.  Desejo que você examine sua alma e veja se encontra essas obras lapidadas em você.Você já percebeu a total ineficiência de toda e qualquer criatura, ou para que seja ela mesma o motivo de sua felicidade, ou o meio de curá-lo de sua torpeza e fazê-lo novamente feliz em Deus? Você já se convenceu de que a felicidade está apenas em Deus, nos-so fim; e apenas em Cristo, o caminho para ele, e o fim também, uma vez que ele é um com o Pai; e já percebeu que você precisa ser trazido para Deus por intermédio de Cristo, ou perecerá eternamente? Você, depois disso, conseguiu ver a absoluta necessidade de deleitar-se em Cristo; e a total suficiência que há nele, para fazer por você o que quer que seja que seu caso exija, por causa da plenitude da satisfação do Senhor, da grandeza de seu poder, e da dignidade de sua pessoa, e da gratuidade e da ilimitabilidade de suas promessas? Você descobriu a maravilha dessa pérola, a ponto de saber que vale a pena vender tudo para comprá-la? Tudo isso se juntou a alguma sensibilidade,  e não foi apenas uma mudança de opinião, produzida pela leitura ou pelos estudos, como uma noção vazia? Isso o levou a abominar o pecado e a subjugar a inclinação prevalente de sua vontade?  Você renunciou a toda sua justiça? Você tirou seus ídolos de seu coração, para que a criatura não mais seja soberana, e, agora, é um servo de Deus e de Cristo? Você aceitou a Cristo como seu único Salvador e espera que sua justificação, recuperação e glória venham apenas dele? Você também o aceita como Senhor e Rei? E as leis dele são os comandantes mais poderosos em sua vida e alma;  de forma que sua consciência esteja diretamente submetida apenas a Cristo?  Ele ocupa o quarto do andar superior em seu coração e em seus sentimentos, de forma que, embora você não consiga amá-lo como gostaria, nada é, não obstante, tão amado por você? Você, para esse fim, fez uma aliança sincera com ele e, portanto, entregou-se a ele e considera-se propriedade dele, e não mais sua mesma? E seu esforço mais cauteloso e seu cuidado supremo são para que você seja considerado fiel a essa aliança? Se esse realmente é seu caso, você não é uma dessas pessoas do povo de Deus de quem meu texto fala; e tão certo como a promessa de Deus é verdadeira, esse abençoado descanso está reservado para você. Apenas cuide para que você permaneça em Cristo e persevere até o fim. Mas se tudo isso for contrário a você, ou caso não se encontre esse cuidado em você, e se sua alma desconhece isso tudo, e sua consciência lhe diz que esse não é bem o caso, que o Senhor tenha misericórdia de sua alma, e abra seus olhos, e opere essa grande transformação em você e, por meio de seu poderoso poder, subjugue sua resistência, caso contrário, não há esperança para você.  Ó, que você seja sábio e pondere sobre isso, e que também se lembre de seu derradeiro fim! E enquanto sua alma estiver no corpo; e o prêmio, em sua mão; e a luz do dia, as oportunidades e as esperanças, diante de ti; seus ouvidos podem ser abertos à instrução, e seu coração pode render-se às persuasões de Deus; e você aplicar todos os poderes de sua alma nessa grande obra; para que, assim, você descanse em meio ao povo de Deus e desfrute da herança dos santos na luz! E, assim, mostrei-lhe quem é esse povo de Deus.

 

Capítulo 9

A VERDADE INDUBITÁVEL DESSE DESCANSO

COMPROVADA PELAS ESCRITURAS

 

A seguir, prosseguiremos para a confirmação dessa verdade. A Escritura, de seis formas distintas, afirma claramente essa verdade.Ela afirma que esse descanso foi predestinado aos santos, e os santos, predestinados a ele. "Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade" (Hb 11.16). "Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam" (1Co 2.9). "... o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim conceder. Esses lugares pertencem àqueles para quem foram preparados por meu Pai" (Mt 20.23): e eles são chamados "vasos de sua misericórdia, que preparou de antemão para glória" (Rm 9.23). E, em Cristo, obtemos a herança, "predestinados con-forme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade" (Ef 1.11). "E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou" (Rm 8.30): "porque desde o princípio Deus os escolheu para serem salvos mediante a obra santificadora do Espírito e a fé na verdade" (2Ts 2.13). Quem pode privar seu povo desse descanso que lhe foi predestinado pelo propósito eterno de Deus?

Segundo, a Escritura declara que esse descanso foi comprado, como também lhes foi predestinado; ou que eles foram resgatados para esse descanso. E em que sentido pode-se afirmar que foi comprado por Cristo, já demonstrei anteriormente; ou seja, não como o pagamento imediato de nossa dívida, ao satisfazer a lei, mas como um fruto mais remoto e mais excelente; até mesmo o efeito desse poder, que obteve para si pela morte. Ele mesmo, por causa do sofrimento até a morte de cruz, foi coroado com glória, embora ele não tenha propriamente morrido por si mesmo, nem esse foi o efeito direto de sua morte.  "Portanto, irmãos, temos plena confiança para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus" (Hb 10.19); até mesmo nossa entrada em todo o gozo do Senhor, tanto por meio da fé como da oração aqui, e pela plena posse na vida por vir. Portanto, os santos cantam seus louvores àquele que "com seu sangue comprou para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação e os constituiu reino e sacerdotes para o nosso Deus" (Ap 5.9,10). Cristo foi levantado na cruz da "mesma forma como Moisés levantou a serpente no deserto,  para que todo o que nele crer tenha a vida eterna" (Jo 3.14,15). Assim, ou Cristo desperdiçou seu sangue e sofrimento e jamais verá a obra de sua alma, e toda sua dor e esperança foram frustradas, ou, caso contrário, ali há um descanso para o povo de Deus.Terceiro, como esse descanso foi comprado para nós, ele também nos foi prometido. Como o firmamento tem estrelas, também as páginas sagradas estão cobertas com esses freqüentes acréscimos dessas promessas divinas. Cristo nos disse que seu desejo é que aqueles que lhe foram entregues estejam onde ele estiver, para que vejam a glória que o Pai lhe deu (Jo 17.24); assim, também: "Não tenham medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino" (Lc 12.32).  Não duvide da certeza dessa dádiva, pois ela se fundamenta na boa vontade de seu Pai: "E eu lhes designo um Reino, assim como meu Pai o designou a mim" (Lc 22.29).

Quarto, todos os meios da graça e todas as obras do Espírito na alma, e todas as graciosas ações dos santos são um meio tão evidente para provar que ali há um descanso para o povo de Deus. Se a máxima que Deus e a natureza não fazem nada em vão é inegável, então isso também é verdade em relação a Deus e à graça divina. Todos esses meios e movimentos implicam algum fim para o qual eles se dirigem, ou, caso contrário, eles não podem ser chamados meios, nem são movimentos da sabedoria ou da razão: e não poderia se imaginar nenhum fim menor que este--o descanso. Deus jamais ordenaria a seu povo que se arrependesse e cresse, que jejuasse e orasse, que batesse à porta e buscasse, que, continuamente, lesse e estudasse, que conferisse e meditasse, que se esforçasse e trabalhasse, que corresse e lutasse, e tudo isso sem qualquer propósito. Tampouco, o Espírito de Deus trabalharia neles para alcançar isso, nem criaria um poder sobrenatural neles, não os capacitaria nem os estimularia para que conseguissem esse constante desempenho, se não fosse para os levar a esse fim. Tampouco, os santos poderiam, de forma sensata, tentar esse trabalho, nem suportar sofrimentos tão grandes, se não fosse por esse fim proveitoso e agradável. Mas certamente, independentemente do que a loucura do homem possa fazer, a sabedoria divina não pode ser culpada de dar início a movimentos tão infrutíferos. Portanto, seja onde for que eu leia sobre uma responsabilidade exigida, seja onde for que encontre a graça concedida, tomo isso como as muitas promessas do descanso. O Espírito jamais estimularia desejos tão fortes pelo céu, nem tamanho amor por Jesus Cristo, se não fosse para receber aquilo que desejamos e amamos. Ele que nos pôs aos pés do caminho da paz nos levará a essa paz até o fim. Quinto, a Escritura ainda nos assegura que os santos têm o início, o antegozo, a garantia e o selo desse descanso aqui: e tudo isso não lhes garante a posse total? O Reino de Deus habita neles (Lc 17.21).  Você acha que Deus dá o início onde jamais teve a intenção de dar o fim? Não! Deus, muitas vezes, dá a seu povo presciência e antegozo desse mesmo descanso a ponto de o espírito deles chegar a ser transportados até ele. Paulo foi levado ao terceiro céu e viu coisas sobre as quais "não é permitido falar" (2Co 2.4). Os santos "são protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação prestes a ser revelada no último tempo", quando poderão regozijar-se grandemente, até mesmos "em todo tipo de provação" (1Pe 1.5,6). Portanto, o apóstolo também nos diz que aqueles que não tendo visto a Cristo, nem jamais o viram, mas mesmo assim o amam, e, ao crer, alegram-se nele com alegria indizível e gloriosa, alcançam o alvo da fé deles, a salvação da alma (1Pe 1.8,9). Você acha que Deus atormentaria seu povo? Ele seria capaz de lhes dar as primícias, mas não a safra toda? Ele mostra-lhes a glória para que anseiem por ela para, depois, negar-lhes o gozo dessa glória? Ele levanta-os tão próximos desse descanso e permite que eles se regozijem com ele, mas, mesmo assim, não lhes concede esse descanso? Isso não é possível. Não! Ele dá-lhes a "a garantia da sua herança" (Ef 1.14) e sela-os "em Cristo com o Espírito Santo da promessa" (Ef 1.13), mas, mesmo assim, nega-lhes a posse plena desse descanso? Esses absurdos não podem ser atribuídos ao homem comum, e muito menos ao nosso Deus justo e fiel.Finalmente, a Escritura menciona, de forma específica e por nome, aqueles que entraram nesse descanso, como Enoque, que foi arrebatado para junto de Deus. Também Abraão, Lázaro e o ladrão crucificado com Cristo. E, se há um descanso para eles, certamente há um descanso para todos os crentes. O fim mesmo da Escritura é ser um guia que nos leve a esse abençoado estado, e revelá-lo para nós, e persuadir-nos a buscá-lo da forma ali prescrita, e familiarizar-nos com os obstáculos que nos impedem de alcançá-lo, e ser a garantia e o privilégio por meio dos quais ganhamos nossa posição ali. Assim, aquele descanso, por meio da glória de Deus, está para a Escritura como o fim está para o caminho, que, com freqüência, expressa-se por meio do todo e implica esse todo. Não há ninguém que duvide da certeza dessa glória prometida, exceto aqueles que duvidam da verdade da Escritura, ou os que não conhecem seu conteúdo.

 

Capítulo 10

AS RAZÕES POR QUE ESSE DESCANSO ESTÁ POR VIR, E POR QUE ELE NÃO É DESFRUTADO AQUI

 

O próximo passo  é mostrar por que esse descanso ainda está por vir e por não é desfrutado até que cheguemos ao outro mundo. Primeiro, a principal razão é que é da vontade de Deus que seja assim. Quem deve dispor das criaturas, senão aquele que as criou? Quem dever organizar os tempos e as transformações delas, senão o Senhor absoluto? Quem é o único que também tem sabedoria para decidir o que é melhor para a pessoa e poder para garantir que seu desejo seja realizado? Você também pode muito bem perguntar: "Por que não podemos ter a primavera e a colheita sem o inverno?", como também indagar: "Por que não temos esse descanso aqui na terra?".Contudo, você também pode muito bem ver uma boa razão para isso. Primeiro, Deus deveria subverter a ordem estabelecida na natureza, se fosse para ele nos dar esse descanso aqui na terra. Todas as coisas devem chegar a sua perfeição passo a passo.  O homem mais forte de todos precisa primeiro ser uma criança;  o erudito mais notável precisa primeiro cursar a escola primária e aprender o abecê; o artífice mais talentoso foi no início um aprendiz inexperiente; o carvalho mais alto foi primeiro uma pequena bolota. Esse é o curso contínuo da natureza.  Esta vida é nossa infância; quem sabe deveríamos ser aperfeiçoados no ventre, ou nascer totalmente desenvolvidos? Deus deve subverter o curso da natureza para nós?

E seria um absurdo ético, se nosso descanso e contentamento plenos fossem aqui. Isso seria uma ofensa para Deus e para nós mesmos. Primeiro para Deus, tanto nesta vida quanto na vida por vir. Nesta vida, isso seria uma ofensa para Deus, tanto em relação ao que faz por nós aqui quanto em relação ao que ele receberia, por assim dizer, de nós. Se nosso descanso fosse aqui, então a maioria das providências de Deus seriam inúteis; seu notável plano, frustrado; e suas obras cheias de graça e suas misericórdias, desnecessárias para nós.  Se o homem tivesse mantido seu primeiro descanso no Paraíso, Deus não teria oportunidade para manifestar seu enorme amor pelo mundo entregando seu Filho.  E como Deus não teria a oportunidade para exercitar toda sua graça, mas apenas algumas delas, então ele não teria nosso agradecimento por tudo que faz por nós. Não sentimos como se nossas orações estivessem prontas a congelar? E como o servimos displicentemente? E como esquecemos ou passamos por cima de uma responsabilidade, quando temos saúde e prosperidade, embora ainda estejamos muito distantes de todo contentamento e descanso?  Se tivéssemos o que teremos, como ele ouviria muito pouco a nossa voz! Deus se agrada da alma humilde e contrita, da alma que treme ao ouvir a sua Palavra; mas haveria pouco disso em nós, se satisfizéssemos plenamente nossos desejos aqui. Achamos que podemos louvar a Deus melhor se não precisássemos de nada; mas a experiência nos diz o contrário. Além disso, como a variedade é um elemento da beleza da criação, ela também o é da providência; e se fosse para Deus exercitar aqui apenas um tipo de previdência, e conceder apenas um tipo de graça, e receber nosso agradecimento apenas por uma delas, isso seria uma diminuição da beleza da providência.E seria uma grande ofensa para nós mesmos, como também para Deus, se tivéssemos nosso pleno contentamento e descanso aqui na terra; tanto agora quanto para todo o sempre.  Quando Deus perde a oportunidade para exercitar suas misericórdias, o homem também perde a alegria de desfrutar delas.

 E quando Deus perde os louvores que lhe são devidos, o homem certamente perde as consolações do Senhor. Como poderíamos conhecer o coração amoroso do Pai, e como ele nos encontraria cheio de alegria e nos abraçaria, se não nos fosse negado, como aconteceu com o filho pródigo, as migalhas do prazer e dos benefícios terrenos? Jamais sentiríamos a mão suave de Cristo curando nossas feridas e enxugando nossas lágrimas, se não tivéssemos caído nas mãos de bandidos, e se não tivéssemos lágrimas para ser enxugadas. Se não estivéssemos cansados, e sobrecarregados, e sedentos, e não fossemos pobres, e humildes, e contritos, jamais teríamos estes doces textos em nossa Bíblia: "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados" (Mt 11.28); "Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida" (Ap 22.17); "Bem-aventurados os pobres em espírito" (Mt 5.3); "Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é santo: 'Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito'" (Is 57.15). Em outras palavras, perderíamos todas as misericórdias redentoras,  nossas recuperações, nossos livramentos e as misericórdias de ação de graças, se não tivéssemos nossas misérias e nossos sofrimentos para proporcionar tudo isso. E isso seria uma perda para nós, tanto no futuro quanto no presente. Para um soldado, ou para um viajante, é um grande deleite olhar em retrospectiva suas aventuras e seus livramentos, depois de que eles já fazem parte do passado; e para um santo no céu, olhar em retrospectiva para a condição em que estava na terra deve fazer com que suas alegrias sejam racionalmente mais alegres.  Quando os abençoados estão no fim, eles olham em retrospectiva para o caminho; quando a luta é finda, e o perigo já acabou, e a tristeza se foi, ainda assim a alegria com a lembrança disso tudo não se esgotou, nem os louvores de seu Redentor se findaram. Mas se não tivermos nada além da alegria e do descanso na terra, que espaço haveria, depois disso, para o regozijo e os louvores?

Agora, nós somos seres incapacitados para a alegria e o descanso; e isso tanto no que diz respeito ao corpo como à alma. Uma alma que é tão fraca em toda a graça, tão propensa ao pecado, tão entretecida como princípios e desejos contraditórios  tem, nesse caso, alegria e descanso plenos? O que é o descanso, senão a perfeição de nossas bênçãos em hábito e ações, o amor a Deus de forma perfeita, o conhecimento do Senhor e o regozijo nele? Como pode descansar a alma que tem tão pouco desse conhecimento, e desse amor, e dessa alegria? O que é o descanso, senão a libertação do pecado, e das imperfeições, e dos inimigos? E pode descansar a alma que é importunada, e incessantemente, por tudo isso? E nosso corpo, bem como nossa alma, são incapacitados para esse descanso. Agora, ele não é aquele corpo radiante e luminoso que será um dia, quando o corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o mortal, de imortalidade. Ele é nossa prisão e nosso fardo; e é tão assolado por enfermidades e defeitos que somos obrigados a gastar a maior parte do tempo em seu restabelecimento e no suprimento de suas necessidades.  Certamente, esse corpo  deve ser refinado a uma perfeição apropriada para aquele lugar, antes que seja capaz de desfrutar do descanso.Como não somos capacitados a ter esse descanso na terra, então queremos aqueles objetos que podem nos propiciar alegria e descanso; pois os que agora desfrutamos não são suficientes, e o que é suficiente não está ao alcance de nossas mãos. Desfrutamos do mundo e de sua faina, e que fruto ele pode nos dar? O que há em tudo que temos aqui que possa nos dar descanso? Os que têm mais de tudo que o mundo pode oferecer carregam o maior fardo, e desfrutam de menos descanso que os outros.  Tolos inexperientes prometem a si mesmos ter, no presente, o céu na terra; mas quando eles estão prontos para desfrutá-lo, ele foge deles; e quando já perderam o fôlego de tanto correr atrás dessa sombra, ele não está mais perto deles que quando iniciaram a corrida.  Aquele que tem alguma consideração com as obras do Senhor pode facilmente ver que o fim mesmo delas é derrubar nossos ídolos, cansar-nos neste mundo e forçar-nos a buscar nosso descanso nele. Afinal, não é onde prometemos a nós mesmos mais contentamento que ele mais nos contraria?

E como o que desfrutamos aqui não é suficiente para nosso descanso, então Deus, que é suficiente, é pouco desfrutado aqui. Não foi aqui que ele preparou a sala para a presença de sua glória; ele fechou a cortina que nos separa dele; como criaturas, estamos distantes dele; como meros mortais, mais distante ainda; como pecadores, o mais distante possível. Ouvimos aqui e ali uma palavra de conforto dele, e, para guardar nosso coração e manter acessa nossa esperança, recebemos suas demonstrações de amor; mas--Deus meu!--isso não é nossa alegria plena. Enquanto estivermos neste corpo, estaremos distantes do Senhor; distantes, até mesmo, enquanto ele estiver presente. A alma que escolheu Deus como sua porção e o escolheu para sua única alegria e descanso pode encontrar descanso nessa distância tão enorme?

E, por fim, como somos incapazes em nossa natureza, também o somos quanto à moral. Há um merecimento que deve vir antes de nosso descanso. Ele tem a natureza de uma recompensa; não uma recompensa de dívida, mas de graça. E, assim, não temos um merecimento de dívida, nem mérito propriamente dito, mas o merecimento da graça e da preparação. Sim, é uma obra da justiça de Deus dar a coroa àqueles que conquistaram esse descanso, não por meio de sua justiça legal, mas da justiça do evangelho, pois Cristo nos trouxe a ela, e Deus a prometeu e, portanto, ele a declarará a eles como direito destes. Para os que combateram o bom combate, terminaram a corrida e guardaram a fé há uma coroa  de justiça separada para eles, a qual o Senhor, o justo Juiz, dar-lhe-á naquele dia. E estamos preparados para receber a coroa antes de termos vencido? Ou o prêmio antes de terminar a corrida? Ou receber nosso pagamento antes de trabalhar na vinha? Ou de ser governante de dez cidades antes de multiplicar nossos talentos? Ou de entrar na alegria do Senhor antes de cumprir bem nossa missão como servos bons e fiéis? Ou herdar o reino antes de dar testemunho ao mundo de nosso amor por Cristo? Que os homens depreciem as obras o quanto quiser e pelo tempo que desejar, mas você descobrirá que essas são as condições para que ganhemos a coroa; assim, Deus não alterará o curso da justiça para lhe dar descanso antes de você trabalhar; tampouco você receberá a coroa de glória até que tenha vencido.Portanto, há razões suficientes para que nosso descanso deva esperar até a vida por vir. Assim, leitor cristão, preste atenção: como você ousa projetar um descanso aqui na terra e cuidar para que possa desfrutá-lo? Ou murmurar para Deus por causa de seus problemas, e labuta, e necessidades aqui na carne?  Sob o peso de seu cansaço, você está disposto a ir para Deus, seu descanso, e terminar seu combate, e sua corrida, e suas obras? Se não, ó, reclame mais com seu coração e deixe-o ainda mais cansado, até que o descanso passe a ser mais desejável.

 

Capítulo 11

AS ALMAS QUE JÁ PARTIRAM  DESFRUTAM DESSE DESCANSO

ANTES DA RESSURREIÇÃO, OU NÃO

 

Tenho mais uma coisa para esclarecer,  e é isto: só se desfruta esse descanso depois da ressurreição, ou tomamos posse de parte dele antes disso?   Creio realmente que, como o homem, assim que a alma se separa do corpo, ainda não é perfeito, também não desfruta a glória e a felicidade de forma tão plena e tão perfeita, como o fará quando os dois se reunirem novamente. Qual é essa diferença, e qual o grau de glória que a alma desfruta nesse meio tempo, esses são fatos muito sublimes para que os mortais possam discernir de forma minuciosa.  Ainda não podemos ter concepções claras dessas coisas. Mas a alma dos crentes, separada do corpo, desfruta de bênçãos e de glória inconcebíveis, mesmo enquanto ainda está separada, eu provo.

Aquelas palavras de Paulo são extremamente claras, e ainda não compreendo que exceção aceitável é possível se fazer a elas: "Por-tanto, temos sempre confiança e sabemos que, enquanto estamos no corpo, estamos longe do Senhor. Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos. Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor" (2Co 5.6-8). Tão claras quanto as palavras de Filipenses 1.23: "Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor". Essas palavras fariam sentido se Paulo não esperasse desfrutar Cristo até a ressurreição? Por que ele se sentiria pressionado e desejaria partir? Ele não deveria estar com Cristo o quanto antes para que isso acontecesse? Mais ainda, ele não estaria relutante em partir por essas mesmas razões? Pois, enquanto estava na carne, ele, em parte, desfrutava de Cristo. E Cristo foi muito claro com o ladrão: "Hoje você estará comigo no paraíso" (Lc 23.43). E, é claro, embora não passe de uma parábola, a história do rico no inferno e de Lázaro, parece improvável supor que Cristo lhes ensinasse sobre a felicidade ou a miséria da alma, como parece evidente aos íntimos, se não se tratasse desse assunto. Claras também são as palavras de Apocalipse 14.13: "'Felizes os mortos que mor-rem no Senhor de agora em diante'. Diz o Espírito: 'Sim, eles descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão'".  E não se afirma isso de outra maneira: "Mas vocês chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Vocês chegaram a Deus, juiz de todos os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados" (Hb 12.22)?

A Escritura não nos ensina que Enoque e Elias já foram arrebatados, e devemos achar que eles têm essa glória sozinhos? Pedro, Tiago e João também não viram Moisés com Cristo no monte da transfiguração? No entanto, a Escritura ensina-nos que Moisés morreu; seria possível que Cristo iludiu os sentidos deles ao mostrar-lhes Moisés, se ele não compartilhasse daquela glória até a ressurreição? E as palavras de Estêvão não foram tão claras para nós? "Senhor Jesus, recebe o meu espírito" (At 7.59). Claro que se o Senhor recebeu o espírito desse santo, ele não está adormecido, não foi morto nem aniquilado; mas é ali que ele está e vê a glória do Senhor.  E não se afirma isso de outra maneira, que já temos a vida eterna; que esta "é a vida eterna [que já começou aqui]: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17.3); que quem "crê no Filho tem a vida eterna" (Jo 3.36); que "aquele que se alimenta deste pão viverá para sempre" (Jo 6.58).Certamente, se houver uma interrupção tão grande de nossa vida até a ressurreição e para alguns isso acontecerá depois de milhares de anos--, isso não é vida eterna, nem reino para todo o sempre. Observa-se também que quando João teve suas gloriosas visões, ele afirma que se achava "no Espírito" (Ap 1.10) e que se viu "tomado pelo Espírito" (Ap 4.2); e quando Paulo teve suas revelações e viu coisas indizíveis, ele não sabia se estava no corpo ou fora do corpo--, e tudo isso implica que o espírito é capaz dessas coisas gloriosas, sem a ajuda de seu corpo.  Cristo ordena-nos a ter "medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma" (Mt 10.28). Isso não implica claramente que quando os homens perversos matam nosso corpo--ou seja, separam nossa alma do corpo--, a alma ainda está viva? Por que há menção de Deus soprando no homem o fôlego de vida e chamando a alma deste de ser vivente? Não há menção de nada semelhante a isso na criação das outras criaturas e, portanto, isso, com certeza, faz com que haja alguma diferença entre a vida de nossa alma e a delas. É lamentável que a opinião cruel da mortalidade da alma encontre muitos patronos professando religiosidade, quando há tanta evidência na Escritura contra esse fato.  E, ainda mais, a maioria das nações do mundo, até mesmo os índios incivilizados, reconhece à luz da natureza, algo que esses homens negam, que há uma felicidade e uma miséria à qual a alma que se separou de seu corpo se destina. Portanto, acredite firmemente, ó alma fiel, que, apesar de tudo que os enganadores deste mundo possam dizer em contrário, sua alma, assim que abandonar sua prisão de carne, terá a escolta de anjos; Cristo será a companhia dela, junto com todos os espíritos aperfeiçoados do justo; o céu será sua habitação, e Deus será sua felicidade.

 

Capítulo 12

UMA EXORTAÇÃO PARA AJUDAR OS OUTROS A ALCANÇAR ESSE DESCANSO

 

Deus pôs diante de nós um prêmio tão glorioso quanto o é esse descanso eterno dos santos e fez o homem capaz de alegria tão inconcebível? Então, por que todas as crianças desse reino não se apressam mais para ajudar os outros a desfrutar dele? Deus meu! E como essas pobres almas ao nosso redor devem tão pouco à maioria de nós! Vemos a glória do reino, mas essas pessoas não o vêem; vemos a miséria e o tormento daqueles que o perdem, mas eles não vêem isso; vemos essas pessoas se desviarem bastante do caminho, sabendo que se elas continuarem assim jamais chegarão lá, mas elas não são capazes de discernir isso. E, mesmo assim, nós não as abordamos seriamente para mostrar o perigo e o erro a fim de ajudar a trazê-las para o caminho onde possam viver. Deus meu! Encontramos tão poucos cristãos que vivem como homens que ali estão para fazer o bem e que se dedicam com todas suas forças a salvar almas! Portanto, gostaria que você compreendesse muito bem qual é esse trabalho que quero persuadi-lo a realizar. Assim, a responsabilidade que o pressionaria a realizar consiste dos seguintes aspectos:

Que seu coração seja afetado pela miséria da alma de seus irmãos; que você tenha compaixão deles; que você deseje ardentemente que eles se convertam, e que seu coração esteja voltado a só fazer o bem para eles, isso estabeleceria um trabalho para você, e o Senhor, usual-mente, abençoa essa empreitada. Pegue todas as oportunidades possíveis para conversar em particular com eles sobre o estado em que se encontram a fim de instruí-los e ajudá-los a conseguir a salvação  Inicie o trabalho sinceramente e com as intenções corretas. Permita que seus fins sejam a glória de Deus na festa da salvação. Faça isso não para ganhar um nome, ou estima, para si, nem para fazer com que os homens dependam de você. Mas certifique-se de que o objetivo principal é recuperá-los da miséria e trazê-los ao caminho do descanso eterno. Aqueles que fazem isso com compaixão e com amor delicado para com a alma dos homens são os que fazem isso em obediência a Cristo, o mais delicado de todos, amante apaixonado das almas; os que imitam o Salvador quanto à medida e ao local, que vieram para buscar e salvar os que estavam perdidos. Faça isso o quanto antes; como se você não quisesse que eles atrasassem o retorno deles; assim, não se atrase em sua busca para fazê-los retornar.  Atrasar sua responsabilidade é uma demonstração de grande desobediência, embora você a desempenhe depois: isso é demonstração de um coração doente e indisposto para o trabalho. Quantos pobres pecadores perecem, ou criam raízes, praticamente incuráveis, no pecado, enquanto nos propomos a buscar a recuperação deles! As oportunidades não duram para sempre. Que a sua exortação proceda da compaixão e do amor, e que a forma como a demonstra demonstre claramente à pessoa com quem lida de onde ela procede.  A forma promissora para trabalhar na mudança de um homem não é por meio do sarcasmo, do desprezo, ou da reprovação; tampouco, a forma correta para convertê-lo a Cristo não é por meio das afrontas ou da humilhação com palavras de desgraça. Os homens consideraram seus inimigos os que os tratam dessa forma, e as palavras de um inimigo não são muito persuasivas. Portanto, deixe de lado sua paixão, e pegue a compaixão, e vá ao encontro dos pecadores com lágrimas nos olhos para que eles vejam que você realmente lamenta, de forma genuína, o caso deles. Lide com eles com súplicas humildes e sinceras. Deixe-os ver que o único desejo de seu coração é fazer-lhes o bem. Deixe-os perceber que você não tem qualquer outra finalidade senão buscar a felicidade eterna deles; e que o que o leva a falar é saber o perigo que eles correm, o amor que você tem pela alma deles.  Sei que é Deus quem muda o coração dos homens, mas também sei que Deus trabalha por nosso intermédio, e que, quando ele realmente quer persuadir os homens, ele geralmente provê os melhores meios para cada caso e impulsiona homens a argumentar com eles de forma convincente e, assim, entra com sua graça e torna essa empreitada bem-sucedida. Certamente, aqueles que já tentaram podem lhe dizer, por experiência própria, que não há caminho mais convincente para os homens que o do amor e o da compaixão. Outro conselho que lhe daria seria este: faça tudo com toda clareza e fidelidade; não use atenuantes nem esconda dos homens suas misérias, o perigo que correm, ou qualquer outro fato relevante para eles; não torne o pecado deles menor do que realmente é, nem abrande sua linguagem para falar sobre eles; não os encoraje a ter uma esperança, ou fé, vã, da mesma forma como não desencorajaria as esperanças sadias dos retos. Se você perceber que o caso deles é perigoso, diga-lhes claramente isso. Ficar dando voltas, à distância, não é o que os ajudaria na conversão.

E da mesma forma que você precisa fazer isso de forma clara, também precisa agir com seriedade, zelo e eficácia. Tal é a natureza da tremenda estupidez e do entorpecimento do coração dos homens que nenhuma outra forma de agir produzirá efeito. Você precisa gritar para fazer com que os homens despertem desse desfalecimento ou abandonem essa letargia.  Portanto, se for para você lhes fazer o bem, é preciso que afie sua exortação, direcione-a e acompanhe-a até o coração deles, até que eles despertem e comecem a olhar a sua volta. Deixe-os saber que você não fala com eles sobre coisas indiferentes.  Trabalhe para que os homens saibam que é loucura zombar da salvação ou da condenação, e que não se deve brincar com o céu e o inferno, nem ignorar esse assunto ao dedicar-lhe apenas alguns pensamentos indiferentes.  O que você acha? O mundo se consume; seus prazeres se desbotam, suas honras o abandonam; seus lucros provar-se-ão inaproveitáveis para vocês; o céu ou o inferno está logo ali adiante de você; Deus é justo e zeloso; as ameaças dele são verdadeiras; o grande dia de seu julgamento será terrível; você já tarda; seu tempo de vida se escoa rapidamente; sua vida é incerta; você já se demora o bastante; seu caso é perigoso; sua alma está imersa no pecado; você é um estranho para Deus; sua mente está cauterizada por causa dos maus hábitos; você não tem garantia de perdão para mostrar; como você está despreparado para morrer amanhã; e com que terror sua alma abandonará seu corpo! E diante de tudo isso, você ainda se demora? Oras, considere isso: Deus agüenta tudo isso enquanto espera que você se detenha em seu lazer; a paciência do Senhor tolera, e sua justiça refreia-se; e sua misericórdia suplica a você; Cristo está ali para oferecer-lhe seu sangue e seus méritos; você pode tê-lo gratuitamente e morar com ele; o Espírito persuade você, e sua consciência o acusa e o insta a aceitá-lo; os ministros oram por você; e o chamam; Satanás está à espreita para que possa ter você, quando a justiça colher sua vida. Este é o seu tempo: agora ou nunca. O quê? Você prefere perder o céu que seus lucros ou prazeres? Ó amigo, o que você acha dessas coisas? Deus o fez ser humano, e o dotou de razão, e você nega sua razão onde mais deveria usá-la? Você deve lidar assim, des-sa forma séria e direta, com os homens. Confesso que falhei muito em relação a isso; que o Senhor não me cobre por isso. A relutância em desagradar aos homens nos leva a destruí-los.  No entanto, aconselho-o a fazer isso com prudência e discrição. Seja tão sério quanto possível, mas com sabedoria; e seja especialmente sábio na escolha dos seguintes aspectos: escolher o momento mais oportuno para sua exortação; não tratar com os homens enquanto agem sob o impulso da paixão, quando estão alcoolizados, ou em público, quando podem considerar sua exortação uma desgraça. Os homens devem observar quando os pecadores estão mais aptos a ouvir instruções. Medicamentos não devem ser ministrados a todo momento, mas na época apropriada. A oportunidade favorece todo trabalho.  Ademais, os meios funcionam perfeitamente, se você aproveitar a oportunidade; quando a terra está ma-cia, o arado a perfura.  A fidelidade dos cristãos realmente exige não só que façamos o bem quando ele cai em nosso caminho, mas também que procuremos oportunidades para fazer o bem. Seja sábio também ao ajustar sua exortação à pessoa e ao temperamento dela.  Nem todos suportam o tratamento mais duro. É preciso amor, e sinceridade, e seriedade para com todos.  Seja sábio também ao usar a expressão mais adequada; se você reveste a verdade mais bela e cordial com a violência sórdida da linguagem imprópria, fará com que os homens a desprezem como algo monstruoso e deturpado, embora seja fruto de Deus, e sua natureza, a mais sublime.  Permita que todas suas reprovações e exortações sejam apoiadas pela autoridade de Deus. Permita que os pecadores se convençam que você não fala por você mesmo, nem se fundamenta em suas próprias idéias. Quanto mais Deus aparecer em nossas palavras, mais eles a aceitarão.  Eles podem e devem rejeitar suas palavras, mas não ousariam rejeitar a palavra do Altíssimo. Portanto, certifique-se de que eles saibam que você não fala nada senão aquilo que Deus falou primeiro.Você também precisa ser constante nessa responsabilidade de exortação junto aos homens; não basta uma ou duas vezes para que a verdade de Deus prevaleça.  Se eles não forem acompanhados, logo se esfriam novamente. Fadigue os pecadores com suas súplicas amorosas e sinceras; acompanhe-os e não permita que eles tenham descanso em seu pecado. Essa é a verdadeira caridade, e essa é a forma de salvar a alma dos homens; e uma atitude que lhe trará conforto toda vez que a rever.Lute para trazer toda a exortação a um ponto específico; não se atenha ao trabalho feito, mas busque o sucesso, e objetive o fim em todas suas falas.  Portanto, trabalhe para direcionar todas suas falas para o assunto desejado. Se você estiver reprovando um pecado, não cesse até que o pecador lhe prometa que abandonará esse pecado e evitará as oportunidades que propiciam que ele caia em tentação; se você o estiver exortando a realizar uma responsabilidade, estimule a pessoa a prometer-lhe que a fará. Se você leva as pessoas para Cristo, não as abandone até que elas admitam a necessidade que têm de Cristo, bem como de mudança na vida que levam, e até que elas lhe prometam se aproximar da utilização desses meios. Por fim, certifique-se de que seu exemplo, bem como suas palavras, possam servir como exortação. Permita que as pessoas vejam que você realiza, de forma constante e consistente, as responsabilidades que as persuade a realizar; permita que elas vejam em sua vida a diferença entre você e os pecadores, e a maravilha de sua vida em relação à do mundo, a vida que você as persuade a levar em seus discursos. Permita que elas vejam seu trabalho constante em favor do céu, e que você realmente acredita naquilo que quer que elas acreditem. Se você fala para as pessoas sobre as admiráveis alegrias do céu, mas, na verdade, não faz nada a não ser se escravizar em relação ao mundo, e luta para ficar rico, ou tem a tendência a discutir com seu próximo por causa de bens terrenos, como qualquer outra pessoa o faria, quem acreditaria em você? Ou quem seria persuadido por você para buscar as riquezas eternas?   Não permita que os homens vejam seu orgulho, enquanto os exorta para que sejam humildes; nem que sua consciência fique insensível em relação a algo, enquanto gostaria que eles fossem sensíveis em relação a algum outro aspecto. Uma vida inocente é uma reprovação constante, contínua e poderosa ao iníquo; e a prática constante de uma vida santa e consagrada causa constante inquietação à consciência comum, além de ser uma constante solicitação para que ele mude o curso de sua vida. Além da responsabilidade da tarefa particular de admoestação, você deve fazer o máximo para ajudar os homens a se beneficiar por meio das ordenanças públicas. E você, enquanto desfruta da bênção do evangelho, deve fazer uso da maior diligência possível para ajudar as pobres almas a receber o fruto da Palavra. E, para essa finalidade, você deve estimular os homens a ouvir o evangelho e a comparecer aos cultos. Lembre-os constantemente do que eles ouviram; estimule-os, se possível, a repetir o que ouviram para a família. Se isso não for possível, então os estimule a procurar outras pessoas para quem possam repetir as palavras do evangelho, para que assim essas palavras não morram no ato de ouvir. O estímulo para que esses homens busquem a companhia e a familiaridade dos piedosos, além dos benefícios que têm por meio desse empenho, é particularmente útil para a recuperação da alma deles.   A participação aumenta a familiaridade, e a familiaridade aumenta o amor; e a familiaridade e o amor para com os piedosos levam à familiaridade e ao amor para com Deus, e também levam à piedade. Esse também é o meio para eliminar o preconceito, ao confundir a calúnia do mundo em relação ao caminho do Senhor e ao povo de Deus. Portanto, tenham o costume de se reunir, além da reunião mais coletiva na congregação, não para dar vazão às opiniões insanas; nem para manifestar desgosto pela reunião pública; nem em oposição a ela; nem no mesmo horário da adoração coletiva; nem para criar um cisma sem fundamento; nem para se separar da igreja de onde vocês são membros; nem para destruir a antiga igreja para que você possa reunir uma nova a partir da ruína daquela, desde que a antiga tenha o essencial e haja esperança de reformá-la; e, tampouco, gostaria que você promovesse essas reuniões para ventilar seus dons e partes do ensinamento, quando não há necessidade para isso.  Mas a responsabilidade para a qual gostaria que se reunissem é esta: orar juntos pela igreja e por vocês; unir-se em louvores a Deus; apresentar suas inquietações, e dúvidas, e medos, e chegar a decisões; estimular uns aos outros em amor para que tenham um caminhar santo e divino; e tudo isso, não como uma igreja separada, mas como uma parte mais diligente da igreja que o resto, quanto ao tempo da redenção e à ajuda mútua, para que caminhem em direção ao céu.  E agora, caro leitor cristão, considerando isso como uma responsabilidade que Deus pôs sobre todo homem de acordo com a habilidade dele, portanto, exorte e reprove; e, com toda a diligência possível, faça isso ao trabalhar pela salvação de todos a sua volta e ao julgar, a seguir, se essa responsabilidade foi conscienciosamente realizada. Onde encontraremos o homem em nosso meio que esteja disposto a realizar essa responsabilidade com todas suas forças?

Portanto, devemos indagar quais podem ser as causas dessa negligência em relação à responsabilidade, que os impedimentos que descobrimos possam ser os mais fáceis de ser transpostos. Um impedimento é a própria insolência e culpa dos homens. Eles não foram arrebatados com as delícias do céu: como, portanto, eles podem estimular outros a buscá-las sinceramente?  Os homens também são culpados dos pecados que devem reprovar, e isso faz com que se calem, pois se sentem envergonhados para exercer essa reprovação. Outro impedimento é a infidelidade secreta que prevalece no coração dos homens, da qual até mesmo os melhores têm uma grande porção dela, o que leva essa responsabilidade a ser executada pela metade. Nós não cremos na miséria humana; não acreditamos que as ameaças de Deus sejam verdadeiras.  A maioria de nós realmente acredita nas profecias das Escrituras, mas da mesma forma como acreditamos nas previsões de um almanaque que nos diz que em tal dia teremos chuva, e em tal dia, ventos fortes; você acha que isso pode vir a acontecer, ou não. [...] Se não fosse por essa maldita descrença, nossa própria alma e nosso próximo ganhariam mais conosco do que ganham no momento.Esse tratamento fiel com os homens para a salvação destes fica também muito obstruído por nossa falta de caridade e compaixão pelas almas deles.  Fazemos exatamente o que o sacerdote e o levita fizeram ao ver o homem ferido, nós os observamos e passamos pelo outro lado.  A miséria é o pleiteante mais eficaz para aquele que é compassivo.  Seu próximo é aquele que está próximo a você, e seus amigos, aqueles que estão na casa com você; você come, e bebe, e trabalha, e anda, e conversa com eles, mas, mesmo assim, você diz muito pouco, ou nada, para eles. Por que você não ora para que eles considerem seus caminhos e os abandonem, e também não ora para que Deus os converta?  Oras, se você vir seu próximo caído à beira do caminho, e se ajoelhar imediatamente para pedir a Deus para ajudar esse pobre coitado caído à beira do caminho, mas não estender sua mão para ajudá-lo, nem tentar persuadi-lo e, tampouco, direcioná-lo para que possa ajudar-se a si mesmo, você não seria censurado por ser cruel e hipócrita? "Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus?" (1Jo 3.17).

Outro impedimento é a disposição básica existente em nós de agradar os homens; e temos tanto desejo de ter crédito com eles e de os beneficiar que isso, de forma inconsciente, leva-nos a negligenciar nossa bem-conhecida responsabilidade. Tolo, e o amigo mais infiel, é o médico, se deixar que um doente morra por temor de perturbá-lo.  Como homens que amam mais o benefício e o louvor dos homens que o benefício de Deus podem ser cristãos? Pois se eles buscam agradar aos homens, não mais são servos de Cristo. Outro impedimento comum é a timidez pecaminosa.  A timidez é imprópria em casos de declarada necessidade; e, na verdade, esse não é um trabalho do qual um homem deva se envergonhar. Obedecer a Deus ao persuadir os homens de seus pecados para que abracem a Cristo e ajudar a salvar a alma deles não é uma responsabilidade que deva fazer com que o homem fique ruborizado de vergonha. Outro impedimento é a impaciência, a preguiça e o favorecimento da carne. Esse é um trabalho ingrato e, em grande parte, faz com que aqueles que eram nossos amigos se tornem nossos inimigos. Ademais, esse trabalho é aquele que raras vezes é bem sucedido na primeira empreitada, exceto quando acompanhado por sabedoria e infatigabilidade.  Esse é um caminho entediante para a carne, e poucos o suportarão; isso sem levar em consideração a paciência que Deus teve em relação a nós, quando estávamos em nossos pecados, e o longo tempo que nos acompanhou com seu Espírito nos importunando, apresentando-nos a vida e a Cristo, e suplicando para que nós os aceitássemos. Ai de nós se Deus tivesse sido impaciente conosco como o somos com os outros. Se Cristo não se cansou nem desistiu de convidá-los, temos poucas razões para nos cansarmos de entregar a mensagem. Outro impedimento é o egoísmo e o ocupar-se apenas consigo mesmo. Os homens só pensam neles mesmos, e todos só se ocupam de suas próprias coisas, e poucos deles se ocupam das coisas de Deus e de seus irmãos.  Se esses homens tentassem aquilo que alguns de seus irmãos já tentaram, saberiam que todas as mais puras ordenanças e igrejas não podem lhe oferecer aquele saudável conforto que lhes é oferecido com a conversão de alguns pecadores por meio de nossas exortações incansáveis e compassivas. Dois homens, em uma estação muito fria, chegam a um lugar onde há um grupo de pessoas prestes a morrer de fome; um deles aconchega-se e busca abrigo, por temer que possa perecer com eles; o outro, por piedade, cai de joelhos para esfregá-los para que possam recuperar o calor do corpo e, enquanto trabalha arduamente para ajudá-los, ele se aquece bem mais que seu inútil companheiro. Para muitos, o orgulho também é um grande impedimento. Se fosse para falar com um homem importante, fariam isso e, certamente, isso não os desagradaria. Mas estar no meio da multidão de pobres, e esforçar-se para alcançar um grupo de pedintes ignorantes, ou pessoas mesquinhas, e sentar-se com esse tipo de pessoa em uma cabana desagradável e cheia de fumaça e, ali, instruí-los e exortá-los dia após dia--onde está a pessoa disposta a fazer isso?  E quanto ao povo comum, eles não os buscam, como se Deus fosse alguém que prestigiasse os ricos, ou que a alma de todos não representasse a mesma coisa para ele. Deus meu! Esses homens não levam em consideração o quanto Cristo se humilhou por nós! Por fim, para alguns, a ignorância quanto à responsabilidade os impede de realizá-las. Ou não sabem que é uma responsabilidade, ou, pelo menos, não a consideram sua responsabilidade. Talvez não a tenham considerado com empenho, nem foram pressionados por seus mestres.  Um deles declara: "Sou muito fraco e tenho poucos dons". Não é a maravilha do discurso que ganha almas, mas a autoridade de Deus manifesta por meio daquele discurso, e a autoridade da Palavra do Senhor na boca do instrutor. Uma frágil mulher pode dizer o que Deus disse nas passagens claras da Palavra tanto quanto um homem culto! Para concluir,  deixe-me pedir-lhe que considere esses motivos a seguir. Considere que a natureza ensina a comunicação do bem, e a graça dispõe especialmente a alma para isso; portanto, a negligência desse trabalho é pecado contra a natureza e contra a graça. Aquele que, por si mesmo, jamais busca a Deus seria rapidamente considerado por todos como alguém desprovido da graça; e, quando nos foi ordenado a amar ao nosso próximo como a nós mesmos, aquele que não trabalha para a salvação dos outros também não é tão desprovido da graça? Considere o quanto Cristo valorizou as almas e o que ele fez para salvá-las. Ele achou que elas valiam seu sangue e seu sofrimento, e também nós não deveríamos considerá-las tão valiosas quanto o fôlego de nossa boca? Você não se alistaria nas fileiras de Cristo para realizar tão grande responsabilidade; nem faria um pouco por aquilo que ele tanto entregou? Considere quão dignas de pena são essas almas.  Se outros não se compadecerem delas, elas não terão piedade; pois a natureza da doença delas é torná-las impiedosas para sua própria alma, sim, torná-las a mais cruel destruidora de si mesmas.  É por seu próximo, seu irmão, a quem você é compelido a sentir compaixão e a amar como a si mesmo. Aquele que não ama seu irmão, a quem vê diariamente, quase certamente não ama a Deus, a quem ele jamais viu. E você, da mesma forma como é culpado da ruína dessas pessoas, também é culpado por todo pecado que elas cometem. Se elas se converterem, elas quebram a maldição do pecado; e se você fizer sua responsabilidade, você sabe que elas podem se converter.  Você também é culpado, como acontece em relação ao pecado, de toda a desonra que Deus sofrer por meio disso. E quanto isso representa? E como o cristão deve ser cuidadoso em relação à glória de Deus, cuja menor parte deve ser mais valorizada que nossa própria vida! Considere a alegria que é para você estar no céu, encontrar aqueles a quem você foi o meio para trazê-los até esse magnífico lugar; ver a face deles e juntar-se a eles para entoar louvores eternos a Deus; para quem fomos instrumentos para trazê-los para que conhecessem a Cristo e lhe obedecessem! O que acontecerá ali, nós não sabemos; mas, certamente, de acordo com nossa condição atual, essa não será uma alegria fugaz! Esse é o trabalho da maior caridade, e aquele que todos vocês podem realizar. O mais pobre dos homens pode ser tão caridoso quanto o rico. Você pode ser um instrumento nesse abençoado trabalho de salvar almas, uma obra pela qual Cristo veio à terra e morreu por nós, uma obra na qual os anjos do Senhor se regozijam;  e como Deus poderia honrá-lo de forma mais sublime que o transformar em instrumento para essa grandiosa obra? Essas almas o abençoarão aqui e na vida por vir. Elas podem ficar bravas com você logo de início, mas se você prevalecer, e suas palavras forem bem sucedidas, elas abençoarão o dia em que vocês se conheceram, e abençoarão a Deus que o enviou para falar com elas. Se você for bem-sucedido, Deus será muito glorificado por isso; ele terá uma alma a mais para valorizar e aceitar seu Filho, alguém em quem o sangue de Jesus alcançou sua finalidade; ele terá uma alma a mais para amá-lo, e adorá-lo diariamente, e temê-lo, e servi-lo em sua igreja. A igreja também ganhará com isso. Se você pudesse converter apenas um perseguidor, como Saulo, ele poderia ser tornar um Paulo e prestar mais serviço à igreja do que você já prestou.  Esse é o caminho para a pureza e o florescimento da igreja, bem como do estabelecimento correto e da execução da disciplina de Cristo. Se, em particular, os homens fizessem apenas o que deveriam com seu próximo, isso representaria uma grande ajuda para o sucesso dos empenhos coletivos do ministério e poderia haver esperança de que alguém se unisse todos os dias às fileiras da igreja?

Isso traz muitas vantagens para nós. Isso aumentará a graça de vocês, tanto por ser um curso que Deus abençoará, quanto por ser uma ação deles para persuadir outras pessoas. Ele, que não permitirá que você desperdice um copo de água que foi dado por ele, não permitirá que você perca essas grandes obras de caridade; ademais, aqueles que praticaram essa obra de forma conscienciosa sabem, por experiência, que não há uma forma mais veloz e próspera de caminhar em direção ao céu do que quando ajudam outros a ir para lá. E em relação a nossos tesouros terrestres, o quanto mais você dá menos você tem; mas, aqui, quanto mais você dá mais você tem. Apresentar Cristo em sua plenitude aos outros aquecerá seu coração e impulsionará seu amor.  Isso aumentará sua glória e sua graça,  pois "aqueles que conduzem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre" (Dn 12.3).  Isso o levará a ter muita paz na consciência, quer sejamos bem sucedidos quer não; pensar que fomos fiéis e demos o melhor de nós para salvá-los, e que estamos limpos do sangue de todos os homens. [. Ademais, essa é uma obra que, se formos bem-sucedidos, faz um coração honesto muito se regozijar.  Naturalmente, a toda obra responsável segue-se o regozijo, em grau compatível com sua bondade: aquele que faz mais o bem para os outros tem, geralmente, uma vida mais confortável e alegre. Portanto, digo-lhes, a fim de persuadi-los com minha própria experiência, que se vocês soubessem que alegria é ser instrumento para a conversão e a salvação de almas, vocês iniciariam essa obra imediatamente e a perseguiriam dia e noite apesar dos maiores desalentos e resistência. Poderia também lhes falar sobre a nobreza e a honradez dessa obra, mas não farei isso, pois temo estimular o orgulho de vocês, em vez de seu zelo.

 

Capítulo 13

MOTIVOS PARA UMA VIDA CELESTIAL

 

Já mostramos a você, por meio da orientação da Palavra do Senhor e da assistência de seu Espírito, a natureza do descanso dos santos e procuramos o deixar familiarizado com algumas responsabilidades em relação a ele. Chegamos agora à conclusão de tudo, ou seja, pressioná-lo a realizar essa grande responsabilidade, o objetivo principal que tinha em mente quando iniciei esse assunto. Portanto, quero exigir que quem quer que seja o leitor destas linhas ponha seu coração imediatamente na realização dessa responsabilidade, como sua mais cuidadosa aliança ao Deus do céu, como sua grata esperança de participar dessa glória; repreenda seu distanciamento intencional de Deus; afaste seus pensamentos da busca por vaidade; incline sua alma para estudar a eternidade; ocupe-se com a vida por vir; habitue-se a tais contemplações e não permita que esses pensamentos sejam raros e superficiais; mas se fixe neles; habite ali; banhe sua alma nas delícias do céu; embeba seus sentimentos nesses rios de prazer, ou, melhor dizendo, nesse mar de consolação; e se sua alma atrasada começar a flanar, e seus pensamentos começarem a se distanciar, chame-os de volta, mantenha-os nessa responsabilidade, instigue-os, não suporte a preguiça deles, não seja conivente com a negligência de ninguém; e, assim que você, em obediência a Deus, tentar esse trabalho e prosseguir até que se familiarize com ele, vigiando seus pensamentos até que eles se acostumem a obedecer, e até que tenha algum domínio sobre eles, então você chegará até os subúrbios do céu, como se estivesse em um novo mundo; você, nesse momento, realmente descobrirá que há doçura na obra e no caminho de Deus, e que a vida cristã é uma vida dealegria. Você se encontrará com aquelas abundantes consolações pelas quais orou, e anelou, e gemeu, e as quais pouquíssimos cristãos as obtêm aqui, pois não conhecem o caminho para alcançá-las, ou não tomam uma decisão consciente para caminhar nele. Amados amigos,  permita que fale à consciência de vocês em nome de Cristo, e ordene, pela autoridade que recebi de Cristo, que se empenhem fielmente nessa importante responsabilidade, e que fixem seus olhos mais firmes e constantemente em seu descanso, e que se deleitem com a antecipação dele.  Se eu prevalecer com vocês em algo, que eu prevaleça nisto: ponha seu coração onde você espera encontrar descanso, e um tesouro.  Jamais entreguei a vocês uma verdade mais legítima, nem jamais os pressionei para que se empenhassem em uma responsabilidade mais legítima que essa. Cristãos, se a alma de vocês fosse sã e reta, ela perceberia que há mais deleite e doçura, algo incomparável, no conhecer seu abençoado futuro no gozo de nosso Deus, no pensar e crer nisso, no amar isso e regozijar-se com isso que as sensações mais fortes encontram no prazer de seus objetos.  É muito fácil para você pensar em um amigo; ou qualquer outra coisa que você ama muito; e pensar na glória seria tão fácil também, se seu amor e deleite estivessem verdadeiramente ali. Se você vir alguma  jóia, ou tesouro, não é preciso longas exortações para aguçar seu desejo, basta apenas pousar seus olhos nessa preciosidade. Se vir uma lareira quando sente frio, uma casa quando enfrenta uma tempestade, ou um porto quando está em um mar revolto, ninguém precisa lhe dizer o que fazer; basta pousar os olhos nessas coisas para que seu pensamento seja direcionado para elas; você pensa, vê e anseia até obtê-las. Por que o mesmo não poderia ocorrer no caso em questão? Meus caros, assim pensaríamos, basta mostrar a vocês essa coroa e glória dos santos para que as desejem; mostrar-lhes aquele porto onde estão livres de todos os perigos, e isso deveria ensiná-los prontamente o que fazer com tudo isso, e deveria fazer com que seus estudos diários se voltassem para essas coisas. Mas por saber que todos os motivos, enquanto tivermos a carne, são pequeníssimos, e por saber que a experiência triste de algumas pessoas, e a minha também, diz-me como é difícil para os melhores ser levados à constância e à fidelidade nessa responsabilidade.  Apresentarei algumas considerações tocantes, as quais comprovem, se você se dignar a ponderar sobre elas de forma minuciosa e pesá-las de modo deliberado com julgamento imparcial, e não duvido disso, sua eficácia para seu coração e o levarão a decidir-se por essa excelente responsabilidade. Oro para que você não as deixe cair no chão, mas as acalente, e as experimente; e se você achar que elas dizem respeito a você, faça bom uso delas e obedeça a elas.

 

I

O coração voltado para o céu será uma das evidências mais inquestionáveis de sua sinceridade, e uma clara descoberta da verdadeira obra da graça salvífica em sua alma.  Saiba que onde estiver seu coração ali também estará seu tesouro. Deus é o tesouro e a alegria dos santos: o céu é o lugar onde eles podem desfrutar plenamente do Senhor. Portanto, um coração voltado para o céu nada mais é que um coração voltado para Deus, e que deseja essa alegria plena; e, certamente, um coração voltado para Deus por meio de Cristo é a evidência mais verdadeira da graça salvífica. As ações externas são as mais fáceis de ser descobertas, mas as do coração são a evidência mais clara e certa. Quando seu aprendizado não for uma boa comprovação da graça do Senhor; quando seu conhecimento, suas responsabilidades e seus dons o abandonam; quando os argumentos de sua língua e de sua mão podem ser refutados, ainda assim esse argumento que diz respeito à inclinação de seu coração comprova sua sinceridade. Considere um cristão pobre que mal pode se expressar em sua própria língua, no que diz respeito à religião, alguém que tenha uma pobre compreensão dos fatos, uma memória falha, que gagueje, mas que seu coração esteja em Deus: escolheu o Senhor para que este fosse sua porção; seus pensamentos estão na eternidade; seus desejos e sua habitação também estão lá.  Preferiria morrer na condição desse homem e ter minha alma envolta pela alma dele que estar envolta pela do homem que tem os dons mais eminentes e é o mais admirado por causa de sua posição e de suas responsabilidades, mas cujo coração não está tão enlevado por Deus.  Oras, cristãos, então trabalhem para que vocês tenham o coração voltado para o alto, para que dêem um testemunho certo do amor de Deus, e para que tenham uma prova segura de sua posição na glória. Ponha seu coração verdadeiramente no céu e, sem dúvida, vocês o seguirão.

 

II

O coração voltado para o céu é a mais alta maravilha de seu espírito aqui, e a porção mais nobre de sua disposição cristã..  Não há apenas uma maravilha comum, por meio da qual o cristão difere do mundo, mas também uma nobreza de espírito, por meio da qual o mais excelente difere do resto: e ele tem uma disposição de espírito mais sublime e divina. Apenas o homem, dentre todas as criaturas inferiores, foi criado com a face voltada para o céu; mas as outras criaturas têm sua face voltada para a terra. Como a mais nobre das criaturas, também os mais nobres cristãos são os que estão mais voltados para o céu.  Ouvir um santo tão consagrado, que fez a jornada ao céu pela fé, e foi elevado até Deus em suas contemplações, e voltou recentemente para a terra após ter sua visão de Cristo, imagine que descobertas ele fez dessas regiões superiores!  Isso é ser um nobre cristão.  Como as montanhas mais famosas são as mais altas; e as árvores mais formosas, as mais altas; e as pirâmides mais gloriosas, aquelas cujo cume chega mais perto do céu; também é mais alto aquele que escolheu a Cristo e cujo coração está ali com mais freqüência e ali mais se deleita.  Portanto, como devemos julgar aquele homem que viaja todos os dias até o céu e ali vê o Rei dos reis; que é admitido com freqüência diante da presença divina, e que sua alma se refestela na árvore da vida? De minha parte, valorizo mais esse homem que o mais capaz, mais rico e mais culto do mundo.

 

III

A mente voltada para o céu é alegre; essa é a forma mais próxima e verdadeira de viver uma vida de conforto, e você, sem isso, necessariamente se sente desconfortável. Um homem pode estar próximo do fogo, e não estar aquecido? Ou estar debaixo do sol, e não ter luz? Um coração pode estar no céu, e não ter conforto? Os países do Norte, como a Noruega e a Islândia, são frios e gelados, pois estão mais distantes do poder do sol; mas no Egito, na Arábia e em outras regiões ao sul, acontece o contrário, pois eles estão mais próximos desses poderosos raios. O que poderia gelar mais os cristãos desconfortáveis que viver tão distante do céu como eles vivem? E o que faz com que outros, em pequeno número, sintam-se tão aquecidos em seu conforto senão viver em locais mais elevados que os outros em que têm acesso, bastante freqüente, à proximidade de Deus? Quando o sol, na primavera, aproxima-se de nossa parte da terra, como todas as coisas congratulam essa aproximação! A terra fica verdejante e tira sua veste de luto; as árvores se projetam para cima; as plantas revivem; os belos pássaros cantam docemente; a face de todas as coisas sorri para nós, e todas as criaturas aqui embaixo regozijam-se. Amados amigos, se apenas experimentássemos essa vida com Deus, e mantivéssemos nosso coração no alto, que alegria primaveril haveria em nós; e todas nossas bênçãos seriam frescas e verdejantes! Como a face de nossa alma se transformaria, e tudo que existe em nós se regozijaria! Como esqueceríamos nossas tristezas invernais e afastaríamos nossa alma de nosso triste isolamento! Como acordaríamos cedo, como os pássaros na primavera, para cantar louvores ao nosso grande Criador! Ó cristão, vá para o alto. Acredite, aquela região é mais quente que esta aqui embaixo. Aqueles que lá estiveram descobriram isso; e aqueles que chegaram até ali nos contaram isso: e não duvido que você já experimentou isso em algum momento.  Se for o semblante de Deus que nos enche de alegria, então, certamente, aquele que mais se aproxima do Senhor e mais o observa deve ter essa alegria de forma mais plena. Deus deve dar a alegria mesma, como também propiciar a nós a razão para a alegria: mas, além disso, deve-se lembrar que Deus opera em nosso ser humano e, de forma racional, eleva nosso conforto: ele nos capacita e nos estimula a estudar esses objetos prazerosos para obtermos nosso conforto neles, como a abelha obtém seu mel das flores; portanto, aquele que é mais hábil nessa arte de obter, em geral, é o que está mais cheio dessa doçura espiritual.  A alegria e a paz enchem nosso ser por meio da fé. O Espírito de Deus trabalha para nosso conforto ao pôr em movimento nosso espírito em direção às promessas e ao elevar nossos pensamentos ao local de nossos confortos.  Como você alegraria um homem cobiçoso ao lhe mostrar ouro, também Deus alegra seu povo ao levá-los, por assim dizer, pela mão para o céu e ao mostrar-se a si mesmo para os seus e o descanso que encontram nele. Deus não costuma mostrar nossa alegria enquanto estamos negligentes, ou ocupados com outras coisas. Deus não alimenta os santos como os pássaros alimentam seus filhotes, ao dar-lhes o alimento na boca enquanto ainda estão no ninho, e estes têm apenas de abrir o bico para recebê-lo; mas como ele nos dá o fruto da terra, o aumento da produção de milho e de vinho, enquanto aramos e plantamos, e tiramos as ervas daninhas, e regamos, e adubamos, e podamos, e, depois, com paciência, esperamos sua bênção, também ele nos dá as alegrias da alma.  Assim, você pode facilmente ver que a meditação cuidadosa sobre o assunto e a causa de nossa alegria é a forma como Deus busca a alegria íntegra e real.  Acho que a alegria de um cristão deve ser fundamentada, a alegria racional, e não a alegria sem conhecer a razão para isso.  Aprenda essa arte da propensão ao divino, e você encontrará cem vezes mais, e o benefício excederá em muito seu trabalho.

 

IV

Considere isto: o coração no céu é o melhor antídoto contra as tentações, um meio poderoso para matar suas corrupções e para salvar sua consciência das feridas do pecado. Deus pode prevenir nosso pecado, embora sejamos descuidados; e também pode nos manter afastados da tentação que atrairíamos para nós, e, algumas vezes, ele faz isso; mas essa não é sua forma usual de agir, nem essa é a forma mais segura de escaparmos da tentação. Quando a mente está desocupada, ou é mal empregada, o demônio não precisa de uma grande vantagem; quando ele encontra os pensamentos voltados à cobiça, à revanche, à ambição ou ao dolo, que oportunidade ele tem para passar para a execução e levar o pecador a praticar aquilo em que seus pensamentos estão imersos! Mais ainda, se ele en-contra a mente vazia, há espaço para qualquer coisa que ele queira trazer para ali depositar; mas, quando ele encontra o coração do homem no céu, que esperança ele pode ter de que quaisquer de seus movimentos sejam produtivos? Deixe-o tentar para que pegue qualquer caminho proibido, ou mostrar-nos a isca de algum prazer, a alma lhe responderá como Neemias: "Estou executando um grande projeto e não posso descer" (Ne 6.3).

Isso nos preservará da tentação de várias formas. Primeira, ao manter o coração ocupado: quando estamos desocupados, tentamos o demônio a nos tentar;  mas quando nosso coração está ocupado com Deus, ele não tem tempo para ouvir tentações; não tem tempo para ser cobiçoso, e devasso, e ambicioso, e mundano.  Se você estivesse ocupado em seu chamado legítimo, você não estaria tão disposto a ouvir tentações; menos ainda se você estivesse ocupado com Deus. Você deixaria seu arado e plantação no campo, ou permitiria que o fogo consumisse sua casa, apenas para correr atrás das borboletas com as crianças? Um juiz seria persuadido a levantar-se de sua cadeira, quando trata de um assunto de vida ou morte, para brincar com os meninos na rua? Também o cristão, quando se ocupa com Deus e examina seu descanso eterno, não dará ouvido ao charme sedutor de Satanás.  A ocupação é uma das principais proteções dos santos contra a tentação. Segunda, a mente voltada para o céu fica livre do pecado, pois tem um entendimento mais claro das questões espirituais relevantes. O homem mais familiarizado com o alto tem uma compreensão mais verdadeira e vívida das coisas que dizem respeito a Deus e a sua própria alma que qualquer erudito ou estudioso possa ter. Embora, talvez, ele seja ignorante em relação a diversas controvérsias e questões que não digam tanto respeito à salvação, ele, no entanto, conhece muito melhor que os grandes eruditos as verdades que firmam sua alma e a protegem da tentação.  Quanto mais alto estiver um homem, mais longe ele enxerga. Costumávamos pôr nossas sentinelas no local mais alto e o mais próximo de nós para que pudessem discernir todos os movimentos do inimigo; e o inimigo lança suas emboscadas em vão, quando o observamos do alto de uma montanha e descobrimos claramente tudo o que ele faz. Quando a mente consagrada está no alto com Deus, ela, por essa razão, pode discernir qualquer perigo que está aqui embaixo, bem como o método utilizado por Satanás para nos iludir; ainda mais, se ela não descobrir a cilada de nosso inimigo, ela tem mais chance de escapar que os que estão familiarizados com o que está aqui embaixo. Muito provavelmente, uma rede ou uma isca posta no chão não pegará o passarinho que voa alto; enquanto o passarinho estiver no alto, está fora de perigo, e quanto mais alto, mais seguro estará; e o mesmo acontece conosco. As tentações de Satanás são postas na terra; a terra é o lugar, e a terra é a isca mais comum. Como essas armadilhas podem apanhar o cristão que abandonou a terra para andar com Deus?

Se familiarizar-se com homens eruditos e cultos é a forma para tornar-se erudito e culto, então não é de admirar que aquele que se familiariza com Deus torne-se sábio. Se os homens que viajam pelo mundo todo realmente acham que retornarão para casa mais experientes e mais sábios, muito mais ainda aquele que viaja para o céu! Como o próprio ar e clima em que habitamos trabalham nosso corpo para que se ajuste às condições a que são expostos, não é de admirar que aquele que está naquela região sublime e mais pura tenha uma alma mais pura e uma visão mais acurada; e aquele que vive com o sol, a fonte, o Pai da luz, tem uma compreensão cheia de luz. Terceira, a mente consagrada fica extremamente fortificada contra as tentações, porque as emoções estão tão completamente influenciadas pelos deleites do outro mundo.  Aquele que mais ama, e não aquele que apenas conhece mais, resistirá aos impulsos do pecado. Há no cristão, além de seu mero poder discursivo e racional, um tipo de sabor espiritual por meio do qual ele conhece essas coisas; a vontade aprecia docemente a bondade, como o entendimento tem prazer na verdade, e aqui repousa muito da força do cristão. Se você discutir com um homem simples e quiser persuadi-lo que o açúcar não é doce, ou que o absinto não é amargo, talvez você possa, por meio de sofismas, contra argumentar as meras razões que ele apresenta, mas não seria capaz de persuadi-lo no que diz respeito aos sentidos; pois o homem é mais facilmente enganado por todo o pensamento racional quando perde seu sabor. O mesmo acontece aqui. Quando você tiver o sabor mais estimulante e delicioso do céu, não será tão facilmente persuadido para afastar-se dele; você não consegue persuadir a criança a separar-se de sua maçã enquanto o sabor de sua doçura ainda estiver em sua boca. Ó, que você seja persuadido a tentar esse curso, a alimentar-se muito com o maná velado, e a saborear com freqüência os deleites do céu. É verdade que ele está bem distante de nossos sentidos, mas a fé pode nos levar até lá.  Quarta, enquanto o coração estiver posto no céu, o homem está sob a proteção de Deus e, portanto, se Satanás o assaltar, Deus dedica-se mais a sua defesa e, indiscutivelmente, defender-lhe-á e dirá: "Minha graça é suficiente para você" (2Co 12.9). Quando o homem está no caminho da bênção de Deus, ele corre menos perigo de ser envolvido pelas seduções do pecado.  Assim, leitor cristão, deixe-me rogar-lhe! Se você é um homem atormentado por tentações--como certamente o é, se for ser humano--, e, quando percebesse o perigo, escaparia de bom grado dele, então utilize bastante esse poderoso remédio. Fique próximo de Deus ao cultivar a mente consagrada; aprenda essa arte da divisão e, quando a tentação o assolar, vá diretamente para o céu, e volte seus pensamentos para as coisas do alto; descobrirá que essa é a ajuda mais segura que qualquer outra forma que encontre para resistir à tentação.

 

V

O manter diligentemente seu coração no céu preservará o vigor de todas as suas bênçãos e acrescentará vida a suas responsabilidades. O cristão vivo é o consagrado. É nossa distância do céu que nos torna tão insípidos: é o fim que vivifica todos os meios, e mais vigoroso será nosso movimento, se observamos esse fim com freqüência e de forma clara. Como os homens trabalham de forma incansável e se aventuram sem medo, quando pensam em um prêmio proveitoso! Como o soldado arrisca sua vida, e o marinheiro enfrenta tormentas e ondas; como eles, cheios de alegria, circundam a terra e o mar, e nenhuma dificuldade os intimida, quando pensam em um tesouro incerto e perecível! Quanta vida seria acrescentada nos esforços do cristão se ele antecipasse com freqüência esse tesouro eterno! Corremos devagar, e esforçamo-nos de forma indolente, porque nos importamos muito pouco com o prêmio! Quando o cristão saboreia constantemente o maná velado, e bebe dos rios do Paraíso de Deus, como esse manjar e néctar divinos acrescentam vida a ele! Como, em suas orações, seu espírito será fervoroso, quando ele considerar que ora por nada menos que o céu! Observe o homem que passa muito tempo no céu e verá que ele não é como os outros cristãos. Algo do que ele viu lá em cima aparece em suas responsabilidades e em sua conversa; ainda mais, pegue esse mesmo homem logo após retornar dessas visões bem-aventuradas e perceberá facilmente que ele se sobrepuja a si mesmo, e como seus sermões são divinos.  Se ele for um cristão comum, ele terá uma conversa divina, orações divinas e atitudes divinas! Quando Moisés esteve com Deus no monte, ele recebeu tanta glória de Deus que seu rosto resplandecia a ponto de as pessoas não conseguirem olhar para ele. Amados amigos, se você apenas se dedicar a isso, essa glória também estará com você. Os homens, quando conversassem com você, veriam sua face resplandecer e diriam: "Certamente, ele esteve com Deus". Se você tivesse luz e calor, então por que não passaria mais tempo debaixo da luz do sol? Se você tivesse mais dessa graça que flui de Cristo, por que não passaria mais tempo com Cristo para ter ainda mais? Sua força está no céu, e sua vida também está no céu, e ali você deve buscá-las todos os dias, se quiser tê-las. Por falta desse recurso do céu, sua alma é como uma vela apagada, e seu serviço como um sacrifício sem fogo. Para sua oferta queimar, é preciso que busque carvão nesse altar. Para sua vela brilhar, é preciso acendê-la nessa chama e alimentá-la todos os dias com o óleo proveniente dali; fique próximo desse fogo renovador e veja como seus sentimentos ficarão revigorados e fervorosos.  Como os olhos alimentam os sentimentos sensuais por meio do olhar fixo nos objetos fascinantes, também os olhos de nossa fé, por meio da meditação, inflamam nossos sentimentos em relação ao Senhor, ao mirar com freqüência essa mais sublime beleza.  Você pode exercitar suas funções de muitas outras formas, mas essa é a forma de exercitar suas bênçãos. Todas elas provêm de Deus, a fonte, e levam a Deus, o fim último, e são exercitadas em Deus, o objeto principal delas, de forma que Deus é tudo em todos. Elas vêm do céu, e a natureza delas é divina, e elas o direcionarão para o céu e o levarão para lá. E como o exercício abre o apetite e dá força e vida ao corpo, o mesmo também acontece com a alma.  Pois como a lua é mais gloriosa e fica mais cheia quando fica mais diretamente face a face com o sol, também sua alma ficará mais cheia de dons e de bênçãos quando vir a face de Deus mais de perto.  Seu zelo compartilhará da natureza dessas coisas que o impulsionam: portanto, o zelo que é inflamado por suas meditações sobre o céu, provavelmente, será um zelo mais divino, e a vida do espírito que você busca na face de Deus deve resultar em uma vida mais sincera e consagrada.

Se você apenas pudesse ter o espírito de Elias, e na carruagem da contemplação pudesse elevar-se nas alturas até que se aproximasse da vivificação do Espírito, sua alma e seu sacrifício arderiam gloriosamente, apesar de a carne e o mundo lançar sobre eles a água de toda sua inimizade antagônica.  Pois a fé tem asas, e a meditação é a carruagem; sua responsabilidade é tornar presente as coisas ausentes. Você não vê que um pequeno pedaço de vidro, quando direcionado para o sol, condensará de tal forma seus raios e calor a ponto de queimar aquilo que está atrás dele, mas que, sem ele, esse objeto teria recebido apenas pouco calor? Oras, sua fé é o vidro que faz queimar seu sacrifício, e a meditação o posiciona diante do sol; apenas não o afaste logo, mas segure-o ali por um pouco de tempo, e sua alma sentirá o venturoso efeito.  Certamente, se conseguirmos entrar no Santo dos Santos, trazendo de lá a imagem e o nome de Deus, guardando-os em nosso coração, bem pertinho de nós, isso possibilitará que façamos maravilhas: toda responsabilidade que realizarmos será uma maravilha, e aqueles que a presenciarem prontamente dirão: "Ninguém jamais falou da maneira como esse homem fala" (Jo 7.46). O Espírito nos dominará, como aquelas línguas de fogo, e far-nos-á falar a todos sobre as obras maravilhosas do Senhor.

 

VI

As visões freqüentes da glória são os sentimentos mais preciosos e sinceros de todos: primeiro, para sustentar nosso espírito e tornar nossos sofrimentos muito mais fáceis; segundo, para impedir-nos de lamentar e permitir que esperemos com paciência e alegria; e, terceiro, para fortalecer nossas resoluções para que não abandonemos a Cristo por medo de enfrentar problemas.  De minha parte, se você levar em consideração a experiência de alguém que sempre tenta, não fosse por aquele breve--Ai de mim! Brevíssimo--saborear que tive do descanso, meus sofrimentos seriam mais sérios, e a morte, mais terrível. Posso dizer, como Davi: "Pereceria sem dúvida, se não cresse que veria os bens do SENHOR na terra dos viventes" (Sl 27.13).  Todos os sofrimentos não são nada, desde que tenhamos essa antecipação dessa salvação. Nenhum ferrolho, nenhuma prisão e nenhuma distância podem nos impedir de desfrutar dessas alegrias sustentadoras, pois não podem confinar nossa fé nem nossos pensamentos, embora possam confinar nossa carne. Cristo e a fé são espirituais e, portanto, prisões e banimentos não podem obstruir sua passagem. Mesmo quando a perseguição e o medo fecham as portas, Cristo pode entrar, pôr-se no meio de seus discípulos e dizer: "Paz seja com vocês!" (Jo 20.26). Paulo e Silas puderam chegar ao céu, embora estivessem trancados no cárcere interior, com os pés presos no tronco, após serem açoitados.  Os mártires encontram mais descanso nas chamas que seus perseguidores, quando estes estão em meio às pompas e à tirania, pois antecipam tanto as chamas por meio das quais escaparão quanto o descanso que sua carruagem de fogo lhes traz. Não é o lugar que possibilita o descanso, mas a presença de Cristo e nosso olhar para ele no momento de tribulação. Se o Filho de Deus caminha conosco, podemos caminhar seguramente em meio a essas chamas que devorarão aqueles que nos lançarão ali. Oras, cristãos, então mantenha sua alma acima com Cristo; fique o menos possível distante de sua companhia, e, daí, todas as condições serão similares para você. Pois a melhor condição para você é aquela em que tem mais dele.  Essa é a nobre vantagem da fé; ela pode ignorar os meios e acabar junto dele.  Aquele que não vê além do enterrar do milho sob a terra, do debulhar, do peneirar e do triturar do grão, considera tanto o milho como o trabalho para consegui-lo uma perda de tempo; mas aquele que antecipa o brotar e o crescer da planta, bem como o fazer o pão para a vida do homem, pensa de forma distinta. Esse é nosso engano: vemos Deus comprar-nos quando ainda estamos debaixo da terra, mas não antecipamos a primavera, quando todos nós reviveremos; nós sentimos quando ele debulha, peneira e tritura nosso ser, mas não vemos o momento em que estaremos sentados à mesa de nosso Mestre e ali seremos servidos. Se víssemos claramente o céu como o fim de todas as atitudes de Deus para conosco, certamente nenhuma de suas atitudes poderia ser tão dolorosa.  Como o homem que só ouve sobre a doçura do alimento agradável, ou só lê sobre os sons melodiosos da música, isso não estimula tanto seu desejo; mas quando ele saboreia pessoalmente o alimento e ouve a música, então ele se esforçará mais para conquistá-los. Assim, se você só conhecesse a glória da herança dos santos de ouvir falar, isso não lhe ajudaria a enfrentar os sofrimentos e a morte, mas se você pegar esse curso em que você experimenta e saboreia essa glória, por meio do exercitar diariamente sua alma para que ela se achegue às coisas do alto, então nada ficará no seu caminho; mas você prosseguirá até que esteja lá, mesmo que tenha de ser por meio do fogo ou da água.

 

VII

O cristão que tem sua cidadania no céu é o mais proveitoso para todos a sua volta: ele pode lhes dar doces conselhos e ir para a casa celestial de Deus. Quando o homem está em um país estrangeiro, distante de casa, como ali se alegra com a companhia de alguém que é da mesma nação que ele. Como é prazeroso para eles conversar sobre seu país, sobre os conhecidos e os assuntos de sua nação. Com um cristão celestial, você pode ter esse tipo de conversa, pois ele já esteve lá pelo Espírito e pode contar-lhe sobre a glória e o descanso do alto.  Confesso que conversar com homens cultos, com compreensão clara e inteligência perspicaz, sobre assuntos difíceis e controversos de nossa religião, e também fazer críticas à linguagem e à ciência, é algo agradável e proveitoso; mas nada disso se compara à conversa de um crente sobre o céu e as coisas divinas. Como suas expressões são restauradoras e aprazíveis! Como sua doutrina cai como a chuva, e sua fala goteja como o suave orvalho; e, quando expressa o nome do Senhor e atribui grandeza ao seu Deus, é como a chuva fina no tenro capim; como a chuva fina na grama! Seu doce discurso sobre o céu, cheio de emoção, não é parecido com o frasco do precioso perfume, o qual, após ser aberto para ser derramado sobre a cabeça de Cristo, inunda a casa com seu perfume? Todos os que estiverem próximos podem ser revigorados por ele.  Felizes os que têm um ministério consagrado; felizes as crianças e os servos que tem um pai, ou mestre, consagrado; feliz o homem que tem amigos consagrados, pois eles têm o coração voltado para conhecer essa felicidade! Esse é o companheiro que tomará conta de seus caminhos; que o fortalecerá quando você estiver fraco; que o animará quando você estiver abatido, e que o confortará com os mesmos confortos com os quais foi muitas vezes confortado. Esse é aquele que acenderá a chama de sua vida espiritual e sempre atrairá sua alma para Deus.  Se você caminhar com esse homem consagrado, ele o direcionará e o estimulará em sua jornada para o céu; se você tiver de comprar ou vender para ele aqui no mundo, ele o aconselhará a abandonar tudo pelo tesouro inestimável. Se você proceder mal, ele o perdoará, lembrando-o que Cristo não só lhe perdoou ofensas maiores, mas também lhe dará essa porção inestimável. Se você ficar bravo, ele é manso, e falamos aqui dessa mansidão de alguém consagrado; ou se ele romper relações com você, logo ele busca a reconciliação quando se lembrar de que no céu vocês serão amigos por toda a eternidade. Esse é o cristão da espécie correta; esse é o servo que é parecido com seu Senhor; esses são os inocentes que salvam a ilha, e todos que habitam a volta dele sentem-se bem.  De minha parte, prefiro ter a companhia de cristãos consagrados, cuja mente está voltada para os assuntos do céu, que andar junto aos argumentadores eruditos ou aos comandantes reais.

 

VIII

Não existe homem que honre de forma mais excelsa a Deus que aquele que tem sua cidadania no céu; e, sem isso, nós o desonramos profundamente. Não é uma desgraça para o pai quando os filhos se alimentam de migalhas, vestem farrapos e andam na companhia de tratantes e de pedintes? E o mesmo não acontece com nosso Pai quando dissemos que somos seus filhos, mas nos alimentamos de terra, e a vestimenta de nossa alma é semelhante à do mundo desguarnecido, e quando nosso coração, que sempre deveria estar na presença de nosso Pai e ser elevado até sua presença, está mais familiarizado com a companhia desse barro e desse pó? Certamente, viver em meio aos ajudantes e servos não convém à noiva de Cristo, quando esta for diariamente admitida na sala do trono; ele estenderá seu cetro, se eles entrarem. Com certeza, vivemos sob o padrão do evangelho, e não para nos tornar filhos de um rei. Não vivemos de acordo com a altura de nossa esperança, nem de acordo com a plenitude que há nas promessas, nem em conformidade com a provisão da casa de nosso Pai, ou com a grande preparação feita para seus santos.  Mas, quando o cristão vive no alto, e sua alma se regozija nas coisas invisíveis, como Deus se apresenta para ser honrado por esse homem!  Pois ele honra aqueles que o honram.

 

IX

Se você não tomar consciência dessa responsabilidade de diligentemente manter seu coração no céu, desobedece claramente aos mandamentos de Deus; você perde as partes mais doces das Escrituras e deixa de descobrir as mais graciosas revelações de Deus.Deus não trata isso como algo indiferente, nem deixou isso a sua própria escolha, para que decida se fará isso, ou não. Ele fez com que isso fosse sua responsabilidade, como também o meio para que você alcançasse seu conforto, a fim de que esse duplo compromisso pudesse uni-lo a ele, e você não abandonasse as misericórdias do Senhor.  Ademais, você perde as passagens mais reconfortantes da Palavra. Todas essas maravilhosas descrições do céu, todas essas descobertas de nosso abençoado futuro, todas as revelações dos propósitos de Deus para nós, e suas muitas e preciosas promessas de nosso descanso; o que é tudo isso para você, senão perda? Essas estrelas não estão no firmamento das Escrituras e não são as linhas do livro de Deus mais banhadas em ouro? De toda a Bíblia, acho que você não deveria se afastar das palavras que dizem respeito às promessas nem das profecias; não mesmo, nem mesmo em troca do mundo todo! Como o céu é a perfeição de todas nossas misericórdias, também as promessas delas no evangelho são a própria alma do evangelho. Sim, você frustra as preparações de Cristo para a alegria que ele quer lhe dar e o faz falar em vão. Uma palavra de conforto que sai da boca de Deus não tem tão grande valor a ponto de todos os confortos do mundo nada representarem quando comparados com ela? E você negligencia e despreza muitas dessas palavras de conforto?

Agradou a nosso Pai abrir seu conselho e permitir que conhecêssemos as intenções exatas de seu coração, e que nos familiarizássemos com a extensão eterna de seu amor; e tudo isso para que nossa alegria pudesse ser plena, e para que pudéssemos viver como herdeiros nesse reino. E, agora, devemos desprezar tudo isso, como se ele não tivesse revelado nada sobre o assunto? Viveremos em meio aos cuidados e sofrimentos terrenos, como se não conhecêssemos nada disso? E não nos regozijaremos mais com essas descobertas como se o Senhor jamais as tivesse escrito? Se seu príncipe o selasse com a patente de seu senhorio, com que freqüência depositaria seu olhar nisso, fazendo com que seu deleite diário fosse o estudo disso até que viesse a possuir essa mesma dignidade? E Deus o selou para um título no céu, mas você o deixará ali ao seu lado, como se tivesse se esquecido disso?

 

X

E é apenas justo que nosso coração esteja em Deus, quando o coração de Deus está tanto em nós. Se o Senhor da glória pode inclinar-se tanto a ponto de fazer seu coração repousar em seres pecadores, feitos de pó, certamente seríamos persuadidos a pôr nosso coração em Cristo e na glória, e ascender a ele, que se digna a ser condescendente conosco, em nossos sentimentos diários! Ó, se o deleite de Deus não estivesse mais em nós na mesma proporção que o nosso não está nele, o que deveríamos fazer? Em que situação estaríamos! Cristão, você não percebe que o coração de Deus está sobre você? E que ele ainda cuida de você com amor cuidadoso, mesmo quando se esquece de si mesmo e dele? Você não o vê quando o acompanha com suas misericórdias diárias, movendo-se em sua alma e provendo para seu corpo, a fim de preservar ambos? Ele não o acolhe continuamente nos braços do amor e promete que tudo coopera para o seu bem? E ajusta todas as formas de lidar com você para seu próprio benefício? E não pede que seus anjos tomem conta de você? E você não consegue encontrar em seu coração um lugar para ele, pois está muito ocupado com as alegrias terrenas, a ponto de esquecer seu Senhor que não se esquece de você?  Esse não foi o pecado que Isaías clamou, de forma solene, para que o céu e a terra testemunhassem contra ele? "O boi reconhece o seu dono, e o jumento conhece a manjedoura do seu proprietário, mas Israel nada sabe, o meu povo nada compreende" (Is 1.3). Se o boi e o jumento desgarram-se durante o dia, eles, provavelmente, voltam para sua casa à noite, mas nós não elevamos nossos pensamentos a Deus nem uma vez ao dia.  Portanto, permita que sua alma ascenda até Deus e o visite todas as manhãs, e que seu coração se volte para ele todos os momentos.

 

XI

Além dessa maravilha da qual falamos anteriormente, nosso interesse pelo céu e nosso relacionamento com ele não deveriam manter nosso coração ali? Ali, nosso Pai mantém sua corte. Nós não oramos: "Pai nosso, que estás nos céus!"? Ah! Crianças sem graça e indignas que se ocupam tanto com suas responsabilidades a ponto de não se importarem com seu Pai!  E há multidões de nossos irmãos mais velhos; há nossos amigos e nossos velhos conhecidos, cuja companhia na carne era-nos muito agradável, e cuja partida para lá tanto lamentamos! E isso não é um atrativo para seus pensamentos? Se eles estivessem ao seu alcance na terra, você os visitaria; e por que não os visita com mais freqüência em espírito; e não se regozija de antemão ao pensar que se encontrará novamente com eles ali?  Sócrates regozijou-se com o fato de que morreria, pois cria que veria Homero, Hesíodo e outros homens magníficos; e eu regozijo muito mais, pois tenho a certeza de que verei a Cristo, meu Salvador, o eterno Filho de Deus na carne que ele assumiu; e, além dele, também verei tantos outros homens santos e magníficos! Com certeza, se nossa casa fosse muito mais inferior, ainda assim nos lembraríamos dela, apenas por que ela é a nossa casa.  Se você fosse banido para uma terra estrangeira, com que freqüência pensaria em sua nação; com que freqüência pensaria em seus antigos companheiros; independentemente da companhia que tivesse ou de para onde você fosse, seu coração e seu desejo ainda estariam ali.  Oras, o mesmo não acontece conosco em relação ao céu? Ali não é, de forma mais verdadeira e apropriada, nossa casa, onde habitaremos por toda a eternidade?  Somos estrangeiros, e o céu é nosso país. Somos herdeiros, e aquela é nossa herança, uma herança incorruptível e imaculada, que não desaparece, a que está reservada para nós no céu.  Ó, que nos importássemos com nossa herança e a valorizássemos pelo menos a metade do que vale!

 

XII

Não vale a pena depositar nosso coração em nada mais, a não ser o céu. Se Deus não tem nosso coração, quem, ou o que, mais o poderia tê-lo? Se você não se importa com seu descanso, com que mais poderia se importar?

 Eu não o aconselharia a fazer experimentos que lhe custassem tão caro, como todos os que buscam a felicidade aqui na terra, para que você, quando a substância se perder, não descubra que apenas apoderou-se de uma sombra; para que você não seja como aqueles homens que precisam buscar a pedra filosofal, embora ninguém, antes dele, a tenha achado; e comprar essa experiência com a perda de suas terras e seu tempo, algo que poderiam alcançar a um preço muito mais barato, caso tivessem se ocupado com a experiência de seus predecessores. Portanto, gostaria que você não se inquietasse com a busca daquilo que não está na terra, para que você não aprenda isso com a perda de sua alma, algo que você poderia aprender de forma mais fácil por meio dos avisos de Deus em sua Palavra e da perda de milhares de almas antes de você. Na verdade, à medida que a necessidade e a responsabilidade exigirem, devemos ficar contentes em nos importar com as coisas da terra; mas quem é que delimita a si mesmo na extensão desses limites? E, ainda assim, se delimitarmos nossos cuidados e pensamentos de forma tão diligente quanto possível, encontraremos--como a pequena abelha tem seu ferrão, e a menor serpente, seu veneno mínimo de amargura e fardo. O mesmo posso dizer a respeito de nossos cuidados terrenos; a característica deles é ser árduos e problemáticos, e continuarão com essa característica mesmo quando forem mínimos.  Nós, os cidadãos e habitantes do céu, estamos unidos, por alianças solenes e freqüentes, a não nos deixar seduzir por honras ou deleites estranhos, nem nos enredar com eles, mas apenas nos envolvermos com aqueles de nossa própria nação. Se seus pensamentos, como a laboriosa abelha, voarem pelo mundo, de flor em flor, de criatura em criatura, eles não lhe trarão nenhum mel nem doçura, a não ser o que eles reuniram com relação à eternidade.

Apresentei esses argumentos para que você considere e, se possível, que o persuadam a ter uma mente consagrada. Agora, desejo que você os revise; leia-os de forma deliberada, e leia-os novamente, e depois me diga se eles têm fundamento ou não.  Essas considerações são de peso, ou não?

 Se você responder negativamente, estou certo que você contradiz sua própria consciência e fala contra a luz que habita em você, e sua razão dir-lhe-á que você falou coisas falsas; se você responder afirmativamente e admitir para si mesmo que essa responsabilidade é essencial, então dê testemunho de que recebi sua confissão. Sua língua mesma o condenará, e essa confissão advogará contra você mesmo, se for agora mesmo para casa, e lançar fora, e ignorar obstinadamente essa responsabilidade que confessou, essas considerações serão como o júri que o condena.  Tenha o desejo firme, e mais da metade do trabalho já terá sido realizado. O que você diz? Você está disposto, ou não? Que Senhor o persuada a trabalhar.

 

Capítulo 14

ALGUNS OBSTÁCULOS PARA A VIDA CELESTIAL

 

A primeira responsabilidade que preciso estabelecer aqui consiste em evitar alguns obstáculos perigosos que podem, de outra forma, mantê-los afastados desse trabalho, como aconteceu com milhares de almas antes de você. Se lhe mostrar brevemente onde estão as pedras e o abismo, espero que tome cuidado com eles. Se puser um aviso em todas as areias movediças, espero que não precise dizer mais nada para que você as evite.

 

 I

O primeiro deles refere-se ao viver tranquilamente em um pecado conhecido.  Você é aquele que usa de violência com sua consciência?

Você é aquele que negligencia responsabilidades conhecidas, quer coletivas, quer particulares, quer secretas? Você é escravo de seu apetite, quer no comer quer no beber, ou algum outro sentido o comanda? Você é aquele que busca com orgulho sua própria estima, um homem que precisa cair nas boas graças dos outros homens, ou, caso contrário, sua mente se consome? Você é alguém obstinadamente impaciente e impetuoso, como se fosse feito de material inflamável ou pólvora, pronto a inflamar a qualquer palavra, a qualquer olhar de esguelha, ou a qualquer suposto desprezo a sua pessoa, ou qualquer negligência quanto a um cumprimento ou a uma cortesia? Você é conhecido por enganar os outros em suas transações, ou por buscar alcançar uma alta posição no mundo? Se esse é o seu caso, ouso dizer que o céu e sua alma não se conhecem; ouso dizer que seu coração raramente está em Deus, e há pouca esperança de que isso melhore, enquanto você continuar com essas transgressões. Essa viga que está em seu olho não suporta que você olhe para o céu; ela será como uma nuvem entre você e Deus. Quando você tentar estudar a eternidade e reunir confortos da vida por vir, seu pecado, imediatamente, olhará você de frente e dirá: "Essas coisas não pertencem a você".. Todo pecado deliberado em que você vive será, em relação aos seus confortos, como água para o fogo; pois quando pensa em estimulá-los, isso o extinguirá; quando seu coração começar a se aproximar de Deus, isso virá imediatamente a sua mente, e o cobrirá de vergonha, e o incapacitará para esse trabalho; quando você elevar seu coração para o céu Deus meu!, ele penderá em outra direção; ele está enredado em cobiças da carne e não consegue mais elevar-se em meditação divina, como o pássaro cujas asas foram cortadas--ou o que está enredado na vara enviscada, ou ainda o que foi pego na armadilha--e não consegue voar.  O cristão mais forte corre riscos quando dá oportunidades ao pecado. Ó, que necessidade temos de orar diariamente: "E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal" (Mt 6.13).

 

II

O segundo obstáculo a ser cuidadosamente evitado é a mente terrena. Você pode muito bem aceitar, sem qualquer dificuldade, que esse tipo de mente não convive com a mente consagrada. Deus e Mamom, céu e terra, os dois não podem ter o apreço de seu coração. Isso o torna similar ao pássaro de Anselmo que tinha uma pedra amarrada ao pé, e toda vez que ele alçava vôo, ela, mais uma vez, o puxava para a terra. Se você é um homem que reserva algum prazer ou alegria para você mesmo a ser desfrutado aqui na terra; que já começa a sentir a doçura associada ao ganho; que aspira ter mais terras e posses; e que acalanta alguns projetos prósperos em sua mente e busca formas de levá-los adiante, acredite, você marcha de costas para Cristo e caminha rapidamente para longe dessa vida consagrada. Oras, o mundo não recebe de você o que Deus recebe do crente consagrado? Enquanto ele busca suas bênçãos em Deus e alegra-se na esperança da glória por vir, você busca suas bênçãos na prosperidade e alegra-se em sua esperança de prosperidade aqui. Enquanto ele busca consolar sua alma com a visão de Cristo, dos anjos e dos santos com quem viverá para toda a eternidade, você se consola com sua riqueza, com o cuidado com suas contas e títulos, com a visão de seu dinheiro, de seus bens, de seu gado, de suas casas e de suas muitas posses; e sua mente recreia-se ao pensar em suas esperanças; no favor que receberá dos grandes; no prazer de ter propriedades que lhe garantam uma posição de comando e fartura; na grande provisão para seus filhos depois que você se for; na ascensão de sua casa; ou na homenagem que seus inferiores lhe prestam. Mas, quando a alma graciosa está no alto com Cristo, não são esses pensamentos que o acalentam de manhazinha e de noite?  Seu prazer em Deus, com certeza, diminui na proporção inversa em que seus pensamentos e seus deleites se concentram na terra. Sua mente terrena pode ocupar-se com sua profissão e responsabilidades comuns, mas não pode ocupar-se da responsabilidade divina.  Ó cristão,  tome cuidado com esse abismo da mente terrena.  Guarde essas coisas como suas vestes de gala, bastante folgada para que você possa se desfazer delas sempre que necessário; mas deixe que Deus e a glória fiquem próximos de seu coração, sim, como se fossem o sangue e o espírito que o mantêm vivo.

 

III

Um terceiro obstáculo é a companhia de homens sensuais e ímpios. Não quero dissuadi-lo de tentar convertê-los, ou de praticar alguma atitude de amor para com eles, especialmente de não deixar de esforçar-se para o bem da alma deles, desde que você tenha oportunidade e esperança; tampouco gostaria que você concluísse que eles não passam de cães e porcos, a ponto de você poder livrar-se da responsabilidade de reprová-los.  Dissuado-o da companhia desnecessária de homens impiedosos e da muita familiaridade com companhias inaproveitáveis, embora não pareçam tão impiedosos.

A alma ociosa e distante de Deus, como também a vida licenciosa, profana e carnal, ficam muito longe do céu, e a companhia comum dessas pessoas ociosas, esquecidas, negligentes mantém nosso coração distante do céu da mesma forma que os homens mais dissolutos e profanos também nos levam para longe dele. Ai de mim! Nosso embotamento e relutância é tanto que precisamos de ajuda constante e poderosa. Um torrão de terra, ou uma pedra, depositado no chão é tão propenso a levantar e voar quanto nosso coração é naturalmente inclinado a buscar o céu. Você não precisa segurar nem impedir o torrão de terra, ou a pedra, de voar até o céu; basta não ajudá-los. E, certamente, se nosso espírito não tiver muita assistência, é fácil impedi-lo de voar nas alturas, embora jamais se depare com o menor impedimento ou obstáculo. Ó, pense sobre isso quando for escolher suas companhias. Quando seu espírito for preparado, de forma poderosa, para o céu a ponto de você não precisar de ajuda para elevá-lo, então você realmente já não precisa tomar tanto cuidado com suas companhias; mas até chegar a esse ponto, em que você passe a amar os deleites da vida consagrada, tenha cuidado com isso.  Em uma palavra, nossa companhia será parte de nossa felicidade no céu, e é uma parte singular de nosso amparo para alcançá-lo, ou um obstáculo para isso.  Aquele que nunca acha difícil ter uma mente consagrada enquanto está na companhia das pessoas aqui da terra é por que ele, certamente, jamais tentou fazer isso.

 

IV

Um quarto obstáculo para a cidadania celestial são as muitas discussões sobre verdades menores, especialmente quando a religião de um homem repousa apenas em sua opinião: um sinal certo de uma alma não santificada.  Aquele cuja religião está apenas em suas opiniões fala com bastante freqüência e muito zelo a respeito delas; e aquele cuja religião repousa no conhecimento de Deus em Cristo e no amor ao Senhor em nosso Salvador fala muito mais e com grande prazer sobre o momento em que desfrutará de Deus e de Cristo.  Não que eu gostaria de persuadi-lo a subestimar a verdade de Deus, nem que não reconheça que os argumentadores ardorosos tenham descoberto a verdade antes de seus irmãos; mas, quando admitimos que eles chegaram à verdade, estou certo de que, ainda que toda verdade ocupe sua proporção devida em nossos pensamentos e em nossas falas, um centésimo de nosso tempo e de nossas conversas não seriam gastos com os temas que agora são bastante comuns. [...] Portanto, deixe-me aconselhar você, que aspira a essa vida de alegria, a não gastar grande parte de seus pensamentos, seu tempo, seu zelo ou suas falas em discussões que não dizem tanto respeito a sua alma.  Desejaria que todos vocês fossem homens sensatos e capazes de defender a verdade de Deus; e, para essa finalidade, você deveria ler e estudar mais as controvérsias, mas nada disso deve eliminar seus pensamentos sobre a eternidade. Os pontos menos controversos são geralmente os mais essenciais e os mais necessários para nossa alma.

 

V

Se você valoriza os confortos da vida consagrada, tenha cautela com o espírito orgulhoso e altivo. Há tanto antagonismo entre esse pecado e Deus que você jamais conseguirá aproximar seu coração do Senhor, nem que ele se aproxime de seu coração, enquanto essa atitude for prevalente. Se isso fez com que alguns anjos fossem expulsos do céu, também faz com que seu coração fique afastado dali.  Há grande antagonismo entre o coração orgulhoso e o consagrado. O relacionamento com Deus mantém os homens humildes, e essa humildade facilita ainda mais esse relacionamento. Quando um homem se considera muito diante de Deus e se ocupa com o estudo de seus gloriosos atributos, ele acaba por abominar a si mesmo imerso em pó e cinzas; e essa abominação de si mesmo é o melhor preparativo para obter permissão para entrar novamente na presença de Deus. Portanto, depois de um dia em que a alma se humilha, ou em momentos difíceis, quando a alma fica mais humilde, ela costuma ter livre acesso a Deus e pode saborear muito da vida do alto.  O deleite de Deus é uma alma humilde,  e o deleite de uma alma humilde está em Deus; e, com certeza, com esse deleite mútuo, o acesso fica mais livre, a recepção, mais calorosa, e a convivência, mais freqüente.  O Senhor faz sua habitação em uma alma humilde e, certamente, se nossa moradia for com ele, e nele, a moradia do Senhor também será conosco, e em nós, e haverá uma familiaridade bastante íntima e doce. Mas a alma orgulhosa não pode pleitear esse privilégio. Deus está tão distante de habitar nessa alma que não permitirá nem que se aproxime, mas a observa à distância. O Senhor resiste ao orgulhoso, e o orgulhoso resiste a ele, mas ao humilde ele dá essa graça e muitas outras.  A mente consagrada é a mente que Deus tem em alta estima, e a aspiração dela, embora santa, é ficar mais alta ainda. Um espírito simples e humilde não é tão contrário ao Espírito alto e divino quanto o espírito orgulhoso. O grão de mostarda pode tornar-se uma árvore; uma pequena bolota pode tornar-se um grande carvalho; a pá do moinho que agora está mais embaixo pode vir a ficar na posição mais alta, e aquele que está alto pode ficar mais alto ainda, desde que seja submisso ao príncipe, nossa fonte de honra; mas se ele se separar dessa submissão para se tornar um competidor, ou usurpar essa honra, transferindo-a indevidamente para si mesmo, ele descobrirá que esse caminho o leva à queda.  Você, aos seus próprios olhos, é um homem de valor e muito cuidadoso com a estima que os outros lhe dedicam? Você é o tipo de pessoa que valoriza o aplauso das pessoas, e seu coração pula de alegria quando ouve que os homens muito o estimam? E fica abatido quando ouve que os homens o desprezam? Você é o tipo de pessoa que ama mais aqueles que mais o honram? E seu coração fica ressentido com aqueles que você acha que o menosprezam e têm pensamentos desprezíveis em relação a você, embora sejam homens piedosos e honestos? Você é o tipo de pessoa que precisa que seus caprichos sejam satisfeitos, e que seu julgamento precisa ser a regra por meio da qual os outros devam ser julgados, e que sua palavra precisa ser lei para todos a sua volta? Você é o tipo de pessoa que está sempre pronta a discutir com todo homem que disser uma palavra que o desonre? Você é o tipo de pessoa que se inflama, se sua palavra, ou sua pessoa, for contrariada? Você é o tipo de pessoa pronta a julgar a humildade como sórdida infâmia, alguém que não sabe se humilhar nem se submeter a ninguém; e você não se envergonha, por meio da humilde confissão, quando peca contra Deus ou ofende seu irmão? Você é o tipo de pessoa que honra os piedosos ricos e acha que é alguém quando eles o valorizam e o reconhecem, mas olha com maus olhos os piedosos pobres e sente quase vergonha de ser visto na companhia deles? Você é o tipo de pessoa que não pode servir a Deus em um lugar desprezível nem em um nobre, mas acha que se ajusta melhor às posições e às honras e ama o serviço a Deus quando ele é acompanhado de prestígio?  Você se deleita com as oportunidades de anunciar as suas atividades; e ama quando seu nome se torna conhecido do mundo todo; e ficaria satisfeito de deixar aqui algum monumento em sua homenagem para que a posteridade o admire quando morrer?   Você é o tipo de pessoa que não está familiarizada com a falsidade e a perversidade de seu coração? Você é o tipo de pessoa que sempre está mais pronta a se defender e a manter sua inocência que acusar a si mesmo ou confessar sua falha? Você mal pode ouvir uma reprovação de alguém próximo e digere com muita dificuldade e desgosto os que o tratam de forma sincera? Você é o tipo de pessoa que sempre está mais pronta a ensinar que a aprender, e a ditar aos outros o que fazer que escutar as instruções deles atentamente? Você é o tipo de pessoa corajosa e confiante em sua própria opinião e que não suspeita muito de seu pouco entendimento, mas menospreza o julgamento de todos que são contra você? Seu espírito está sempre mais disposto a comandar e a governar que a obedecer aos outros e ser governado por eles? Você é o tipo de pessoa sempre pronta a doutrinar seus mestres, as ações dos governantes e seus irmãos em Cristo?  Se esses sintomas estiverem inegavelmente em seu coração, você, sem sombra de dúvida, é uma pessoa orgulhosa.  Um homem orgulhoso torna-se seu próprio deus, e admira a si mesmo e passa a ser seu próprio ídolo; então, como ele pode depositar seus sentimentos em Deus?   E seria possível que esse homem tivesse seu coração no céu?

Imploro que você seja muito zeloso com sua alma em relação a esse ponto. Não há nada no mundo que mais o afaste de Deus que isso. Falo mais dele, pois é o pecado mais comum e mais perigoso em relação à moralidade, como também o que mais promove o grande pecado da infidelidade. Ó cristão, se você vivesse continuamente na presença de seu Deus e aprendesse com ele a ser humilde e manso, então poderia saborear esse descanso de sua alma. Caso contrário, sua alma, sempre laçando fora o lodo e a sujeira, ficaria tão perturbada quanto o mar revolto que não pode descansar; e, em vez desses doces deleites em Deus, seu orgulho o encherá com perpétua inquietação. É a alma humilde que não se esquece de Deus, e Deus não se esquecerá do humilde.  Deus, portanto, habita com ele que é humilde e contrito e vivifica o espírito dele com sua presença.

 

VI

Outro obstáculo a essa vida consagrada é a preguiça e a indolência obstinadas do espírito, e  não há impedimento maior que esse. Se fosse apenas para exercitar o corpo, movendo os lábios, dobrando os joelhos, então essa seria realmente uma responsabilidade muito fácil, e os homens iriam com freqüência ao céu, como caminham alguns quilômetros para visitar um amigo; sim, se fosse para passar a maior parte de nossos dias contando as contas do terço e repetindo algumas palavras e orações, em humildade voluntária, negligenciando o corpo, seguindo os mandamentos e as doutrinas dos homens, sim, ou seguindo os rituais exteriores das responsabilidades ordenadas por Deus, ainda assim seria comparativamente simples.  Mas a responsabilidade é mais difícil que tudo isso. Separar pensamentos e sentimentos do mundo; forçá-los a trabalhar em uma natureza tão alta; suscitar todas nossas graças em sua ordem e exercitar cada uma delas com seu objeto próprio; retê-las ali até que percebam seu sucesso e até que o trabalho viceje e prospere. Esta, esta é a responsabilidade difícil. Leitor, o céu está acima de você, o caminho é para cima. Você acha que  pode percorrer diariamente essa subida íngreme sem uma grande quantidade de trabalho e determinação? Você consegue levar aquele coração terreno ao céu e sua mente obtusa a Deus, enquanto fica imóvel e em posição bem cômoda? Se deitar-se ao pé do monte e olhar para o topo, desejando que lá estivéssemos, servisse para a conversão, então teríamos viajantes diários para o céu.  Seu coração se encaminharia para o alto se você não o dirigisse para lá? Ele não é como o cavalo exausto que não seguiria em frente se não sentisse a espora?  Quantas centenas de professores de religião que, facilmente, aplicam seu coração às suas responsabilidades usuais, como ler, ouvir, orar, trocar idéias, mas que ainda, em toda sua vida, conseguiu trazer seu coração à contemplação do céu, mas o manteve ali por meia hora, contando todas as ocorrências desse fato juntas! Como você está convencido que esse trabalho é necessário para uma vida confortável, então o inicie com determinação; se seu coração retroceder, force-o a seguir com o comando da razão; e se sua razão começar a discutir esse trabalho, force-a a prosseguir produzindo a ordem de Deus; e estimule seu trabalho com o caso de sua necessidade e os outros motivos apresentados anteriormente; e permita que os constrangimentos que o trouxeram para esse trabalho ainda estejam em sua mente para estimulá-lo a prosseguir com ele. Não permita que tão incomparável tesouro permaneça ali diante de você, enquanto fica parado com as mãos em seu peito.  Não se sente quieto com o espírito desconsolado, enquanto os confortos crescem diante de seus olhos, como um homem em meio a um jardim de flores, ou em uma agradável campina, que não se levanta para colhê-las para compartilhar da doçura delas.  Sei que Cristo é a Fonte e sei que esse dom, como todos os outros, é proveniente de Deus; mas, ainda assim, se você pedir meu conselho: "Como obter essas águas da consolação?", preciso contar-lhe como fazer isso! Há algo mais para você fazer: o evangelho tem suas condições e suas obras, embora nada tão impossível quanto as obras da Lei. Cristo tem seu jugo e seu fardo, embora suave e leve, e você deve vir a ele por estar cansado e sobrecarregado, assim admita isso, ou jamais encontrará repouso para sua alma. O poço é profundo, e você precisa retirar essa água para que possa se revigorar e se deleitar com ela.  O que mais posso dizer para você, a não ser isso, a fim de direcioná-lo para essa arte da vida consagrada? Você precisa lidar de forma clara e sincera com seu coração e dirigi-lo para o alto, e feri-lo com esporas, e segui-lo de perto até que o trabalho seja feito, por um homem que não passa de um servo indolente e infiel.  Ou, se assim desejar, seu cavalo, ou boi, trabalhará até onde você o levar, mas não seguirá adiante; e se seu coração se deitar quando estiver no meio do trabalho, force-o novamente a levantar-se até que o trabalho esteja concluído, e não permita que ele prevaleça com suas diretrizes preguiçosas.  Pressiono-o a não ocupar sua mente mais do que deve, mas a ocupá-la com objetos melhores e mais agradáveis. Como Sócrates disse a um camarada preguiçoso que gostaria de ir ao Olimpo, mas achava que ele ficava longe demais: "Ande todos os dias a distância que caminharia em sua casa por dia, ao ir de cá para lá, e, em alguns dias, estará no Olimpo". Portanto, digo a você que dedique, todos os dias, tantos pensamentos sérios à excelente glória da vida por vir quanto dedica aos assuntos indispensáveis aqui do mundo; mais ainda, como você se perde diariamente em vaidades e impertinências, então não demorará muito tempo para que seu coração chegue até o céu.

 

VII

É também um obstáculo perigoso e secreto contentar-nos com os meros preparativos dessa vida consagrada e divina, enquanto somos totais estranhos à vida em si. Quando começamos com o mero estudo das coisas divinas, e as noções e os pensamentos delas em nossa mente, ou a falar sobre elas com outras pessoas, como se isso fosse tudo que nos tornasse pessoas consagradas, não há ninguém em mais perigo que aqueles que se dedicam às responsabilidades coletivas, especialmente pregadores do evangelho. Como eles são facilmente enganados aqui, enquanto não fazem nada mais além de ler sobre o céu, e estudar sobre o céu, e pregar sobre o céu, e orar e falar sobre o céu.  Tudo isso não passa de mera preparação; essa não é a vida sobre a qual falamos, embora seja realmente uma ajuda necessária para chegar ali. Imploro a todos meus irmãos no ministério que se guardem dessa tentação e examinem para ver se não são vítimas dela; isso é a fase em que recolhem os materiais, mas não é o mesmo que erigir o prédio; isso é recolher o maná para os outros, mas não é o mesmo que comer e digerir isso nós mesmos. Como aquele que, sem sair de casa, pode estudar geografia e apresentar descrições extremamente exatas dos países, embora jamais os veja, nem viaje até eles, também você pode descrever as alegrias do céu para outras pessoas, embora jamais tenha chegado perto dele em seu coração. Da mesma forma que um homem pode descrever a doçura de uma carne que jamais experimentou, e um cego, por meio do aprendizado, pode discutir sobre as cores e a luz, também você pode estudar e pregar os assuntos mais divinos, embora jamais tenha adoçado seu próprio espírito com eles, e apresentar aquela luz divina que nunca chegou a iluminar sua alma; e trazer aquele fogo para o coração de seu povo, embora ele jamais tenha aquecido seu próprio coração. Se você, durante toda sua vida, só estudasse o céu e não pregasse sobre nada mais, ainda assim seu coração poderia ser um estranho ali.  Mais ainda, estamos, mais que qualquer outro homem, sob uma tentação sutil que pode nos afastar dessa vida consagrada e divina. Se nossas ocupações ficam a muita distância do céu, e você ocupa seus pensamentos com coisas comuns, não deveríamos estar tão propensos a ficar tão contentes e enganados; mas quando descobrimos que não nos ocupamos de nada mais, fica muito mais fácil nos deixar ocupar aqui. Estudar e pregar sobre o céu se assemelha mais com a vida consagrada e divina que pensar e falar sobre o mundo, e essa semelhança é o que pode nos enganar. Isso é deixar que morramos de fome, embora tenhamos pão em nossa mesa; e isso é pior que morrer de fome quando não temos pão; e morrer de sede enquanto retiramos água para os outros, achando que basta nos ocupar disso diariamente, embora jamais a bebamos para revigorar nossa alma.

 

Capítulo 15

ALGUMA AJUDA GERAL PARA A VIDA CELESTIAL

 

Como você valoriza os deleites dessa antecipação do céu, conscientize-se de realizar as seguintes responsabilidades.

 

I

Saiba que o céu é seu único tesouro, e trabalhe para também saber que tesouro é esse. Convença-se, de uma vez por todas, de que não existe outra felicidade e, depois, convença-se da felicidade que existe ali. Se você não acredita que esse é o bem principal de sua vida, você jamais dedicará seu coração a ele; e essa convicção deve ficar imersa em seus sentimentos; pois se for apenas uma noção, ela não será muito útil.  Enquanto seu julgamento a menosprezar, seus sentimentos não serão calorosos em relação a esse tesouro.  Se seu julgamento algum dia preferir os deleites da carne, em vez dos deleites da presença de Deus, é impossível que seu coração chegue até o céu. Como a ignorância quanto ao vazio das coisas aqui embaixo é o que leva os homens a valorizá-las em demasia, também é a ignorância dos sublimes deleites das alturas que leva os homens a se importar tão pouco com eles.

Se você vir uma bolsa cheia de ouro, e acreditar que esse ouro não passa de contas ou pedras, então essa bolsa não instigará seus sentimentos por ela.  O que provoca o desejo não é a maravilha em si de algo, mas a maravilha conhecida. Se um homem ignorante vir um livro contendo os segredos das artes, ou das ciências, ele, entretanto, não o valoriza mais que uma peça comum, pois não conhece seu conteúdo; mas aquele que o conhece, o valoriza muito; e sua mente se volta para ele.

 

II

Trabalhe para conhecer o céu como a única felicidade, e também para que seja a sua felicidade. Embora o conhecimento da maravilha e da adequação possa incitar aquele amor que trabalha por meio do desejo, ainda assim precisa haver o conhecimento de nosso interesse ou propriedade para estabelecer um trabalho contínuo de nosso amor de complacência. Podemos confessar que o céu é a melhor condição, embora possamos nos sentir desesperados ao desfrutá-lo, e podemos desejá-lo e buscá-lo, se percebermos que a obtenção dele é proveitosa e possível; mas jamais nos regozijaremos de forma deleitosa nele até que sejamos persuadidos de que nossa posição ali está garantida.  Ó, cristãos, não descansem, portanto, até que possa dizer que esse descanso é seu; não se sente sem ter certeza; fique sozinho e questione-se; traga seu coração para a corte de julgamento; force-o a responder os interrogatórios que você lhe faz; estabeleça, de um lado, as condições do evangelho e as qualificações dos santos, e, de outro lado, seu desempenho em relação a essas condições e qualificações de sua alma, para depois julgar o quanto elas estão próximas. Você tem diante de você a mesma Palavra, aquela por meio da qual deverá ser julgado no grande dia, para julgar por si mesmo agora; faça essas questões agora para si mesmo. Ali você poderá ler os artigos segundo os quais será julgado.  Portanto, estabeleça o fundamento do julgamento de forma sábia e ponderada; prossiga nesse trabalho de forma deliberada e metódica; continue com ele até chegar a um resultado firme e diligente; não permita que seu coração escape e saia antes do julgamento, mas faça-o ficar até ouvir sua sentença. Se uma, duas ou três tentativas não forem suficientes, nem alguns dias de interrogatório não o levarem a um resultado, prossiga nessa responsabilidade de forma diligente e incansável e não desista até que o trabalho esteja completo, até que possa dizer se você é, ou não, um membro de Cristo; se esse descanso lhe está, ou não, garantido. Assegure-se de não descansar em incertezas obstinadas. Se você mesmo não pode realizar bem essa responsabilidade, peça ajuda de pessoas preparadas e habilidosas. Procure seu ministro, se ele for um homem de experiência; ou peça a um amigo capaz e experiente; fale abertamente de seu caso e peça para que eles lidem com o assunto com sinceridade; continue a agir desse modo até que tenha certeza. Observe que podem restar algumas dúvidas; mas, ainda assim, você deve ter tanta certeza a ponto de conhecê-las a fundo para que elas não interfiram em sua paz.

 

III

Outra ajuda para adoçar sua alma com a antecipação desse descanso é esta: trabalhe para perceber o quanto ele está perto; pense seriamente na rapidez com que ele se aproxima. O que pensamos está ao alcance da mão, e somos mais sensíveis a isso que ao que olhamos à distância. Quando escutamos notícias de guerra ou de fome em outro país, isso não nos perturba tanto quanto as notícias de casa;  quando a praga chegou a uma cidade cerca de trinta quilômetros de distância, nós não a tememos; não tanto quanto se ela tivesse chegado à rua ao lado da minha. Mas se ela chegasse à porta ao lado ou se acometesse alguém de minha família, então começaríamos a pensar sobre o assunto de forma mais emocional. O mesmo que acontece com as misericórdias acontece com os julgamentos. Quando estamos distantes, referimo-nos a eles como maravilhas; mas quando nos aproximamos deles, regozijamo-nos com eles como verdades. Isso faz com que os homens pensem sobre o céu de forma bastante insensível, pois eles presumem que ele está muito distante. Eles olham para o céu como se estivesse distante cerca de vinte, trinta ou quarenta anos; e é isso que embota os sentidos deles.  Certamente, leitor, você está à porta.  Não foram os trinta ou quarenta anos de sua vida que passaram rapidamente? Quando olha para trás, não parece que tudo não passou de um breve período de tempo? E todo o tempo que resta também não será breve?  Olhe-se no espelho e veja como o tempo voa; olhe para seu relógio e veja como ele anda rápido. É muito breve o tempo que nos separa de nosso descanso; estamos a um passo da eternidade! Enquanto penso e escrevo sobre isso, ele se aproxima rapidamente, e entro nele antes que tome consciência disso. Enquanto você lê isso, ele se apressa, e sua vida desaparecerá como uma história que nos foi contada.

 

IV

Outra ajuda para essa vida consagrada é falar muito seriamente sobre ela, especialmente com aqueles que podem falar do fundo de seu coração e já estão permeados por essa natureza divina.  É uma pena que os cristãos gastem tanto tempo em discursos vãos, em altercações tolas e em discussões inúteis, em vez de se dedicarem a falar solenemente a respeito do céu. Acho que deveríamos nos reunir com o propósito de aquecer nosso espírito ao conversarmos sobre nosso descanso.  Se as pessoas comuns se reúnem, elas conversam sobre o mundo;  e os cristãos também não deveriam deleitar-se em falar sobre Cristo, e os herdeiros do céu, sobre sua herança? Isso pode fazer com que nosso coração reavive em nós, como aconteceu com Jacó ao ouvir a mensagem que o chamava a Gósen e ao ver as carruagens que o levariam até José. Ó que estivéssemos equipados, com habilidade e resolução, a converter a cor-rente dos discursos habituais dos homens às coisas mais sublimes e preciosas!

 

V

Outra ajuda para essa vida celestial é esta: tome para si a responsabilidade de elevar seus sentimentos em todas suas atividades para mais próximo do céu. As realizações dos homens e o que eles recebem de Deus são respostas aos desejos e aos objetivos deles mesmos; pois eles acham aquilo que buscam com sinceridade. A finalidade de Deus ao estabelecer suas ordenanças era que elas fossem degraus para nosso descanso, e as escadas por meio das quais, em submissão a Cristo, podemos ascender, em nossos sentimentos, diariamente a ele. Permita que essa seja sua finalidade, como foi a de Deus ao ordená-las, e, indiscutivelmente, essas ordenanças não serão infrutíferas. Embora os homens estejam pessoalmente bem distantes uns dos outros, ainda assim eles podem manter um relacionamento por meio de cartas. Como os homens se alegram com algumas linhas de um amigo, embora não possam vê-lo face a face! Que alegria temos quando lemos as expressões de seu amor; ou quando lemos a respeito da prosperidade e bem-estar de nosso amigo!  E não podemos ter um relacionamento com Deus por meio de suas ordenanças, embora estejamos bem distantes dele? Nosso espírito não pode regozijar-se ao ler essas linhas que contêm nosso legado e nossa garantia de que temos o céu?

Com que alegria podemos ler as expressões de amor e ouvir sobre nossa posição no país celestial! Com que gritos triunfais aplaudimos nossa herança, apesar de ainda não termos a felicidade de vê-la! Homens separados por mares e terras podem, mesmo assim, por meio do relacionamento por cartas, fazer grandes e proveitosos negócios, cujo valor chega às vezes ao equivalente de todos seus bens e suas terras; e os cristãos, por meio da sábia melhoria de suas responsabilidades, não podem seguir adiante com esse feliz intercâmbio para obter esse descanso? Portanto, não venha com finalidades menores as suas responsabilidades; renuncie à formalidade, ao hábito e ao aplauso. Quando você se ajoelha em segredo ou em uma oração coletiva, permita que isso aconteça com a esperança de conseguir com que seu coração chegue mais próximo de Deus, antes de se levantar. Quando você abre sua Bíblia, ou qualquer outro livro, permita que isso aconteça com a esperança de encontrar uma passagem que contenha uma verdade divina, e outras com tantas bênçãos do Espírito, a ponto de seus sentimentos se aproximarem do céu e lhe darem a possibilidade de o saborear mais plenamente. Quando você põe os pés à porta de sua casa, para ir para suas ordenanças ou culto, diga: "Espero que, antes de voltar para casa, obtenha algo de Deus que faça com que meus sentimentos se elevem; espero que o Espírito venha me encontrar e adoçar meu coração com os deleites celestiais; espero que Cristo apareça para mim em meu caminho, brilhe ao meu redor com a luz do céu, e deixe-me ouvir sua voz instrutiva e rever a Gósen reavivadora, e faça com que as escamas caiam de meus olhos para que possa ver a glória de uma forma que jamais vi; espero que antes que volte a minha casa, o Senhor pegue meu coração em sua mão, e traga-o para ter uma visão do descanso, e deposite-o na presença de seu Pai para que eu possa retornar, como os pastores após a visão celestial, glorificando e louvando o Senhor por todas as coisas que ouvi e vi!".  Se essa for nossa finalidade e nosso caminho, quando começarmos nossas responsabilidades, não seremos tão estranhos ao céu.

 

VI

Outra ajuda é esta: faça com que tudo--todo objeto que vir, e toda passagem da divina providência, e tudo que faça parte de suas responsabilidades e chamado--seja proveitoso para lembrar sua alma de seu descanso que se aproxima. Como todas as providências e as criaturas são os meios para nosso descanso, então elas também nos apontam para ele como sua finalidade. Toda criatura tem o nome de Deus e nosso descanso final escritos nela, e isso um crente atencioso pode verdadeiramente discernir, da mesma forma que pode ler, em uma placa em uma encruzilhada, o nome da cidade ou vilarejo na direção em que ela aponta. Esse uso espiritual das criaturas e das providências é a grande finalidade de Deus ao entregar-lhes aos homens; e eles, à medida que ignoram essa finalidade, necessariamente roubam de Deus seu maior louvor e negam grande parte do agradecimento que devem ao Senhor. A relação que nossas misericórdias presentes têm com nossas misericórdias eternas é a quintessência mesma e o espírito de todas essas misericórdias; os homens, portanto, perdem o espírito mesmo de todas as misericórdias e pegam apenas a casca e as migalhas, se ignoram essa relação, e não retiram a doçura delas em sua contemplação. A doçura de Deus, ao lidar conosco agora, se não sugerisse alguma doçura a mais, não representaria nem metade dessa doçura.  Não é a mesma coisa receber dez centavos apenas como dez centavos e recebê-los como sinal de uma fortuna; embora a soma seja a mesma, a relação estipulada faz uma grande diferença. Você, quando recebe suas misericórdias, mas se esquece de sua coroa, pega apenas o simples sinal e ignora a soma total. Ó, no entanto, os cristãos são habilidosos nessa arte!  Se você prosperar no mundo, e se seu trabalho for bem-sucedido, permita que ele o torne mais sensível em relação a sua perpétua prosperidade; se você estiver fatigado de seu trabalho, permita que o pensamento de seu descanso o torne mais doce; se as coisas são contrárias e difíceis para você no mundo, permita que isso o leve a desejar de forma mais genuína aquele dia em que todas suas tristezas e todos seus sofrimentos devem cessar. Seu corpo se revigora com o alimento e o descanso? Lembre-se do revigoramento inimaginável que teremos com Cristo.  Assim, você pode ver que vantagens para a vida consagrada todas as condições e as criaturas nos oferecem, se apenas tivermos coração para apreendê-las e melhorá-las.  E assim como os homens ensinaram seus pombos a levar mensagens a vários lugares, cartas de amizade de um amigo para o outro, percorrendo grandes distâncias, também um cristão sábio e diligente pode levar seus pensamentos ao céu e receber, por assim dizer, resposta de lá pelas mãos de criaturas com asas mais vagarosas que as dos pombos, por meio do auxílio do Espírito, o Pombo de Deus. Esse é o verdadeiro vôo dedáleo; e, assim, podemos tirar de cada pássaro uma pena e fazer uma asa para que possamos voar para Cristo.

 

VII

Outra ajuda singular é esta: esteja muito naquele trabalho angelical de louvor. Como os espíritos mais consagrados se ocuparam das responsabilidades mais consagradas, então quanto mais consagrada a responsabilidade mais ela contribuirá para que o espírito seja consagrado. Embora o coração seja a fonte de todas nossas ações, e as ações, usualmente, sejam da mesma qualidade do coração, ainda assim aquelas ações são um tipo de reflexão e trabalham muito no coração de onde brotam: o mesmo pode ser dito de nossas falas. Assim, o trabalho de louvar a Deus, o trabalho mais consagrado, provavelmente nos eleva à condição mais alta na consagração. Essa é a ocupação daqueles santos e anjos, e essa será nossa ocupação por toda a eternidade. Se nos ocupássemos mais com essa responsabilidade agora, seríamos mais parecidos com o que seremos na outra vida. O emblema mais vivo do céu que conheço na terra é quando o povode Deus, no sentido mais profundo das maravilhas e da recompensa do Senhor, une o coração e a voz nos louvores alegres e melodiosos provenientes do coração cheio de amor e alegria. Aqueles que negam, em nosso tempo, o uso legítimo de salmos da Escritura em cantos revelam seu coração terreno e inexperiente, como também, assim considero, essa compreensão é bastante inadequada e inepta. Se tivessem sentido os deleites celestiais que muitos de seus irmãos que desempenhavam essa responsabilidade sentiram, acho que teriam outra opinião em relação ao assunto.  Mas a doce experiência seria um poderoso argumento e ensinaria o cristão sincero a dedicarse com afinco ao exercício dessa responsabilidade que eleva a alma.Não sabemos como prejudicamos a nós mesmos ao eliminar de nossas orações o louvor a Deus, ou ao permitir que ele tenha espaço tão restrito, como fazemos habitualmente, enquanto somos copiosos em nossas confissões e petições. Leitor, imploro a você para que se lembre disto: permita que os louvores ocupem um espaço maior em suas responsabilidades; mantenha à mão material para alimentar seu louvor, como também suas confissões e petições;  permita que o louvor a Deus esteja muito em sua boca, pois, na boca dos corretos, o louvor a Deus é agradável.  Confesso que em um corpo abatido, em que o coração desfalece, e o espírito é frágil, o louvor alegre a Deus é mais difícil; como o corpo é o instrumento da alma, e quando repousa sem cordas, ou está desafinado, é provável que a música seja conformemente sombria. Ainda assim, quando há alegria espiritual em seu interior, e o coração está alegre, e a voz, no comando, que vantagem isso tem para essa responsabilidade consagrada!

 

VIII

Se você tivesse seu coração no céu, ocuparia sua alma com os pensamentos da fé verdadeira quanto ao infinito e inesgotável amor de Deus. O amor atrai o amor. Nenhum coração humano se ocupa dele, se não o amar muito. Há poucos homens muito vis, mas que amam aqueles que o amam, e assim não são tão desprezíveis. Sem dúvida, ter pensamentos duros e cheios de dúvida em relação a Deus representa a morte de nossa vida celestial.  Se apenas conseguíssemos pensar em Deus da forma que pensamos em um amigo! O Senhor é aquele que verdadeiramente nos ama, muito mais do que nós nos amamos; o coração do Senhor se volta para nós para nos fazer o bem e, portanto, proveu uma habitação eterna para que habitássemos com ele para toda eternidade; então, não seria tão difícil de ter ainda nosso coração com ele. Pensamos com mais doçura e mais constantemente naqueles que amamos com maior fervor; e nada estimularia mais nosso amor que a fé de que ele nos ama. Assim, busque a idéia da natureza amorosa de Deus e armazene todas as experiências e descobertas de seu amor para com você; e, depois, veja se isso não o ajuda a ter uma mente mais con-sagrada e voltada para o céu.

 

IX

Outra coisa que aconselharia você a fazer é isto: seja um observador cuidadoso do mover do Espírito, tema sufocar seus movimentos e resistir a sua obra. Se, alguma vez, sua alma ficar acima da terra esefamiliarizar com a vida do céu, o Espírito de Deus será, para você, o que a carruagem foi para Elias; sim, o princípio mesmo por meio do qual você deve se mover e ascender.  Quando o Espírito o estimula à oração secreta, e você recusa-se a lhe obedecer; quando ele lhe proíbe de prosseguir com suas transgressões conhecidas, e você, mesmo assim, prossegue com elas; quando ele lhe diz qual é o caminho que deve seguir e qual deve evitar, e você não lhe dá ouvidos; nesse caso, não é de admirar que o céu e sua alma não estejam familiarizados um com o outro. Se você não segue o Espírito quando ele o atrai para Cristo e a sua responsabilidade, como ele pode leva-lo ao céu e trazer seu coração à presença de Deus? Ó, aquele que está acostumado a obedecer com freqüência ao Espírito, que ajuda sobrenatural, que acesso ousado sua alma deve encontrar em suas aproximações do Todo-Poderoso.  Suplico a você, leitor cristão, que aprenda bem essa lição e experimente esse caminho; permita que não só os movimentos de seu corpo, mas também os pensamentos de seu coração, estejam no riacho do Espírito. Você, às vezes, não sente um grande impulso para se retirar do mundo a fim de se aproximar de Deus?   Ó, não desobedeça a esse impulso, mas aceite essa oferta e levante a vela enquanto puder ter esse abençoado vento forte. Quando o vento sopra mais forte, você vai mais longe, quer para frente quer para trás. Quanto mais resistimos a esse Espírito, mais profunda é a ferida; e quanto mais obedecemos a ele, mais rápido é nosso passo; como aquele que tem o vento contra sua face se torna mais pesado, também aquele em quem o vento bate em suas costas caminha mais facilmente.

Finalmente, aconselho  que você não negligencie o cuidado devido à saúde do corpo e que mantenha uma alegria vigorosa em seu espírito; e não mime nem agrade demais sua carne. Aprenda como andar com prudência com seu corpo. O servo útil é aquele que dá a seu corpo o que lhe é devido, e só o que lhe é devido; mas ele se torna o tirano mais predador se você lhe der o controle, ou o fizer sofrer para obter o que ele irracionalmente deseja. E ele será como uma faca cega, um cavalo manco, ou um boi inanido, se você o prejudicar ao negar-lhe o que é necessário para sua subsistência. Quando consideramos como o homem muitas vezes ofende seu corpo com os dois extremos, e como poucos deles usam seu corpo corretamente, não é de admirar que haja tantos impedimentos em sua conversão para o céu. Observe isso em especial, você é jovem, e saudável, e cheio de cobiça.

Você ama ter sua faca afiada e todos os instrumentos que usa em ordem: quando seu cavalo caminha cheio de entusiasmo, como você viaja com alegria! A alma também precisa de um corpo sadio e alegre. Se os que abusam de seu corpo e negligenciam sua saúde fizessem apenas mal para a carne, a questão seria de menor importância, mas eles acabam por arruinar a alma também; como aquele que estraga a casa faz malefícios para seus habitantes. Quando o corpo está doente, a disposição definha, e aí nos movemos pesadamente nessas meditações e alegrias! No entanto, quando Deus nega essa misericórdia, é melhor suportar isso, pois o Senhor, muitas vezes, proporciona nosso benefício por meio da negação.

 

Capítulo 16

A DESCRIÇÃO DA GRANDE RESPONSABILIDADE DA

CONTEMPLAÇÃO CELESTIAL

 

Embora espere que o que já foi dito não seja inútil, e que o leitor não porá tudo de lado, ainda assim, mais uma vez, imploro que você estude diligentemente estas orientações a seguir, pondo-as rápida e fielmente em prática, se for um homem que toma consciência da responsabilidade revelada, e que não ousa resistir abertamente ao Espírito, e que é fiel à paz e à prosperidade de sua alma. A prática é a finalidade de toda sã doutrina, e a fé correta põe essa finalidade em ação.Agora, descreverei e revelarei a você a responsabilidade que, sinceramente, o instigo a pôr em prática; e imagino que esteja pronto para perguntar-me: "Qual é esse trabalho tão exaltado?". É a ação solene e bem estabelecida, por meio da meditação, de todos os poderes da alma sobre esse mais perfeito objeto, o descanso.

 

I

O título geral que dou a essa responsabilidade é meditação; não da forma como é precisamente distinguida da cogitação, consideração e contemplação; mas como é compreendida no sentido mais comum e amplo de cogitação das coisas espirituais, e assim também devem ser compreendidas a consideração e a contemplação.Essa meditação é a responsabilidade ordenada por Deus, não apenas em sua lei escrita, mas também na natureza, e jamais encontrei um homem que negasse isso; mas essa é uma responsabilidade que, infelizmente devo admitir, nem os piedosos, no que diz respeito aos meus conhecidos, praticam de forma constante e conscienciosa. Todos confessam com sua boca que essa é uma responsabilidade ordenada por Deus, mas que a negam ao, constantemente, negligenciá-la; e não conheço por meio de qual segurança costumeira acontece que homens, extremamente zelosos com relação às outras responsabilidades, negligenciem esta, como se não soubessem que é uma responsabilidade. Aqueles que se sentem imediatamente perturbados em sua mente quando perdem um sermão, um jejum, uma oração coletiva ou particular, jamais se sentiram perturbados por omitir, às vezes a vida toda, a meditação de suas responsabilidades; apesar de esta ser aquela responsabilidade por meio da qual todas as outras podem ser melhoradas, e por meio da qual a alma digere as verdades e de onde retira a força para nutri-la. E por que tanta pregação se perde em nosso meio, e professores podem passar de sermão em sermão, sem jamais se fadigarem de ouvir ou de ler, e ainda assim têm a mente inanida e faminta? Não conheço causa mais verdadeira e maior que o ignorar e o negligenciar inconsciente da meditação. Se eles ouvissem uma hora e meditassem sete, encontrariam outro tipo de benefício nos sermões, distinto do bem usual que os cristãos ali encontram.

 

II

Mas como a meditação é a palavra geral, e não tenho em mente todo tipo de meditação, apresento aqui o que tenho em mente, mostrando-lhe, portanto, a diferença dessa meditação que o estimulo a fazer, e ela é bem diferente de todos os outros tipos; e a diferença reside no ato e em seu objeto.  Considero o ato como o conjunto de ações solenes de todos os poderes da alma,  pois direcionamos você agora à ação, e não às relações ou às disposições; embora estas estejam pressupostas nessa ação. Qualifica-se para essa responsabilidade, por meio da graça sobrenatural e renovadora do Espírito, todo aquele que deve realizar essa responsabilidade sobrenatural. Essa responsabilidade é para ser executada pelos vivos, não pelos mortos; é o trabalho de todas as pessoas mais espirituais e sublimes e, portanto, não será bem realizada pelo coração meramente carnal e terreno. Também, essas pessoas, necessariamente, devem ter alguma relação com o céu antes que possam conviver ali com familiaridade. Imagino que esses indivíduos sejam filhos de Deus, quando os persuado a amá-lo; e que são da família de Deus, [...] quando os persuado a buscar a presença do Senhor e a habitar com ele. Imagino que eles tenham sua posição nesse descanso garantida, quando os persuado a regozijar-se na meditação desse descanso. Portanto, pressupondo-se que todas essas coisas não são as responsabilidades exigidas aqui, nem as que tenho em mente, gostaria que você fizesse com que suas disposições santificadas entrassem em ação e revissem de forma proveitosa esses sublimes relacionamentos. Hábitos e poderes só servem para nos capacitar a agir. Que benefício tem qualquer poder se não for transformado em ação? Portanto, agora não o exorto a ser um cristão capaz, mas a ser um cristão ativo, de acordo com o grau de habilidade que você tiver. Assim como o armazenamento de dinheiro, de alimentos, ou de roupas, os quais você deixa ao seu lado sem jamais os usar, não serve para nada, exceto agradar seus caprichos, ou fazer com que os outros o admirem mais, também seus dons, poderes e hábitos, ainda em sua alma, sem jamais se converter em ação, trazemlhe pouco, ou nenhum, benefício, exceto o de satisfazer seus caprichos e de fazer com que você seja considerado um homem capaz, se os que estão por perto forem capazes de discerni-los.  Chamo isto de meditação: a ação dos poderes da alma; e quero dizer com isso que a alma é racional para diferenciar isso das cogitações da alma, como a alma sensível tem esse tipo de meditação por meio do senso comum, da fantasia e da apreciação.  A alma, como o corpo, tem seu trabalho e seu descanso; sua ocupação e seu ócio; sua intenção e sua remissão; e os alunos diligentes são comumente sensíveis em relação ao trabalho e à exaustão do espírito e da mente, como o são em relação aos membros do corpo. É essa ação da alma que persuado você a realizar.  Denomino-a de ação de todos os poderes da alma para diferenciá-la da meditação comum dos alunos, que nada mais é que o mero uso da mente. Não me refiro ao simples pensar, nem ao mero uso da sagacidade ou da memória, mas algo cuja natureza é mais sublime e mais magnífica. Quando compreendemos a verdade apenas como verdade, essa é apenas uma compreensão insípida e vaga; mas quando ela é compreendida como algo bom e verdadeiro, essa é uma compreensão rápida e agradável. Assim como o homem não tem propensão para viver de acordo com a verdade que ele conhece, exceto se ela o tocar profundamente, também sua alma não desfruta de sua doçura, exceto se a especulação passar a ser sentimento. A compreensão não diz respeito à alma toda e, portanto, ela não poderia fazer o trabalho todo. Assim como Deus fez várias partes nos homens para desempenhar diversas funções para sua alimentação e vida, também ele ordenou que as faculdades da alma desempenhassem várias funções para sua vida espiritual.  A compreensão precisa pegar verdades e prepará-las para a vontade, bem como precisa recebê-las e recomendá-las aos sentimentos;  os sentimentos são, por assim dizer, a base da alma.  Enquanto a verdade não passar de uma verdade que vaga pela mente, a alma não recebe nem sequer metade dela nem se apega a ela. Cristo e o céu têm várias maravilhas e, portanto, Deus formou a alma com o poder de compreender de diversas maneiras para que possamos ser capazes de compreender essas diversas maravilhas em Cristo. Assim como as criaturas têm diversos usos, também Deus nos deu diversos sentidos para que pudéssemos desfrutar dos deleites deles todos. Se não possuíssemos o sentido do olfato, que benefício teriam para nós os agradáveis aromas das flores e dos perfumes? Se Deus não nos tivesse dado o sentido da audição, que proveito a música e a linguagem teriam para nós? Se fossemos privados do sentido do paladar, que deleite encontraríamos nas carnes, nas bebidas e nos doces? Assim também, que benefício teria para nós toda a glória do céu; ou que prazer teríamos na bondade e na perfeição de Deus, se não tivéssemos os sentimentos de amor e de alegria por meio dos quais somos capazes de nos deleitar nessa bondade? Também que força e doçura proveitosas você possivelmente poderia receber, por meio de suas meditações sobre a eternidade, enquanto não exercitar esses sentimentos, os sentidos da alma, por intermédio dos quais ela recebe essa doçura e força?  Isso foi o que iludiu os cristãos nessa responsabilidade: eles acham que a meditação não passa de meditar sobre as verdades e a transposição dessas verdades para a compreensão e a memória. Portanto, esta é a grande responsabilidade que temos em mãos, e este é o trabalho que gostaria que você iniciasse: fazer com que essas verdades passem de sua mente para seu coração; e com que todos os sermões que ouviu sobre o céu e todos os movimentos que você já concebeu sobre esse descanso possam ser transformados em sangue e espírito dos sentimentos, para que você possa senti-los reavivando-o e aquecendo seu coração, e para que possa pensar sobre o céu da forma como o céu deve ser concebido.Há dois acessos à contemplação, diz Bernardo: um no intelecto e outro no sentimento; um na luz e outro no calor; um por meio da aquisição e o outro por meio da devoção. Se você, enquanto viver, não estudar nada mais a não ser o céu, e tiver seus pensamentos sob seu domínio para levá-los ali em todas as ocasiões que assim desejar, e você não conseguir ir mais longe que isso, essa não seria a meditação que tinha em mente, e ela também não traria muitos benefícios a sua alma nem a deixaria melhor; como é toda sua alma que deve possuir Deus daqui para frente, também o todo, de uma forma menor, o deve possuir aqui.  A mesma porção que você, sinceramente, permitir que Deus trabalhe em sua compreensão e em seus sentimentos, essa também será a porção que desfrutará do Senhor; e esse é o venturoso trabalho dessa meditação. Assim, espero que veja aqui que é preciso fazer algo mais que apenas lembrar-se do céu e pensar sobre ele. Da mesma forma que correr, fazer uma roda e mover-se, como também atividades similares a elas, não só nos fazem mover as mãos ou os pés, mas também utilizam e exercitam o corpo todo, também a meditação utiliza e exercita a alma toda. Se nessa responsabilidade de meditação você exercitar o conhecimento, e os dons, e a fé em milagres, mas não exercitar o amor e a alegria, você simplesmente não faz nada; você faz o papel de uma criança, e não de um adulto; o papel de um pecador, e não de um santo.  Se sua meditação o leva a encher seu caderno de anotações com noções e boas mensagens a respeito de Deus, em vez de encher seu coração de anseio pelo Senhor, de fazê-lo deleitar-se nele, seu livro, pelo que sei, é tão cristão quanto você. Anote a descrição, feita por Davi, de um homem abençoado: "Sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite" (Sl 1.2).  Denominei essa meditação de "ação solene e bem estabelecida" para diferenciá-la daquela que é ocasional e superficial. Assim como há orações solenes, quando nos envolvemos totalmente com a responsabilidade, e outras que são breves e repentinas, comumente chamadas de derramamento, quando um homem, em meio a outras responsabilidades, envia um breve pedido a Deus, também existe a meditação solene, quando nos aplicamos somente a essa responsabilidade; e existe a meditação breve e superficial, quando, em meio a nossas responsabilidades, temos alguns bons pensamentos sobre Deus em nossa mente; e assim como a oração solene é ou, em primeiro, bem estabelecida, quando um cristão, ao considerá-la uma responsabilidade permanente, pratica-a de forma resoluta e constante, ou, em segundo, ocasional, quando alguma ocasião em particular nos leva a praticá-la de forma extraordinária, também a meditação admite esse tipo de diferenciação. Bem, apesar de também o persuadir a fazer essa meditação que se mescla com as responsabilidades corriqueiras de seu chamado, e a que uma ocasião em particular o leve a ela, ainda assim essas não são as principais coisas que aqui tenho em mente; mas gostaria de persuadi-lo a considerá-la como uma responsabilidade constante e permanente, como você ouve a Palavra, e ora, e lê as Escrituras; e que você estabeleça, de forma solene, essa responsabilidade em sua vida e transforme-a, no período em que a pratica, em sua única responsabilidade, e não mais a misture com outras responsabilidades, da mesma forma que você não mistura a oração com outras responsabilidades. Assim, você é capaz de ver, à medida que a diferenciamos por sua ação, a que tipo de meditação nós nos referimos; ou seja, é a ação solene e bem estabelecida de todos os poderes da alma.

 

III

A segunda parte da diferença é retirada de seu objeto, o descanso, ou seja, o estado mais abençoado do homem em seu desfrutar de Deus no céu.  A meditação tem um grande campo em que pode caminhar; e ela tem muitos objetos em que pode trabalhar, como também assuntos e linhas ou palavras das Escrituras, tantos quanto o número de criaturas existentes em toda a criação; e há passagens específicas e bem discerníveis da providência no governo das pessoas e das ações por intermédio do mundo; mas a meditação à qual o direciono diz respeito apenas à finalidade de tudo isso e a essas coisas à medida que se referem a essa finalidade. Ela não é o caminhar da montanha para o vale, do mar para a terra, de reino para reino, de planeta para planeta; mas é o caminhar das montanhas e vales até o santo monte Sião; de mares e terras para a terra dos vivos; dos reinos deste mundo para o reino dos santos; da terra para o céu; do tempo para a eternidade. É o caminhar acima do sol, da lua e das estrelas; é o caminhar no jardim e no Paraíso de Deus. Pode parecer muito distante, mas os espíritos são rápidos, quer no corpo quer fora do corpo; o movimento deles é veloz. Não gostaria que você lançasse fora os outros tipos de meditação; mas, certamente, como o céu tem primazia em perfeição, ele também deve ter a primazia em nossa meditação. Aquilo que nos deixa mais felizes, quando o temos, também nos deixará mais alegres, quando meditamos sobre ele, especialmente quando essa meditação é um grau de posse, se ela for a meditação afetuosa como a que descrevo aqui. São seus sentimentos, mais que sua inteligência e sagacidade, que precisam ser usados nesse prazer divino do qual falamos aqui. Eles são verdades bastante conhecidas e professadas e de onde nossa alma deve retirar os nutrientes para se alimentar.  O conhecimento não tem inimigos, exceto a ignorância.  E ninguém jamais falou contra esse caminho divino, exceto aqueles que não o conhecem nem o utilizarão. Temo mais a negligência do homem que aprova essa meditação que a oposição ou os argumentos contra ela.  A verdade perde mais com seus amigos relaxados que com os inimigos mais ferrenhos.

 

Capítulo 17

QUANTO AO MOMENTO E AO LUGAR MAIS APROPRIADO PARA ESSA CONTEMPLAÇÃO, E A PREPARAÇÃO DO CORAÇÃO PARA ELA

 

Ainda o aconselho: primeiro, no que diz respeito à hora e à época; segundo, em relação ao lugar; e, terceiro, em relação a sua estrutura de espírito.

 

I

Primeiro, por ora, aconselho você a fazer isso, o máximo possível, de forma bem estabelecida e constante. Reserve uma parte de seu tempo para essa responsabilidade. Não dê ouvidos ao escrúpulo daqueles que consideram uma superstição o estabelecimento do período de meditação. Assim como o trabalhador em sua oficina tem um local estabelecido para cada ferramenta e utensílio, ou, caso contrário, quando os quiser usar terá de procurá-los; também o cristão deve ter um local fixo para cada responsabilidade habitual, ou, caso contrário, quando quiser praticá-las é quase certo que ele, na proporção de dez para um, se esquivará dela. Fixar o período salvaguarda nossas responsabilidades, além de nos defender contra as muitas tentações da omissão. Deus não estabeleceu nada além do dia do Senhor, mas permitiu que nós mesmos fixássemos e estabelecêssemos o período de acordo com nossa condição e possibilidade, caso contrário sua lei seria um fardo ou um laço. Ele deixou-nos regras gerais que, por meio do uso da razão e da prudência cristã, podem ajudar-nos a estabelecer o período mais propício para cada um de nós.  Sei que a maioria daqueles que argumentam contra o estabelecimento de um período romperam o laço da responsabilidade e demonstram desgosto mais em relação à ação que ao tempo.  Portanto, aconselho você, se assim puder, a permitir que essa responsabilidade tenha um horário fixo e que você seja constante com ela como o é com o ouvir a Palavra e com a oração. No entanto, tenha cuidado na forma como a compreende. Sei que essa não é uma responsabilidade adequada para todas as pessoas. Algumas pessoas não têm controle sobre sua vida e seu tempo e, portanto, não podem fixar o período que dedicarão a ela. Essas pessoas são, em sua maioria, os servos e as crianças de pais pobres e carnais; e outros são tão pobres que as necessidades de sua família lhe impedirão de ter essa liberdade. Não considero que seja o dever dessas pessoas abandonar o trabalho para realizar essa responsabilidade em alguns momentos específicos e predeterminados; não mesmo, e isso se aplica também à oração e às outras adorações necessárias.  Não, tal responsabilidade é, em todos os momentos, apenas uma responsabilidade.  Acho que essas pessoas devem ser cuidadosas a fim de separar o máximo de tempo possível que puderem e de aproveitar todos os momentos livres que tiverem com as responsabilidades de seu chamado e, especialmente, com a meditação e a oração. Não há inimizade entre a oração e a meditação, ou a oração em Espírito, e as duas podem ser feitas juntas. No entanto, se você não tiver liberdade de escolha, utilize-a de preferência.  Se todo trabalho do dia tiver seu momento bem estipulado, então seremos mais práticos, tanto no que diz respeito ao separar algum tempo como na execução da responsabilidade.Aconselho você também, no que concerne ao período para essa responsabilidade, a estipular o momento para que ela seja feita com assiduidade; não poderia determinar essa assiduidade, pois muitas condições pessoais acabam por interferir nessa determinação.

 Para aqueles que podem facilmente controlar seu horário, aconselho que seja pelo menos uma vez ao dia.  Aqueles que acham que não devem se amarrar a uma série e a uma ordem fixa de responsabilidades, mas que devem apenas orar e meditar quando sentirem que o Espírito os impele a isso, estes caminham em terreno incerto e, definitivamente, não cristão. Tenho certeza que as Escrituras nos instigam à assiduidade, e a necessidade apóia a voz das Escrituras; e se eu, por meio de nossa própria negligência, ou da resistência do Espírito, descobrir que essa atividade não me empolga nem me estimula, ainda assim não ousaria desobedecer às Escrituras, nem negligenciar as necessidades de minha alma.  Nosso apetite não é uma regra segura para garantir os momentos em que me dedico a essa responsabilidade; mas, de modo geral, podemos verdadeiramente ser guiados pela Palavra de Deus, por nossa razão espiritual e nossa experiência, bem como, em particular, por nossa necessidade e conveniência. Três razões em especial deveriam persuadi-lo à assiduidade dessa meditação sobre o céu. Como a convivência ocasional de sua alma com o Senhor alimenta o distanciamento entre vocês; [...] esta é a finalidade principal de sua responsabilidade: que você possa ter familiaridade e comunhão com Deus por meio dela; portanto, se você a praticar apenas ocasionalmente, continuará sendo um estranho e, desse modo, perderá a finalidade desse trabalho.  Além disso, a escassez o torna inábil nesse trabalho e estranho à responsabilidade e a Deus. Como os homens metem mão à obra de forma desajeitada e deselegante em um trabalho com o qual não estão familiarizados! Você, uma vez que a assiduidade habitua seu coração ao trabalho, conhecerá melhor o caminho que percorre diariamente; sim, ele ficará mais fácil e mais agradável também.  O coração, que em si mesmo é obtuso, ficará, por meio da falta de assiduidade, cada vez mais indisposto com essa responsabilidade; é como o potrinho não domado, ainda não habituado a obedecer à mão do cavaleiro, e o qual, dificilmente, se habituará a isso, quando você precisar montálo. Por fim, você perderá o calor e a vida, conquistados com muito esforço, por causa desses grandes intervalos.  Se você conseguir se aproximar de Cristo na santa meditação e aquecer seu coração com o fogo do amor, você logo retorna a sua antiga frieza, se você rejeitar essa responsabilidade e a praticar apenas ocasionalmente. Esse trabalho é tão espiritual e tão contrário a nossa natureza, por melhor que seja ela, que temos a inclinação de seguir nossa tendência natural, como a água aquecida logo esfria se ficar muito longe do fogo, pois essa é sua tendência natural. Aconselho você a escolher o período mais apropriado. Todas as coisas são belas e magníficas quando apreciadas em seu momento apropriado. O momento impróprio pode fazer com que você perca o fruto de seu trabalho. O momento particular para realizar suas responsabilidades diárias pode ser particularmente determinado pelo próprio homem; caso contrário, Deus teria determinado isso em sua Palavra. Mas as condições de emprego dos homens, a liberdade e a tendência natural do corpo são tão variadas que um determinado período do dia pode ser apropriado para uma pessoa, mas inapropriado para outra.  Todo homem conhece melhor seu tempo, mesmo quando ele tem muitos poucos impedimentos em seu trabalho neste mundo. Mas, para aqueles cujas necessidades não os amarram de forma tão rigorosa, pois podem abandonar seus afazeres terrenos para se dedicar a essa responsabilidade e têm mais liberdade quanto à escolha do período do dia mais conveniente, meu conselho é que eles observem a tendência natural de seu corpo e de sua mente e marquem o momento em que seu corpo e sua mente estiverem mais ativos e propensos à meditação, escolhendoo como o momento estabelecido para isso.  Todo homem é o juiz mais apropriado para si mesmo. Apenas permita que apresente a você minha observação quanto ao período que sempre achei mais apropriado para mim: à tardezinha, entre o pôr-do-sol e o crepúsculo; e, algumas vezes, à noite, quando ela está quente e clara. O dia do Senhor é um momento extremamente propício para esse exercício. Quando podemos contemplar de forma mais apropriada nosso descanso que naquele dia de descanso que tipifica esse descanso para nós?  Esse é um dia apropriado para a adoração e as responsabilidades espirituais; assim, acho eu, jamais devemos excluir essa responsabilidade que é tão iminentemente espiritual. Que momento seria mais apropriado para ter convivência com nosso Senhor que o dia que ele separou para isso, o qual, portanto, chama-se de dia do Senhor? Que dia seria mais apropriado para ter convivência com o Senhor que o dia em que nosso Senhor ressuscitou e tomou posse do céu para nós? A tendência natural mais apropriada para o verdadeiro crente é estar no Espírito no dia do Senhor.  Gostaria de persuadir os que estão convencidos disso a gastar grande parte desse dia com essa verdadeira espiritualidade.  Você vai de degrau em degrau até o topo, então utilize o sabá como degraus para a glória, até que os tenha percorrido todos eles e consiga lá chegar. Especialmente, vocês que são homens pobres, e servos, e não conseguem separar um tempo, como gostariam, durante a semana, procure tirar o melhor proveito possível desse dia.  Certifique-se de que, como seu corpo descansa das labutas, seu espírito busque o descanso com Deus.

Para ocasiões extraordinárias, os seguintes momentos são apropriados: quando Deus reaviva de forma extraordinária seu espírito; quando Deus inflama seu espírito com o fogo do alto é o momento em que ele pode elevar-se nas alturas mais livremente. Parte da habilidade de escolha do cristão é observar a tendência de seu espírito e os ventos fortes da graça, bem como o Espírito de Cristo que se move sobre o seu. As pás do moinho não se movem sem o vento; portanto, quando o vento sopra, é preciso deixá-las ir. Certifique-se de que você observa esse vento e essa corrente, para que possa fazer uma viagem mais rápida para o céu.  A maioria dos cristãos, algumas vezes, depara-se com uma atividade incomum de reavivamento e de atividade de seu espírito; considere esses momentos como oportunidades enviadas do céu para elevá-lo até lá; e certifique-se de que, quando o Espírito estiver elevando seu coração da terra, você também se eleva até lá. Quando você for lançado em perturbadores problemas da mente, por meio dos sofrimentos, do medo, dos cuidados ou das tentações, então esse é um momento apropriado para se dedicar a essa responsabilidade. Os momentos em que estamos debilitados não são os mais apropriados para tomar nossos medicamentos? Os momentos em que não sabemos em que canto da terra podemos viver com conforto também não são os mais apropriados para ir até o céu? E os momentos em que não temos mais nada, a não ser a tristeza para conviver conosco aqui embaixo, não são os mais apropriados para que nosso pensamento conviva com o alto? Onde a pomba de Noé deveria estar, senão na arca, quando as águas cobriram a terra e não conseguia achar descanso para seus pés?  Outro momento apropriado para essa responsabilidade divina é quando os mensageiros de Deus nos convocam para a morte.  E os momentos em que achamos que esta vida está praticamente no fim não são os que adoçamos com maior freqüência nossa alma com os pensamentos fervorosos na outra vida?  Certamente, nenhum homem tem maior necessidade da alegria que lhe dê apoio que o que está à beira da morte; essas alegrias devem ser extraídas de nossa alegria eterna.  Como os deleites celestiais são mais doces quando são puros e sem misturas, sem qualquer deleite terreno junto com ele, assim, os deleites do cristão que está à beira da morte são os mais doces que já teve. Portanto, podemos observar, de forma geral, que os santos são mais consagrados quando estão próximos da morte.  E os momentos em que o viajante olha para casa com mais alegria não são os em que sua casa já está à vista?

 

 

II

Agora, falarei sobre o local mais apropriado para essa responsabilidade. Embora a alma fiel possa encontrar a Deus em todos os lugares, ainda assim alguns lugares, para essa responsabilidade, são mais convenientes que outros.  Como essa responsabilidade é particular e espiritual, então é mais conveniente que você se retire para um local particular.  Cristo, nessas ocasiões, considerava apropriado ficar isolado. Se na oração em particular devemos fechar a porta, para que possamos orar a nosso Pai a fim de que nos ouça em secreto, o mesmo se exige dessa meditação. Cristo, com freqüência, se afastava para uma montanha, para o deserto ou para algum outro lugar solitário! Para a meditação ocasional, eu não o aconselho a fazer isso; mas, para sua responsabilidade diária bem estabelecida e solene, aconselho-o a retirar-se da companhia de toda e qualquer pessoa, sim, até da companhia de homens piedosos, para que possa desfrutar por algum tempo a companhia de Cristo. Se um aluno não consegue estudar na multidão, atividade que requer apenas sua sagacidade e memória, muito menos você consegue concentrar-se quando tem de exercitar todos os poderes de sua alma, e isso em relação a um objeto muito acima da natureza. Quando seus olhos se enchem com as pessoas e as ações dos homens, e seus ouvidos, com seus discursos, é mais difícil fazer com que seus pensamentos e sentimentos fiquem livres dessas ocupações. Não o persuadiria a buscar a caverna de Pitágoras, nem o deserto do ermitão e, tampouco, a cela do monge, mas eu o aconselharia a freqüentar a solidão para que possa ter convivência com Cristo e consigo mesmo, como também com os outros. Fugimos tanto da solidão da superstição que lançamos fora a solidão da devoção contemplativa.  Apenas em algumas raras ocasiões lemos que as aparições de Deus, ou de seus anjos, a um de seus profetas aconteceu em meio à multidão, pois isso, geralmente, acontecia quando eles estavam sozinhos.E como aconselho você a ir para um lugar isolado, também o aconselho a perceber qual o local e a postura que estão mais de acordo com seu espírito; se dentro de casa ou fora dela; se sentado ou caminhando.  Cristo tinha seu local habitual e, por conseguinte, sua responsabilidade habitual, e nós também devemos fazer o mesmo. Cristo tinha um local solitário em que se isolava mesmo de seus discípulos, e nós também devemos fazer o mesmo; as meditações de Cristo vão mais longe que seus pensamentos; elas afetam e tocam seu coração, e o mesmo deve acontecer com o nosso. Só há uma grande diferença no objeto.  Assim como a meditação de Cristo era a comporta, ou a eclusa, que permitia que o inferno inundasse seus sentimentos, também nossa meditação deve ser a comporta que permite que o céu entre em nossos sentimentos.

 

III

A seguir, aconselho-o quanto à preparação de seu coração. O sucesso do trabalho depende muito da disposição de seu coração. Quando o coração do homem não tem nada que possa desagradar o Espírito, então ele é a agradável habitação de seu Criador. Deus não desistiu de habitar ali, até que o homem o rechaçou dali por meio de provocações indignas. Ali não havia estranheza até que o coração passou a ser pecaminoso, uma masmorra muito repugnante para que Deus tivesse prazer ali. E se a alma retornasse a sua primeira inocência, Deus, rapidamente, retornaria a sua antiga habitação; sim, desde que fosse renovada e restaurada pelo Espírito, purgada de suas cobiças, e embelezada com sua imagem, [...] o Espírito, certamente, pegaria essa alma para ali habitar e fazer seu templo. A porção que a alma se qualifica para conviver com Deus, essa também é a porção que ela pode realmente desfrutar do Senhor. Portanto, com toda diligência, "guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida" (Pv 4.23).

Mantenha seu coração o mais separado do mundo quanto puder; livre-se inteiramente de pensamentos relacionados a seus afazeres, seus problemas, suas alegrias e tudo que possa ocupar algum lugar em sua alma. Esvazie sua alma o máximo que puder e, assim, ela será mais capaz de encher-se com Deus. Essa é uma responsabilidade que exigirá todos os poderes da alma, se eles tivessem capacidade e atividade mil vezes maior que têm, e, portanto, você precisa deixar de lado todos os outros pensamentos e sentimentos, enquanto estiver ali ocupado. Assim, quando você chegar ao monte da contemplação, encontrará ali a porção de Deus e de sua glória que seu coração pode suportar; e quase nada, exceto a incapacidade de seu espírito, pode impedi-lo de ter a posse plena dessa bênção. Portanto, leitor, considerando-se que o desfrutar de Deus nessa contemplação depende muito da disposição de seu coração, certifique-se de que todo o espaço disponível esteja vazio; e, se vier a buscá-lo, busque-o aqui com toda sua alma: não jogue Cristo no estábulo nem na manjedoura, como se você tivesse hóspedes melhores para os quartos principais. Certifique-se de que tem bem estabelecido esse grande trabalho, e faça-o com a maior seriedade possível. O hábito é aqui um pecado mortal. Não é possível aceitar bagatelas para as coisas sagradas: Deus será santificado por todos que se aproximam dele. Essas responsabilidades espirituais e magníficas que elevam a alma, dentre todas elas, são muito perigosas, se malograrmos nelas. Quanto mais elas fazem a alma progredir, ao ser bem utilizadas, mais também elas podem destruí-la, se forem utilizadas de forma irresponsável.  Trabalhe para ter a compreensão mais profunda da presença de Deus e da grandeza imensurável da majestade da qual se aproxima.  Trabalhe para compreender a grandeza do trabalho que você tenta realizar e fique sensível tanto em relação a seu peso quanto a sua altura, tanto em relação a sua importância quanto a sua maravilha. Se você estivesse implorando por sua vida no tribunal do júri, certamente trataria o assunto de forma séria; mas esse assunto seria irrelevante quando comparado com essa responsabilidade divina. Considere também a abençoada questão do trabalho, se você for bem sucedido. Será sua admissão na presença de Deus; o início de sua glória eterna na terra; um meio para fazer você viver acima do padrão dos outros homens, em que será admitido na sala seguinte onde se encontram os anjos; um meio para fazer você viver e morrer de forma alegre e abençoada; e, como o prêmio é tão grande, sua preparação deve ser responsável. Não há nada na terra que tenha uma vida tão alegre e abençoada quanto aqueles que estão acostumados com essas conversas celestiais. As alegrias de todos os outros homens não passam de brincadeira de criança, de risos de um louco; elas são como o sonho de saúde para o doente, ou como o pasto verdejante e viçoso para a besta faminta. Aquele que tira proveito do céu é o único ganhador; e o que o negligencia é o único perdedor. Portanto, imagine como a realização desse trabalho deve ser encarada de forma séria!

 

 

Capítulo 18

A CONSIDERAÇÃO COMO INSTRUMENTO DESSA RESPONSABILIDADE; E QUE FORÇA ELA TEM PARA MOVER A ALMA

 

Após mostrar a você como deve realizar essa responsabilidade, começo, agora, a direcioná-lo para a responsabilidade em si a fim de indicar-lhe que caminho deve pegar para realizá-la. Tudo que disse foi apenas para afinar o instrumento, o coração, e, agora, passamos para a música em si.  O grande instrumento para a realização dessa responsabilidade é o raciocínio, arrazoando o caso consigo mesmo, o discurso da mente, ou o pensamento; ou, se preferir, chame-a de consideração.  A alma do homem, à medida que ela recebe e retém as idéias, ou dá forma às coisas, tem também o poder de escolher qualquer uma dessas idéias ali depositadas, suscitá-la e, vez após vez, agir nela. Este é o poder que você precisa usar aqui: para a escolha das idéias ou dos assuntos para sua cogitação é forçoso que haja o ato da vontade, algo que deve acompanhar a responsabilidade do início ao fim; pois essa deve ser uma cogitação voluntária, não forçada.  A seguir, veremos a força que a consideração tem para mover os sentimentos e para gravar coisas poderosas no coração. Primeiro, a consideração, por assim dizer, abre a porta existente entre a mente e o coração; a compreensão, ao receber as verdades, as armazena na memória; bem, a consideração é o que as converte para os sentimentos; há alguns poucos homens cuja compreensão, ou memória, é muito fraca, mas, mesmo assim, eles têm conhecimento e podem se lembrar daquilo que, de modo singular, trabalha neles e faz grandes alterações em seu espírito, se as informações não estivessem enclausuradas em sua mente, e se eles pudessem transportá-las para seu coração: bem, essa é a grande responsabilidade da consideração. Ó que homens raros seriam aqueles que têm mente firme, bem como muito conhecimento e cultura, se apenas as obstruções existentes entre a mente e o coração fossem abertas, e seus sentimentos correspondessem à compreensão. O melhor erudito é o que tem a passagem entre o ouvido e a mente mais disponível e mais disposta, mas o melhor cristão é o que tem a passagem da mente para o coração mais disponível e mais disposta; bem, consideração é aquilo que, por nossa atuação, abre essa passagem, embora o Espírito seja a principal causa dessa abertura. Questões de grande peso, as quais nos dizem mais respeito, são as mais aptas a trabalhar de forma mais eficaz no coração. Bem, a meditação apresenta esses objetos nos quais devemos trabalhar e os apresenta aos sentimentos de acordo com o peso e o valor que têm. O objeto mais agradável não agrada àquele que não o vê; nem as notícias mais alegres afetam aquele que não as ouve. Bem, a consideração apresenta diante de nós aqueles objetos que pareciam estar ausentes e os trazem à vista do olho e do ouvido da alma. Cristo e a glória não são objetos que nos afetam? Eles não fariam maravilhas na alma se fossem claramente descobertos, e também não nos transportariam de forma singular, se nossa compreensão respondesse apenas um bocadinho a seu valor? Eles são apresentados a nós pela consideração: esse é o espelho em perspectiva, e muito aguardado, do cristão, pois através dele ele pode ver o céu a partir da terra.  À medida que a consideração traz à luz objetos de mais peso, ela também os apresenta de uma forma mais comovente e afetuosa e os pressiona a ir para casa com argumentos mais convincentes e fortes. O homem é uma criatura racional e apta a mover-se de uma forma racional, especialmente quando os raciocínios são evidentes e fortes. Bem, a consideração é o raciocínio do caso com o coração, e uma grande quantidade de raciocínios, tanto claros quanto de peso, está sempre à mão para que trabalhem no coração! Quantos argumentos se oferecem a si mesmos para essa responsabilidade! Meditação é a mão que apresenta todos eles; e acontece algo similar a quando você pesa algo na balança: você pesa e, depois, põe um tanto a mais, e um pouquinho mais, até que alcance o peso exato que você quer; seus sentimentos ficam ali em insípida indiferença, e a meditação apresenta o argumento racional, um após o outro, até que a balança acaba por mudar de posição. Ou, acontece algo similar a quando está comprando alguma coisa que necessita para seu uso pessoal, pois você barganha um pouco mais, e mais um pouquinho, até que chegue ao preço que o vendedor aceite; e a meditação o persuade a alegrar-se ao apresentar-lhe primeiro um raciocínio, e depois outro, até que todas suas dúvidas e seus sofrimentos sejam silenciados, e a razão para você alegrar-se fica ali bem diante de você.  A meditação nada mais é que a leitura das razões de Deus para nosso coração e o compartilhamento delas com o centro de nossas emoções. E não é provável, portanto, que esse seja o modo predominante?    E eles todos devem ser postos em ação pela consideração.  A meditação põe a razão na área em que esta é autoridade e superior. A meditação ajuda a libertar a razão para os sentimentos e os coloca novamente no trono da alma. Quando a razão silencia, ela usualmente está subjugada, pois quando ela adormece, os sentidos dominam. Bem, a consideração desperta nossa razão de seu sono, até que ela mesma se levante, como Sansão, e quebre as amarras da sensualidade por meio da qual ela é acorrentada; e, assim, como o gigante que se revigorou, ela derrota as ilusões da carne que estão defronte dela.  A razão espiritual é estimulada pela meditação, e não pelo sentido carnal nem pela fantasia, os quais devem saborear e avaliar essas alegrias superiores. A consideração exalta os objetos da fé e discorda, por meio da comparação, dos objetos do sentido. A meditação também põe a razão para atuar com todas suas forças. A razão é mais forte quando está em ação. Bem, a meditação transforma a razão em ação. Antes ela não passava de água parada, ou seja, que não pode mover nada mais se ela mesma não for movida; mas, agora, ela é como o rio que corre rapidamente e carrega tudo que está em seu caminho. Antes ela não passava de ar parado e silencioso; mas, agora, ela é como a poderosa força motriz do vento, derrubando a oposição da carne e do demônio. Antes era como as pedras que ficam paradas no riacho; mas, agora, quando a meditação a põe em moção, é como a pedra na atiradeira de Davi que derruba o Golias de nossa descrença com uma pedra na testa. Assim como os homens perversos continuam perversos, não por que eles não tenham razão em princípio, mas por que não trazem a razão em ação nem a põem em uso, também os homens piedosos sentem-se desconfortáveis e ficam tristes, não por que não tenham motivos para regozijar, nem por que não tenham razão para discernir essas causas, mas por que eles permitem que sua razão e sua fé adormeçam e não trabalham para as por em ação, nem as estimulam a entrar em ação por meio dessa responsabilidade da meditação. A meditação pode descontinuar esse emprego discursivo. Isso pode ser conseguido por uma moção mais fraca e contínua que, na primeira tentativa, não resultará em um movimento mais forte. O emplastro que não é tão eficaz para curar precisa de tempo para causar algum efeito e não pode ser retirado assim que for colocado. Bem, a meditação segura o emplastro na ferida; ela segura a fé e a razão em seu trabalho e sopra a chama até que ela realmente acenda e aqueça todo o ambiente. Correr alguns passos não aquece o homem, mas andar por uma hora pode aquecê-lo. Assim, embora um pensamento repentino e ocasional sobre o céu não fará com que nossos sentimentos se elevem até algum calor espiritual, a meditação pode fazer com que nossos pensamentos prossigam e prolonguem nosso caminhar até que nosso coração se aqueça.  E, assim, você pode perceber que força a meditação, ou a consideração, tem para efetuar essa grande elevação da alma, para qual responsabilidade, conforme já afirmei, ela deve ser o instrumento.

 

Capítulo 19

QUE SENTIMENTOS DEVEM SER PRODUZIDOS, E POR MEIO DE QUAIS CONSIDERAÇÕES E OBJETOS, E EM QUE ORDEM

 

Suponho que, por ora, você já tenha visto quais são os objetos que precisam mover nossos sentimentos, e que poderes da alma compreendem esses objetos. No entanto, para melhor ajuda-lo, eu o direcionarei de forma mais direta nesses muitos particulares. Você deve, por meio da cogitação, ir até a memória, o armazém e o depósito da compreensão; assim, precisa separar aquelas doutrinas divinas que você tem a intenção de tornar o assunto de sua meditação. Para nosso propósito presente, você pode buscar qualquer promessa de vida eterna no evangelho; qualquer descrição da glória dos santos, ou as passagens a respeito da ressurreição do corpo e da vida eterna. Algumas das declarações sobre as alegrias eternas podem ser assunto de sua meditação por muitos anos; no entanto, seria sábio ter sempre um estoque de assuntos em sua memória, para que quando os usássemos, pudéssemos separar em nosso tesouro as coisas novas das velhas. Pois um homem bom tem um bom tesouro em seu coração de onde retira coisas boas.  Quando você extrai de sua memória o assunto de sua meditação, seu próximo passo é apresentá-lo a seu julgamento. Abra essa caixa o máximo que puder, apresente os vários ornamentos da coroa, as muitas dignidades pertencentes ao reino, como foram parcialmente apresentados no início deste livro. Permita que seu julgamento examine tudo isso e faça uma vistoria, a mais precisa que puder. A seguir, apresente a questão e exija uma deliberação: há felicidade nisso tudo, ou não? Não tenho aqui o suficiente para me abençoar? Aquele que realmente tem a Deus pode desejar alguma outra coisa? Existe algo mais alto que a criatura possa alcançar? Assim, peça que seu julgamento apresente uma sentença reta e constranja-o a sancionar a perfeição de sua felicidade divina, bem como a deixar essa sentença registrada com sua assinatura embaixo.  Exercite, dessa forma, seu julgamento na contemplação de seu descanso.  Mas o grande trabalho (que você pode ou estabelecer de antemão ou acrescentar a ele conforme desejar) é exercitar sua crença na verdade de seu descanso, em relação tanto à verdade da promessa quanto também à verdade de seu próprio interesse e posição. Produzo os argumentos mais fortes para as verdades das Escrituras; advogue em favor deles contra sua natureza descrente; responda a todas as objeções da infidelidade e as silencie; leia as promessas; estude todas as providências confirmadas; traga à lembrança todas suas experiências pessoais já registradas; lembre-se de todas as profecias das Escrituras já cumpridas, tanto em relação à igreja e aos santos de épocas passadas, como também aquelas que foram cumpridas em sua vida. Prepare os argumentos mais claros e convincentes e deixe-os ao seu lado.

E, à medida que você, dessa forma, produz seu consentimento à promessa, também produz sua aceitação, sua adesão, seu compromisso e sua certeza. Esses são os quatro passos da aplicação da promessa a vocês mesmos. Apresente, diante de sua fé, a graciosidade e a universalidade da promessa. Considere a oferta de Deus e persuada a todos sobre ela; e diga que o Senhor não espera uma aliança condicional com homem algum do mundo; nem excluirá do céu ninguém que aceitar sua oferta. Estude também as graciosas disposições de Cristo e sua presteza em acolher e dar as boas-vindas a todos que vierem a ele. Estude todas as evidências de seu amor, as quais podem ser vistas em seus sofrimentos, em sua pregação do evangelho, em sua condescendência para com os pecadores, em sua extremada paciência e em seus convites insistentes e prementes. Isso tudo não desvela sua presteza em salvar-nos? Ele alguma vez demonstrou relutância ou má vontade? Lembre-se também de sua fidelidade para cumprir seus compromissos. Estude também as evidências de seu amor em você mesmo; examine as obras da graça em sua alma. Se você não encontrar a condição, ou a medida, que deseja, ainda assim não negue a condição, ou a medida, que encontrar; procure mais a sinceridade que a quantidade.  Lembre-se de todos os testemunhos anteriores do Espírito, e de todas as doces graças de Deus, e de todas as orações que ele ouviu e respondeu, e todas os excepcionais livramentos e resguardos, e todo o progresso do Espírito ao trabalhar em sua alma, e todos os arbítrios da providência para o seu bem; a ministração dos ministros para ajudá-lo em sua condição momentânea; o constrangimento daqueles pecados que você tem mais propensão em praticar;  ponha-os todos juntos e, a seguir, pense consigo mesmo se tudo isso não testifica da boa vontade do Senhor com relação a sua salvação, e se não podem ser apresentados para rebater sua incredulidade. Assim, quando sua meditação prosseguir com a verdade de sua felicidade, a parte seguinte do trabalho é meditar sobre sua bondade; isso, portanto, pode passar adiante e despertar seus sentimentos.

 

I

O primeiro sentimento que deve ser acionado é o amor; o objeto dele é a bondade. Cristão, em seu trabalho, esta é a parte de reavivamento da alma. Vá a sua memória, a seu julgamento e a sua fé e, a partir deles, produza as maravilhas de seu descanso; pegue uma cópia dos registros do Espírito nas Escrituras e outra da sentença registrada em seu espírito, por meio dos quais se declara a glória transcendente dos santos; apresente-os aos sentimentos de seu amor; abra o armário que contém a pérola para seu amor, mostre-lhe a promessa, e também que esta está garantida. Você não precisa olhar para o céu através de um espelho de aumento; abra apenas uma fresta para que o amor possa dar uma olhada ali; apenas um vislumbre das costas de Deus, e você é imediatamente transportado para outro mundo; apenas fale, e o amor o ouvirá; apenas revele essas coisas, e o amor as verá. Cego é apenas o amor bruto do mundo; o amor divino é extremamente perspicaz. Permita que sua fé, por assim dizer, leve seu coração pela mão para mostrar-lhe os prédios suntuosos de sua habitação eterna e os gloriosos ornamentos da casa de seu Pai; e que ela lhe mostre as mansões que Cristo está preparando para nós e apresente diante de seu coração as honras do reino. Permita que a fé leve seu coração à presença de Deus e faça-o se aproximar o mais possível, dizendo: "Este é aquele que fez os mundos com sua Palavra; este é a Causa de todas as causas, a Origem de toda ação; a Fonte da vida, o Princípio Primeiro dos movimentos das criaturas;  este é aquele que o amou desde a eternidade; este é o Senhor que o abençoou com esses benefícios". Assim você deve discorrer sobre os louvores de Deus e abrir as maravilhas do Senhor ao seu próprio coração, até que você comece a sentir a vida se mover, e o fogo em seu peito a se ascender. Assim como olhar atentamente a beleza empoeirada da carne ascende o amor carnal, também olhar atentamente a glória e bondade do Senhor ascende esse amor espiritual na alma. Os condimentos esmagados realçam seu aroma, e o perfume em contato com a pele espalha sua doçura. Portanto, mova sua alma em meio a esses objetos cheios de deleite; lance, com freqüência, essas cogitações em seu coração; esfregue todos seus sentimentos com eles, da mesma forma que esfrega suas mãos para aquecê-las: como se seu coração fosse duas pedras que de tanto ser golpeadas podem produzir o fogo!

 

II

O próximo sentimento, ou graça, a ser estimulado é o desejo. O objeto dele é a bondade, ausente ou ainda não alcançada. E isso é algo necessário para o amor, e se o amor for quente, garanto a você que seu desejo não será frio. Quando você vir a bondade do Senhor, então prossiga com sua meditação. Pense consigo mesmo: ó glória incompreensível e maravilhosa! Ó beleza rara e transcendente! Ó abençoadas almas que agora desfrutam dela! Que diferença existe entre o meu estado e o delas! Eu suspiro, e elas cantam; eu peco, e elas agradam a Deus;  estou aqui enredado nesse amor do mundo, enquanto elas são elevadas com o amor de Deus; vivo realmente em meio aos recursos da graça, mas não tenho nenhuma das visões instantâneas que elas têm de Deus, nem a comunhão com o Senhor que elas têm. Elas não têm nenhum dos meus cuidados e temores; não choram em segredo; não definham em sofrimentos; essas lágrimas já foram enxugadas dos seus olhos.  Quão pouco tenho eu desse Deus, desse Cristo, desse Espírito, dessa vida, desse amor e dessa alegria!  De vez em quando, uma faísca cai em meu coração e logo, ainda enquanto a observo, apagasse; mas elas têm sua luz na luz do Senhor e vivem continuamente na nascente das alegrias!  Se minha alma está muito distante de Deus, não é de admirar que agora reclame daquilo que me aflige. Portanto, permita que seus pensamentos se elevem; portanto, estimule os desejos de sua alma com essas meditações até que sua alma anseie, como Davi, pela água da cisterna da porta de Belém e diga: "Ó aquele que me der de beber água das fontes da salvação!".

 

III

O próximo sentimento a ser estimulado é a esperança. Ele é particularmente útil para a alma. Ajuda, de forma extraordinária, a apoiá-la em momentos de sofrimento; ela encoraja-nos a ousar em meio às grandes dificuldades; ela estrutura firmemente a alma nas tribulações mais tremendas; ela aviva consideravelmente a alma em suas responsabilidades e é a mola que põe todas as rodas em movimento. O marinheiro sairia ao mar e o mercador se aventuraria em terras estranhas, se não tivessem esperança de segurança e sucesso? O fazendeiro araria a terra, plantaria e esforçar-se-ia, se não tivesse esperança de aumentar sua colheita? O soldado lutaria, se não esperasse obter a vitória? Com certeza, nenhum homem se aventuraria diante de impossibilidades. Se sua esperança morrer, suas responsabilidades morrem, seus esforços morrem, suas alegrias morrem, e sua alma morre; e se sua esperança não for ativada, mas ficar adormecida, ela está bem perto da morte, tanto na semelhança quanto na preparação. Permita, portanto, que a fé lhe mostre a verdade da promessa e o julgamento da bondade das coisas prometidas; e o que falta para o aumento de sua esperança? Mostre a sua alma, a partir da Palavra, das misericórdias e da natureza de Deus, que possibilidade, sim, que probabilidade, sim, que certeza você tem de possuir a coroa. Portanto, pense e arrazoe sobre isso em seu coração; por que eu não deveria esperar de forma confiante e confortável, quando minha alma está nas mãos de tão compassivo Salvador? Ele, alguma vez, manifestou alguma relutância para me fazer o bem?

Como ele me seguiu de lugar a lugar, e seu Espírito solicitou incessantemente meu coração, com sugestões convincentes e persuasões proveitosas para o meu bem!  Cristo destruiu as impossibilidades e apresentou uma esperança melhor por meio da qual podemos agora chegar mais perto de Deus.

 

IV

O próximo sentimento a ser estimulado é a coragem, ou a ousadia, pois ela nos leva à resolução e resulta em ação. Portanto, coragem quando seu amor, seu desejo e sua esperança tiverem aumentado, siga em frente e pondere consigo mesmo: Deus realmente habitará com os homens e existe essa glória ao alcance da esperança? Então, por que não lanço mão disso? Onde está o vigor alegre de meu espírito?  Por que não corro com presteza a carreira diante de mim e não venço valentemente toda a resistência? Por que não conquisto esse reino pela força, e minha alma fervorosa não apreende esse lugar?  Tenho de iniciar esse trabalho com minhas próprias forças, ou seria melhor utilizar a força de Cristo, meu Senhor? E eu não posso fazer tudo isso por meio dele que me fortalece?  Eles conseguiriam pegar as ovelhas antes de vencer o pastor? Portanto, por que minha carne apresenta para mim as dificuldades e realça, de forma veemente, a enormidade e as dificuldades desse trabalho? Cristo é quem deve responder a todas essas objeções, e que dificuldades podem impedir a atuação de seu poder? Há algo muito difícil para nosso Deus onipotente?  Ó abençoado descanso! Ó condição mais inestimável e gloriosa!  Quem não se esforçaria, e lutaria, e vigiaria, e correria, e isso com impetuosidade, até o último fôlego, para que pudesse, por fim, ter esperança de alcançar ao Senhor? Certamente, todos, a não ser aqueles que não o conhecem e não crêem em sua glória. Portanto, veja que tipo de meditação pode estimular sua coragem e despertar suas resoluções.

 

V

O último sentimento a ser estimulado é a alegria. Esta é a finalidade de todo descanso: amor, desejos, esperança e coragem, tudo contribui para aumentar nossa alegria. Por ora, você, se já desempenha bem a antiga responsabilidade, pode entrar no horizonte de seu descanso; você crê que ele é real; está convencido de sua maravilha; já se apaixonou por ele; e anseia por ele; espera por ele; e está determinado a, corajosamente, aventurar-se para obtê-lo; mas há algum trabalho para a alegria nisso tudo? Nós nos deleitamos no bem que possuímos; o objeto da alegria é o bem presente, mas você dirá: "Ai de mim! Ainda não o tenho". Mas, ainda assim, prossiga um pouco mais com seu pensamento. Embora a presença real nos proporcione a mais sublime alegria, ainda assim a presença de sua idéia, ou imagem, imperfeita em minha compreensão pode me proporcionar uma grande porção dessa verdadeira alegria. Não representa nada ter um comprovante dessa dádiva de Deus? Suas promessas infalíveis não são motivo de alegria?  Minha garantia de que um dia serei glorificado não é motivo suficiente para a alegria inexprimível? Não é um deleite para o herdeiro do reino pensar no que terá daqui para frente, embora, no momento, ele não difira muito de um servo? Não ordenaram que me alegrasse na esperança da glória de Deus?    Então, leitor, aqui, leve seu coração, por assim dizer, mais uma vez pela mão; traga-o ao topo da montanha mais alta; e, se possível, para algum Atlas, até acima das nuvens. Mostre-lhe o reino de Cristo e sua glória. Diga-lhe: "O Senhor entregará tudo isto àquele que crer nele e o adorar. O Pai agrada-se em dar a você este reino. Você vê esta glória magnífica acima de você? Tudo isto é sua herança; esta coroa é sua; estes prazeres são seus; essa assembléia é sua; este lindo lugar é uma coisa, e todas as coisas são suas, pois você é de Cristo, e Cristo é seu".  Portanto, leve seu coração à terra prometida; mostre-lhe as agradáveis montanhas e os vales frutíferos; mostre-lhe os cachos de uva que você apanhou; e, por meio disso tudo, convença-o de que essa é a terra abençoada da qual mana algo melhor que leite e mel: entre nas portas da cidade santa, caminhe pelas ruas da nova Jerusalém, ande pelo monte Sião, dê a volta nele, observe as torres desse lugar, distinga bem seus costados, olhe os palácios, para que depois possa contar a sua alma. Ela não tem a glória de Deus, e sua luz não se assemelha à pedra mais preciosa?

Prossiga ainda mais, pois é feliz a alma (assim afirma Austin) que ama subir com freqüência ao céu e corre com familiaridade pelas ruas da Jerusalém celeste, visitando os patriarcas e os profetas, saudando os apóstolos, admirando os exércitos dos mártires e dos confessores. Assim é que você deve levar seu coração, de rua em rua, até que entrem no palácio do grande Rei; leve-o, por assim dizer, de sala em sala; diga-lhe: "Aqui é onde morarei, aqui é onde viverei, aqui é onde louvarei, aqui é onde amarei e serei amado. Ocuparei meu lugar em meio a essa assembléia. Minha choupana de barro será substituída por esse palácio, e os farrapos que uso nesta prisão, por essas vestes esplendorosas.  Aqui beberei a água do rio dos prazeres: "um rio cujos canais alegram a cidade de Deus" (Sl 46.4). E não receberei com alegria tamanho bem, tal reparação por todas minhas perdas?

Portanto, por que eu não me levanto do pó e deixo de lado meus tristes lamentos, fazendo cessar minha dolorosa e plangente nota? Por que não esmago meus vãos deleites para alimentar-me dos deleites da glória que antevejo? Por que minha vida não é uma alegria contínua e o sabor do céu não está perpetuamente em meu espírito? E, desse modo, caro leitor, eu o direcionei para que pusesse em ação essa alegria. Também gostaria que você entendesse que não considero uma necessidade manifesta que você ponha em ação todos os sentimentos mencionados nessa ordem e de uma vez, ou apenas em uma responsabilidade. Talvez, algumas vezes, você sinta um sentimento de forma mais manifesta que os outros e, assim, ter mais necessidade de estimulá-lo; ou você pode achar um sentimento mais inspirador que os outros e, assim, achar que é mais apropriado ajudá-lo a se apresentar; ou ainda, se seu tempo é curto, você pode trabalhar em um sentimento um dia, e, no dia seguinte, em outro, conforme seu interesse. Tudo isso deixo a seu próprio critério.

 

Capítulo 20

POR QUAIS AÇÕES DA ALMA SE DEVE PROSSEGUIR NESSE TRABALHO DA CONTEMPLAÇÃO CELESTIAL

 

A quarta parte deste diretório serve para mostrar a você como prosseguir e por quais ações deve alcançar o ápice desse trabalho.  Pois a mera cognição, se não for estimulada a ir para casa, não toca nem afeta o coração; portanto, devemos proceder para o segundo passo, chamado solilóquio, que nada mais é que defender o caso com sua alma.  Assim, em sua meditação, você precisa estimular seu coração: entre em sério debate com ele; argumente com ele utilizando a linguagem mais comovente e afetuosa; use-a com os argumentos mais de peso e mais poderosos. Esse solilóquio, ou conversa consigo mesmo, foi o que os homens santos de Deus, de todas as épocas, praticaram;  portanto, esse caminho que o persuado a trilhar não é novo, mas aquele que os santos sempre utilizaram em sua meditação.  Esse solilóquio tem várias partes, e é exatamente esse método que deve ser seguido. As partes dele estão de acordo com os vários sentimentos da alma; e de acordo com as várias necessidades dela, de acordo com os vários argumentos a ser utilizados, e de acordo com as várias formas de argumentar.  Assim como todo chefe e pai de família é um bom pregador para os seus, também todo bom cristão é um bom pregador para sua alma. O solilóquio é pregar para si mesmo.  Primeiro, explique a si mesmo o assunto sobre o qual medita, tanto os termos como o assunto; estude as dificuldades até que a doutrina fique bem clara. Segundo, confirme sua fé ao crer nisso, por meio das mais claras e convincentes razões, conforme expostas nas Escrituras. Terceiro, depois aplique esse assunto de acordo com a natureza dele e com sua necessidade pessoal, como acontece com o assunto de que tratamos agora: há um descanso para o povo de Deus.  E se esse processo revelar sua negligência e outros pecados contra esse descanso, então prossiga com a repreensão e censura de você mesmo; admoeste seu coração por suas omissões e comissões e faça isso até ele realmente sentir uma dor muito profunda. Você deve fazer com seu coração o que o pai, ou o mestre, faz quando repreende a criança, até que ela comece a chorar e se sensibilize com seu erro; isso se chama o uso da repreensão. Assim que descobrir que tem sido fiel com a responsabilidade, então comece a encorajar a si mesmo e a agradecer a Deus; e você pode considerar os muitos exageros da misericórdia do Espírito que o capacitou a chegar até esse ponto. Pressione seu coração a cumprir todas as responsabilidades externas que devem ser realizadas em seu caminho para o descanso, quer em adoração quer em convivência civilizada, quer em particular quer em público, quer de forma habitual quer de forma extraordinária. Isso é comumente chamado de uso da exortação. Apresente aqui todas as considerações estimulantes.  Elas são comumente chamadas de motivos, mas, acima de tudo, certifique-se de que você as segue até chegar em casa.

Tudo isso, em suma, é o exercício desse solilóquio, ou a pregação do céu para seu próprio coração. Outro passo para nos elevar em nossa contemplação é esse falar conosco mesmos para falar com Deus. A oração não é algo tão estranho para essa responsabilidade, mas aquele derramamento de pedidos pode ser intercalado ou acrescentado, e isso como uma parte mesma dessa responsabilidade. Quantas vezes Davi intercala esses pedidos em seus salmos, algumas vezes argumentando com sua alma, e outras, com Deus?  O apóstolo ordena-nos a falar uns com os outros em salmos e hinos, e, sem dúvida, também podemos falar com Deus por meio deles. Isso mantém a alma com a mente na divina presença; e também tende a estimulá-la e a elevá-la muitíssimo, de forma que, por Deus ser o objeto mais alto de nossos pensamentos--ao vermos o Senhor, ao falarmos e ao argumentarmos com ele, nossa alma se eleva ainda mais e nossos sentimentos são ativados mais que qualquer outra parte da meditação poderia ativá-los.  Os homens de Deus , que registraram suas meditações para nós, intercalaram o solilóquio e a oração, algumas vezes ao falar consigo mesmos, e outras ao dirigir sua fala para Deus; e considero isso, embora possa parecer algo banal, muito apropriado e necessário, e esse é o passo mais alto que podemos dar nesse trabalho.  Mas por que isso não é tão bom para ser adotado com a oração e, desse modo, não nos levar a realizar todo esse trabalho entediante que você nos prescreve?

Eles compreendem várias responsabilidades, e, portanto, os dois precisam ser realizados; temos necessidade tanto de um como do outro, e, desse modo, faremos muito mal a nós mesmos se negligenciarmos um dos dois.  A mistura, como acontece com a música, é mais eficaz; cada uma dessas responsabilidades ajuda e dá vida à outra. A ordem correta não é começar com o topo; portanto, a meditação e o falar conosco mesmos deve vir antes da oração, ou do falar com Deus. A falta desses passos faz com que a oração da maioria das pessoas tenha apenas o nome de oração, e os homens falam tão superficialmente com Deus, como se o Senhor fosse algum de seus camaradas, e com menos reverência e afeição que falariam com um anjo, se este aparecesse para eles, sim, ou com um juiz ou príncipe, se estivessem ali para defender sua vida; e, por conseguinte, o sucesso deles e as respostas que obtêm são muitas vezes parecidas com suas orações. Falar com o Deus do céu é uma responsabilidade de muito peso, e muitas pessoas nem têm consciência disso.

 

Capítulo 21

ALGUMAS VANTAGENS E AJUDA PARA ENGRANDECER E INFLUENCIAR A ALMA POR INTERMÉDIO DESSA MEDITAÇÃO

 

A quinta parte deste diretório serve para mostrar a você que vantagens terá e que ajuda deve utilizar para estimular sua meditação sobre o céu a fim de que você saboreie a doçura daquele lugar. Pois este trabalho é o principal: que você consiga não permanecer no mero pensamento, mas alcance o sentido vivo de tudo em seu coração; assim perceberá que essa parte é a mais difícil desse trabalho. É mais fácil pensar o dia inteiro no céu que se sentir vivo e afetuoso nesses pensamentos por apenas quinze minutos. Portanto, permita que consideremos um pouco mais sobre o que pode ser feito para transformar seus pensamentos sobre o céu em pensamentos penetrantes, afetuosos e elevados.

 

I

O mero trabalho da fé, em comparação com o trabalho dos sentidos, tem muitas desvantagens para nós. A fé é imperfeita, pois fomos renovados apenas em parte; mas os sentidos têm sua própria força, de acordo com a força da carne; a fé trabalha contra inúmeras resistências, mas os sentidos, não; a fé é sobrenatural e, portanto, propensa a diminuir e definhar por causa da falta do hábito e da prática,  mas os sentidos são naturais e, portanto, continuam enquanto a natureza continuar. O objeto da fé está muito distante,  mas o objeto dos sentidos está bem à mão. Não é fácil regozijarmos com aquilo que nunca vemos, mas não é difícil regozijar com aquilo que vemos e sentimos. Então, o que devemos fazer nesse caso? Certamente, chamar nossos sentidos para auxiliar a fé representa um ponto de nossa prudência espiritual, bem como uma ajuda singular para favorecer o trabalho da fé.  Deus não nos teria dado nossos sentidos, nem seus objetos usuais, se eles não fossem úteis ao louvor do Senhor, e se não nos ajudassem a nos elevar à apreensão das coisas mais elevadas. É muito notável como o Espírito Santo consente com as frases das Escrituras, ao trazê-las ao alcance dos sentidos; como ele apresenta, com palavras emprestadas dos objetos dos sentidos, as maravilhas das coisas espirituais; como ele descreve a glória da nova Jerusalém em expressões que podem ser compreendidas até mesmo pela carne: como aquelas em que afirma que as ruas e as casas são de ouro puríssimo; que as portas são de pérolas, e que o trono está no meio de tudo isso; que comeremos e beberemos com Cristo à mesa dele, em seu reino; que ele beberá conosco o fruto do vinho novo; que brilharemos como o sol no firmamento de nosso Pai; essas descrições, como a maioria das descrições de nossa glória, utilizam uma linguagem que parece se dirigir à carne e aos sentidos. Mas o que quero alcançar com tudo isso? Espero que possamos pensar que o céu é feito de ouro e pérolas,  ou que devemos pensar que os santos e os anjos realmente bebem e comem? Não mesmo.  Mas o seguinte: pensar que conceber ou falar sobre as propriedades dele está totalmente além de nosso alcance e capacidade, e que, portanto, devemos concebê-las da forma como somos capazes; e de que o Espírito não as representaria com essas noções para nós, se tivéssemos noções melhores para compreendê-las, e, assim, fazemos uso dessas expressões do Espírito para estimular nossa compreensão e nossos sentimentos, mas não para pervertê-los, e sim para usar essas noções inferiores como um espelho no qual precisamos ver as coisas mesmas, embora a representação seja muitíssimo imperfeita; e mesmo que tenhamos uma visão imediata e imperfeita ainda podemos concluir que essas expressões, embora úteis, foram emprestadas e são impróprias. O mesmo pode ser dito daquelas expressões a respeito de Deus nas Escrituras, em que ele representa a si mesmo com as imperfeições da criatura, com ira, arrependimento e desejo pelo que não acontecerá. Embora essas descrições sejam impróprias, retiradas do modo de ser do homem, ainda há um tanto em Deus que não podemos ver melhor que nesse espelho, e que, como homens, não poderíamos conceber de forma mais adequada essas noções, ou, caso contrário, o Espírito Santo teria nos dado algo melhor. Portanto, vá até ali quando separar o tempo para meditar sobre as alegrias do alto; pense sobre elas de forma ousada, conforme as Escrituras as descreveram; abaixe sua concepção até o alcance dos sentidos. A maravilha sem a familiaridade mais nos surpreende que nos deleita, mas o amor e a alegria são promovidos pelo conhecimento íntimo e familiar.  Portanto, não ponha Cristo mais distante de você do que ele mesmo pôs a si mesmo, para que a natureza divina não seja novamente inacessível. Pense em Cristo da mesma forma que pensa em sua natureza glorificada; pense nos santos, seus companheiros, como homens aperfeiçoados. Suponha que você estivesse agora olhando essa cidade de Deus, e que você esteve na companhia de João enquanto este teve sua visão dessa glória, e que viu os tronos, a majestade, os exércitos celestiais, o esplendor radiante que ele viu; retire as suposições mais fortes que puder de seus sentidos para ajudar seus sentimentos.  E quanto mais sério você apresentar essa suposição para si mesmo, mais sua meditação elevará seu coração.  A concepção bastante familiar do estado de bem-aventurança, conforme o Espírito expressou por meio de uma linguagem complacente, e o grande aumento das suposições em nossos sentidos favorecerão nossos sentimentos nesse trabalho consagrado.

 

II

Há ainda outra forma por meio da qual, aqui, nossos sentidos são úteis para nós, e isso acontece por intermédio da comparação de objetos dos sentidos com os objetos da fé; desse modo, podemos forçar os sentidos a fornecer-nos aquele meio por intermédio do qual podemos concluir a respeito do valor transcendente da glória, ao argumentar a partir dos deleites sensoriais, ou seja, partir do menor para o maior. Compare também os deleites do alto com os deleites legítimos dos sentidos moderados. Pondere consigo mesmo: como é doce o alimento em minha boca quando estou faminto;  que deleite, portanto, minha alma tem ao se alimentar de Cristo, o pão da vida, e ao cear com ele, à sua mesa, no reino!  Como a água é agradável quando estamos muito sedentos;  como será prazeroso para minha alma beber daquela fonte de água viva, pois quem beber dessa água nunca mais terá sede!  Como as belas vistas são prazerosas ao olhar!   Como aquelas belezas genuínas do alto serão realmente prazerosas, e os prédios que não foram erigidos por mãos humanas, e a casa em que o Senhor mesmo habita; e as caminhadas e as paisagens da cidade de Deus, e as belezas e os deleites do Paraíso celeste! Compare também os deleites do alto com os que se encontram no conhecimento natural. Isso está muito além dos deleites dos sentidos, e os deleites do céu estão muito além deles. Que prazer mergulhar nos segredos da natureza; descobrir os mistérios das artes e das ciências; ter um claro conhecimento de assuntos como lógica, física, metafísica, música, astronomia, geometria, etc. Se fizermos apenas uma nova descoberta em qualquer uma dessas áreas, ou compreendermos algo um pouco melhor que antes, que prazer singular isso nos dá! Pense, portanto, nos altos deleites que há no conhecimento de Deus, e de Cristo, seu Filho. Se a face do conhecimento humano é tão bonita,  imagine como é bela a face de Deus!   Compare também os deleites do alto com os deleites da moralidade e com as das afeições naturais. Que deleite muitos pagãos sensatos têm nas regras e nas práticas das responsabilidades morais, de forma que apenas consideram homem honesto aquele que se comporta bem por amor à virtude, e isso não por medo da punição!  Pense, portanto, que maravilha haverá naquela rara perfeição à qual alcançaremos no céu; e naquela beleza incriada de Deus que observaremos. Que doçura há no exercício do amor natural em relação às crianças, aos pais, aos companheiros e aos amigos? O prazer que dois amigos fiéis sentem no amor e na afabilidade um pelo outro é o deleite mais doce e agradável.   Até mesmo Cristo, assim parece, teve um pouco desse tipo de amor; pois ele tinha um discípulo a quem amava de forma especial.  Se os deleites de uma amizade cordial e íntima são tão grandes, que deleite teremos na amizade do Altíssimo; e em nossa amizade mútua com Jesus Cristo; e em nosso precioso amor pelos santos e na estimada companhia deles.  Estes serão nossos amigos mais agradáveis e encantadores que qualquer outro que tivemos debaixo do sol; e nossos sentimentos por nosso Pai e por nosso Salvador, mas, especialmente, a afeição dele por nós, isso será algo que nunca conheceremos aqui. Portanto, nosso amor será mil vezes mais forte e doce do que somos capazes de amar debaixo do sol; e assim como todos os atributos e obras de Deus são incompreensíveis, também o atributo e obra do amor o são. Compare também as maravilhas do céu com aquelas gloriosas obras da criação que, agora, nossos olhos observam.

Que porção da majestade do grande Criador brilha na face desta estrutura do mundo!  Isso torna o estudo da filosofia natural muito agradável, pois as obras de Deus são magníficas. Que obra rara é o corpo do homem, sim, o corpo de qualquer criatura viva, o que torna o estudo de anatomia tão encantador! Que maravilha observamos em cada planta; na beleza das flores; na natureza, na diversidade e no uso das ervas; nas frutas, nas raízes, nos minerais! Mas, especialmente, se observarmos as obras maiores; se considerarmos o corpo inteiro desta terra, e suas criaturas, e seus habitantes; o oceano com suas moções e dimensões; a variedade das estações e da face da terra; o relacionamento da primavera com o outono, do verão com o inverno; que maravilha existe ali! Pense, portanto, em sua meditação, se essas coisas, que não passam de servos do homem pecador, ainda estão repletas de valores ocultos, que lugar é aquele onde Deus habita e o qual está preparado para os justos aperfeiçoados com Cristo. Quando você caminha à noite, olhe para as estrelas e observe como brilham, e elas, em grande quantidade, enfeitam o firmamento. Se à luz do dia olhar para o glorioso sol, veja o amplo e extenso céu que nos envolve e diga para você mesmo: "Que glória existe na menor e mais longínqua estrela! Que corpo vasto e brilhante tem a lua, e todo nosso planeta! Que glória inconcebível tem o sol! Oras, tudo isso é nada comparado com a glória do céu. Ali, o sol deve ser deixado de lado como algo inútil, pois não mais será visto por causa do brilho de Deus;  ali, ele não passa de escuridão comparado com a radiante casa de meu Pai.  Portanto, pense em todas as outras criaturas. Toda a terra nada mais é que o escabelo de meu Pai; esse trovão não é nada comparado à voz formidável dele; esses ventos não são nada comparados ao fôlego de sua boca. Tanta sabedoria e tanto poder, conforme se revelam em toda a criação; e desfrutaremos, no gozo genuíno de Deus, de muito mais grandeza, e bondade, e agradáveis deleites. Compare as coisas que você deve desfrutar no alto com as maravilhas daqueles admiráveis trabalhos da providência que Deus exercita na igreja e no mundo. Que coisas gloriosas o Senhor fez!  Não seria uma visão maravilhosa ver o mar como uma parede, à direita e à esquerda, e a terra seca aparecer no meio, e o povo de Israel passar seguramente através das águas divididas?  Mas veremos coisas maiores que essas; e, assim como nossa visão será ainda mais maravilhosa, também será mais doce.  Ó que obras raras e poderosas vimos na Grã-Bretanha;  que claras descobertas de um poderoso exército; que ampliação da fraqueza; que humilhação da força; que maravilhas operadas pelos meios mais improváveis; que transformação das lágrimas e dos temores em segurança e alegria; respostas às orações sinceras!  Mas o que isso tudo representa diante de nossa libertação total, de nossa conquista final, de nosso triunfo eterno e daquele grande dia das grandes coisas?

Compare também as misericórdias que você deverá ter no alto com aquelas providências singulares que você mesmo desfrutou, e aquelas misericórdias observáveis que você registrou ao longo de sua vida. Se você realmente é cristão, tem registrado em seu coração  inúmeros favores preciosos; e doce é a mera lembrança e o simples relato deles. Mas tudo isso é nada para as misericórdias que estão no alto. Examine as maravilhosas misericórdias de sua juventude e de sua educação, as misericórdias de sua idade mais madura, as misericórdias de sua prosperidade e de sua adversidade; as misericórdias de seus vários locais e dos muitos conhecidos e familiares, e eles não são primorosos e inúmeros?  Que doçura você sentiu quando Deus clarificou suas últimas dúvidas; quando ele dominou e silenciou seus medos e sua descrença;  quando aliviou suas dores; quando curou sua doença e levantou você do túmulo e da morte?  Todas essas misericórdias não foram as mais preciosas?  Portanto, que doce será a glória de sua presença, e quão alto seu amor eterno me exaltará, e quão grande serei quando estiver em comunhão com sua grandeza! Se minha peregrinação e lutas receberam tais misericórdias, imagine o que encontrarei em minha casa e em meu triunfo! Se recebi tanto neste país estrangeiro, quando estava muito distante dele, imagine o que terei no céu quando estiver bem diante dele?

Compare os confortos que você terá no alto com os que você recebeu aqui em suas ordenanças para se aproximar de Deus. A Palavra escrita não é uma fonte da qual jorra conforto dia e noite para você?  Que textos apropriados da Escritura o Espírito pôs diante de você?  Se a Palavra está repleta de consolações, que mananciais encontraremos em Deus! Se suas cartas são tão abençoadas, imagine então as palavras que saírem de sua abençoada boca!  Se o testamento de nosso Senhor e nosso título para o reino são tão confortáveis, imagine o que representará o tomar posse desse reino! Pense mais adiante, que deleites encontrei na Palavra pregada! Quando me sentei aos pés de um mestre divino que perscrutava o coração, como meu coração aqueceu em meu íntimo!  Quantas vezes fui à congregação perturbado em espírito e voltei para casa calmo e alegre! Quantas vezes duvidei,  e Deus mandou-me de volta para casa com minhas dúvidas resolvidas, e satisfez-me, e persuadiu-me de seu amor em Cristo! Com que freqüência andei na escuridão, cheio de dúvidas em minha mente, e Deus revelou para mim preciosas verdades, como também abriu meu entendimento para vê-las, a fim de que sua luz fosse um magnífico conforto para minha alma! Que afeto e estímulo encontrei em minhas mais tristes aflições; que preparativos para fortalecer-me para meu encontro com ele! Se a face de Moisés resplandecia gloriosamente, quanta glória há na face de Deus! Se os pés dos mensageiros dessas notícias de paz são belos, imagine a beleza da face do Príncipe da Paz! Se a palavra na boca de um servo e companheiro é tão agradável, imagine a Palavra viva! Se esse tesouro é tão precioso em vasos de barro, imagine esse tesouro armazenado no céu! Pense também na alegria de ter acesso e aceitação na oração para que, quando nada me aflige, possa chegar até Deus e expor meu caso e abrir minha alma para ele, como faço com meu amigo mais fiel.  E a alegria será insuperavelmente indizível, quando receber todas as bênçãos sem pedir por elas,  e quando Deus for uma porção de minha alma.   Que consolo recebemos, com freqüência, na ceia do Senhor! [...] Ter sua aliança selada para mim por meio das ordenanças exteriores, e seu especial amor selado por seu Espírito em meu coração! Mas toda a vida e todo o conforto disso tudo é para declarar e garantir-me os confortos que terei na vida futura; o uso delas representa apenas sombriamente aquelas misericórdias mais sublimes. A celebração ali será realmente agradável e prazerosa! Compare a alegria que você terá no céu com aquela que os santos de Deus encontraram no caminho para lá e no antegozo dela. Quantas vezes lemos e ouvimos a notícia de santos que morreram e, quando mal tinham forças e vida para se expressar, estavam tão cheios de alegria quanto era possível caber em seu coração e  tinham tanto do céu em seu espírito que sua alegria suplantou em muito suas tristezas. E se, em meio ao mar da adversidade, uma faísca desse fogo é tão gloriosa, imagine o que é aquele sol de glória! Ó, a alegria que os mártires de Cristo sentiram em meio às chamas ardentes; portanto, apenas algo excelente faria a alma deles regozijar-se, enquanto o corpo era engolido pelas chamas; quando Thomas Bilney puder queimar seu dedo em uma vela, e Thomas Cranmer puder queimar sua indigna mão direita; James Bainham puder chamar os papistas para ver um milagre e dizer-lhes que ele não sente mais dor do que se estivesse em uma cama confortável, e que o fogo para ele era como um canteiro de rosas; certamente apenas um maravilhoso antegozo da glória pode fazer tudo isso; pode fazer parecer fácil as chamas do fogo.  Sanders pôde abraçar de forma tão prazerosa a fogueira e clamar: "Bemvinda a cruz!", e não devo abraçar ainda com mais alegria minha bênção e clamar: "Bem-vinda a coroa!". O abençoado John Bradford pôde beijar o feixe de lenha, e não devo beijar o Filho. O fogo e o feixe de lenha, as prisões e os banimentos, o escárnio e os tormentos cruéis devem ser mais bem-vindos para os outros que Cristo e glória serão para mim? Que Deus não permita isso! Compare também a glória do reino celestial com a glória da igreja imperfeita aqui na terra, e com a glória de Cristo em sua condição de humilhação, e você pode facilmente concluir: se Cristo sob a ira de seu Pai e Cristo na sala dos pecadores foram tão magníficos em maravilha, então o que é Cristo à direita do Pai? Quão maravilhoso foi o Filho de Deus na forma de servo!  Ó que poder, e domínio, e glória ele tem agora; e teremos para todo o sempre essa glória com ele!  Ó imagine a glória do reino! Que domínio absoluto tem Cristo e seus santos! E se eles têm esse poder e honra no dia de sua humilhação e no momento estipulado para seu sofrimento e desgraça, imagine o que terão em sua plena reparação!

Compare as misericórdias que deve ter no alto com as misericórdias que Cristo concedeu aqui a sua alma, e as gloriosas mudanças que você terá por fim com as graciosas mudanças que o Espírito realizou em seu coração; compare os confortos de sua glorificação com os confortos de sua santificação. A menor graça em você é genuína e sincera, mas ela é mais valiosa que as riquezas das Índias; o menor desejo vigoroso ou o suspiro sincero por Cristo, mas isso deve ser mais valorizado que os reinos deste mundo. Uma natureza renovada é a imagem exata de Deus.  É o brilho da face de Deus; é a semente de Deus remanescente em nós; é a única beleza da alma racional; essa semente enobrece o homem acima de toda nobreza; ela o ajuda a compreender o prazer de seu Criador, a fazer a vontade do Senhor e a receber sua glória. Portanto, pense consigo mesmo: se esse grão de mostarda é tão precioso, imagine o valor da árvore da vida no Paraíso de Deus! Se foi-nos dito que somos semelhantes a Deus, feitos à sua imagem, e que somos santos quando--meu Deus!--somos pressionados por esse corpo de pecado, certamente seremos muito mais parecidos com Deus quando formos perfeitamente santos e sem mácula. A misericórdia de minha conversão foi tão excessivamente grande que os anjos de Deus regozijam ao presenciá-la?  Certamente, portanto, a misericórdia de minha salvação será tão grandiosa que os anjos parabenizarão minha felicidade. Essa graça não passa de uma faísca que ajuntamos nas cinzas; ela está coberta de carne proveniente da perspectiva do mundo; mas minha glória eterna não será obscurecida, nem minha luz ficará embaixo de uma vasilha, mas ficará em cima de uma montanha, até mesmo em Sião, o monte de Deus.  Por fim, compare as alegrias que você deve ter no alto com os antegozos do céu que o Espírito lhe deu aqui. Julgue como será o oceano de alegria por aquela gota que você experimentou.  Deus, algumas vezes, não se revelou de forma extraordinária a sua alma e permitiu que uma gota da glória caísse nela?  Você, em um sermão vívido sobre o céu, ou em suas contemplações individuais sobre aquela abençoada condição, nunca percebeu  a luz do céu irromper em sua alma, como a estrela da manhã, ou como o raiar do dia? Você, nessas responsabilidades, nunca percebeu seu coração, como se ele fosse a criança ressuscitada por Eliseu, recuperar a vida ao sentir o calor aumentar em seu íntimo? Portanto, pense consigo mesmo, qual será o fervor quando receber a herança toda? Também, toda essa luz que muito me surpreende e me alegra não passa de uma vela do céu para levar-me até lá caminhando através deste mundo de trevas. Se a luz da estrela à noite, ou o pequeno bruxuleio no romper do dia, é semelhante a essa vela, imagine a luz do dia ao meio-dia! Se alguns homens piedosos, conforme lemos, foram dominados pela alegria a ponto de clamar: "Senhor, retenha sua mão; não agüento mais"; como os olhos cansados não agüentam muita luz, imagine que alegrias terei no céu quando minha alma, uma vez que o objeto de minha alegria deve ser nosso glorioso Deus, for capaz de vê-lo e de desfrutar dele. E meus olhos, embora essa luz seja mil vezes mais forte que a do sol, serão capazes de observálo para todo o sempre.  Assim acabo a quinta parte deste diretório, e, aqui, mostrei a você sobre qual fundamento deve progredir com suas meditações, e como fazer com que elas estimulem seus sentimentos, ao comparar os deleites invisíveis do céu com aqueles menores que você viu e sentiu na carne.

 

 

Capítulo 22

COMO CONDUZIR E GUARDAR O CORAÇÃO AO LONGO DE TODO ESSE TRABALHO

 

A sexta e última parte deste diretório é para guiá-lo na conduta de seu coração ao longo de todo esse trabalho, ou para mostrar-lhe onde você deve ser extremamente cuidadoso.  Você descobrirá, sempre que iniciar essas responsabilidades divinas, que seu maior obstáculo é seu coração, e ele provará ser falso em um desses quatro aspectos, ou em todos eles. Primeiro, ele o manterá à distância para que você praticamente nunca o faça trabalhar; segundo, ou, caso contrário, ele o trairá ao ser preguiçoso para realizar esse trabalho, fingindo que realiza esse trabalho quando não o faz; ou terceiro, ele interromperá seu trabalho com suas freqüentes excursões, ao desviar sua atenção para qualquer outro objeto; ou, quarto, ele estraga o trabalho ao interrompê-lo e sair dali antes de você ter alcançado algum benefício. Portanto, previno-o  para que resista fielmente a esses quatro perigosos malefícios, ou, caso contrário, tudo que disse até aqui foi em vão.  Você descobrirá que seu coração é bastante relutante para essa responsabilidade, assim acho eu, como para qualquer outro trabalho no mundo. Ó, quando estiver muito convencido da validade desse trabalho, que desculpas ele apresentará; que evasivas descobrirá; e que atrasos e objeções ele impingirá a você. Ou ele questionará se isso é uma responsabilidade, ou não; ou se ela é uma responsabilidade para os outros, embora não o seja para você. Ele evocará qualquer coisa similar à razão para advogar contra essa responsabilidade; ele dirá que essa é uma tarefa reservada aos ministros que não têm nada mais que estudar, para os enclausurados, ou para as pessoas que têm mais tempo para o lazer que você. Se você for ministro, ele lhe dirá: essa responsabilidade é para o povo; basta a você meditar para a instrução de seu coração e permitir que ele medite sobre o que ouviu.  Se tudo isso não adiantar para o convencer, seu coração o ocupará com outro assunto: você tem essa companhia que chegou para visitá-lo; ou aquela tarefa precisa ser feita. Pode ser que ele o faça realizar outra responsabilidade e, desse modo, uma responsabilidade interrompe a outra, pois ele prefere fazer qualquer outra responsabilidade a essa. Talvez, ele lhe diga que as outras responsabilidades são mais importantes e, portanto, esta precisa dar lugar às outras, pois você não tem tempo para as duas. O que deve ser feito?  Você a faria se lhe dissesse para fazê-la? O que você faria com um servo tão moroso para realizar seu trabalho?

 Você, primeiro, não o persuadiria, e, depois, o admoestaria, e o castigaria, e o forçaria a fazê-lo, e não aceitaria sua recusa, nem o deixaria em paz até que você conseguisse que ele iniciasse seu trabalho?

E você, fielmente, não deveria lidar desse mesmo modo com seu coração?  Instigue seu coração do princípio ao fim, persuada-o a trabalhar, não aceite desculpas, admoeste o por causa de sua relutância; use de violência para com ele; faça-o cumprir suas responsabilidades de boa vontade, ou sem boa vontade.  Você não tem comando sobre seus pensamentos? Você não consegue escolher o assunto de sua meditação?  Utilize a autoridade que Deus lhe deu; dê ordens a seu coração; se ele se rebelar, use de violência para com ele. Se você estiver muito fraco, chame o Espírito de Cristo em seu auxílio. Deus estará pronto a ajudálo, se você não conseguir ajudar a si mesmo. E, ao fazer isso, verá que seu coração se submeterá; sua resistência será subjugada e sua relutância será transformará em abdicada aquiescência.   Quando você põe seu coração para trabalhar, tenha cuidado para que ele não o iluda ao fazê-lo perder tempo com formalidades; para que não diga: "Eu vou", mas não vá; para que ele não gaste seu tempo à toa, quando deveria estar realmente meditando. Certamente, é bem provável que seu coração o traia nesse ponto, como em qualquer outro, dessa responsabilidade; quando você tem, quem sabe, apenas uma hora para sua meditação, esse tempo será gasto antes que seu coração se empenhe seriamente nessa responsabilidade. Fazer essa responsabilidade dessa maneira, é como se não a tivéssemos realizado, a anula tanto quanto a omissão dela. Matar uma hora com pensamentos preguiçosos e vazios sobre o céu nada mais representa que jogar fora essa hora e enganar a si mesmo.  É verdade, o coração de um homem deve ser seguido de perto nessa responsabilidade da meditação como o cavalo no moinho, ou o boi no arado, que não irá mais adiante se você não o chamar ou o castigar. Se você deixar de guiar o coração por um momento, ele não sai do lugar; e, talvez, muitos dos melhores corações tenham esse temperamento.  Não permita que nada o impeça, ao importunar seu coração com a constante vigilância e coação, enquanto estiver nesse trabalho; e, ao ver que você tem essa experiência com sua lentidão e relutância, jamais deixe as esporas fora de seu alcance; e sempre que ele relaxar o passo, lembre-se de dar-lhe um aviso.  Da mesma forma que seu coração perde tempo, ele também gosta de fazer digressões. Ele se virará para o lado, como o servo descuidado que conversa com todos que passam por ele. Quando não houver nada em sua mente, exceto o trabalho à mão, ele pensa em seu chamado, em suas aflições, ou em toda árvore, passarinho ou lugar que você vir, ou ainda em qualquer impertinência, em vez de pensar no céu. Seu coração nessa responsabilidade se assemelha ao boi, ou ao cavalo, do fazendeiro: se este não o dirigir, o animal não anda; e se ele não direciona o animal, este não segue o sulco da terra; e tanto faz ele ficar parado ou não seguir a trilha do sulco.

A experiência lhe dirá que, em relação a esse ponto, você terá muito trabalho com seu coração para mantê-lo trabalhando por uma hora, sem nenhuma extravagância nem cogitações à toa. A cura aqui é a mesma que a de antes; utilize a vigilância e a violência com sua imaginação e, assim que ela se mostrar, você deve admoestá-la. Diga para seu coração: "Vim até aqui para pensar sobre meus negócios no mundo, para pensar em lugares e pessoas, sobre as notícias, ou a vaidade, sim, qualquer coisa, por melhor que seja ela, que não seja o céu?  Você não consegue habitar com Cristo por uma hora de íntima meditação?  Quando o copeiro de faraó sonhou que espremeu as uvas maduras na taça do faraó, entregando-a a seguir na mão do rei, foi um sonho feliz e o sentido era que, em breve, teria acesso à presença do soberano.  Assim, quando as uvas maduras da meditação divina são espremidas por você na taça dos sentimentos, e esta é posta nas mãos de Cristo com louvores prazerosos, a interpretação se me considera habilidoso é esta: você, em breve, será retirado desta prisão onde está e entrará na presença de Cristo na residência real e, ali, servirá a ele uma taça de louvores, mas muito mais cheia e mais doce, por toda a eternidade. Mas se as aves de rapina dos pensamentos errantes devorarem sua meditação direcionada para o céu,  elas representarão a morte desse culto, e devorarão a vida e a alegria de meus pensamentos. Por fim, certifique-se também de observar seu coração nesse culto, para que ele não interrompa o trabalho antes do tempo e fuja dali por causa do cansaço antes do momento devido. Você descobrirá que tem muita propensão a fazer isso, como o boi que gosta de tirar o jugo, ou o cavalo que gosta quando lhe tiram o fardo e, talvez, até lance fora seu fardo e fuja dali. Você pode facilmente perceber isso em outras responsabilidades: se você começa a orar em particular, não é seu coração que o insta a abreviar sua oração e faz com que esteja pronto para ficar de pé assim que se ajoelha? Oras, o mesmo acontece em suas contemplações do céu: assim que consegue elevar seu coração, ele já desce novamente; se fadiga com a tarefa.  O que se deve fazer também nesse caso? Oras, a mesma autoridade e determinação que o trouxeram a esse trabalho e o observam durante essa atividade devem também fazêlo perseverar ali até que o trabalho seja concluído. Exorte-o, em nome de Deus, a ficar ali.  Diga-lhe: "Se você parar antes do final da jornada, então não se perderiam todos os passos de sua jornada? Veio até aqui para fazer uma viagem até o céu, na esperança de ter um vislumbre da glória que deve herdar, e, certamente, não gostaria de parar quando estiver quase no topo da montanha, virando-se para voltar antes que tenha esse vislumbre de lá? Você veio até aqui na esperança de falar com Deus e vai embora antes de tê-lo visto? Você veio banhar-se nas correntes da consolação e, para esse fim, despiu-se de seus pensamentos terrenos, mas assim que põe seus pés nelas já vai embora? Você veio espiar a terra prometida: ó não saia dali sem um cacho de uvas que, quando voltar para casa, possa mostrar a seus irmãos como confirmação e encorajamento; você não pode dizer a eles, por experiência própria que essa é uma terra da qual mana vinho e azeite, leite e mel. Permita que eles vejam que você, graças à alegria de seu coração, experimentou o vinho; e que, graças à satisfação de seu semblante, foi ungido com o azeite. Permita que eles vejam que você, graças ao suprimento e à disposição suave e gentil, experimentou o leite da terra; e que, graças à doçura de suas palavras e de sua conversa, saboreou o mel.

Esse fogo celestial derreterá seu coração enregelado e o refinará, retirando as impurezas, a parte terrena, e deixando o resto mais puro e espiritual; mas daí você não pode sair imediatamente de lá, antes que tenha tempo de aquecer ou de arder. Portanto, permaneça no trabalho, até que algo seja feito; até que suas graças produzam efeito, seus sentimentos sejam elevados, e sua alma, renovada com os deleites do alto; ou se você não conseguir alcançar esses objetivos de uma vez, importune-o para chegar mais perto na vez seguinte e não o deixe sair de lá até que sinta a bênção.

 

Capítulo 23

A SÍNTESE, OU RESUMO, DE TUDO

 

Assim, por intermédio da graciosa assistência do Espírito, direcionei você nesse trabalho da contemplação celestial e apresenteilhe a melhor forma que conheço para que seu desempenho seja bem-sucedido e para levá-lo ao caminho em que possa andar com Deus.  Resumirei aqui tudo brevemente e apresentarei tudo para você de forma mais sucinta. O resumo é este. Assim como você tem consciência de que é necessário orar diariamente, também deve permitir que suas graças produzam efeito na meditação; e mais especificamente na meditação das alegrias do céu. Para esse fim, separe uma hora, ou meia hora, todos os dias em que possa deixar de lado todos os pensamentos comuns; e com toda reverência possível, como se você fosse conversar com Deus em pessoa, fosse ver Cristo, ou visitar aquele abençoado lugar; assim, retire-se para algum lugar secreto e empenhe-se totalmente nesse trabalho. Se não puder, pegue o lugar e a hora de Isaque que saía à tardinha para os campos para meditar.  Mas se você for servo, ou um homem pobre, que não tem tempo para o lazer, pegue o período e o local mais apropriados para você, mesmo que isso seja enquanto trabalha sozinho.Quando você inicia essa responsabilidade, olhe para o céu; permita que seus olhos o levem o mais perto que puder dali: lembre-se que ali está seu descanso eterno; estude suas maravilhas, estude suas realidades, e isso até que sua descrença se silencie, e sua fé prevaleça. Se seu julgamento ainda não for atraído à admiração, utilize aquelas ajudas e vantagens sensatas que lhe foram apresentadas. Compare sua alegria celestial com a mais especial aqui na terra e, desse modo, elevese dos sentidos à fé; ainda assim, se essa mera consideração não prevalecer,  então argumente o caso com seu coração: pregue sobre esse texto do céu a seu coração; convença sua alma, informe-a, conteste-a, instrua-a, repreenda-a, admoeste-a, encoraje-a e conforte-a com essa doutrina celestial; apresente essas muitas considerações sobre seu descanso, em que seus muitos sentimentos podem entrar em ação, especialmente aquele sentimento, ou graça, em que você tem a intenção de agir. Se for o amor, mostre-lhe a graça e o encanto do céu e como este é apropriado a sua condição; se for o desejo, considere a ausência dele nesse adorável objeto; se for a esperança, considere a possibilidade e a probabilidade de obtê-la; se for a coragem, considere a assistência e os encorajamentos singulares que você pode receber de Deus, e pense na fragilidade do inimigo e na necessidade que você tem de prevalecer; se for a alegria, considere sua glória maravilhosa e arrebatadora, bem como seu interesse nela, e sua certeza de alcançá-la, e a proximidade do tempo em que a possuirá. Inste seu coração com essas considerações sobre sua casa; incentive-as, com toda seriedade possível, em cada um de seus sentimentos. Se seu coração retroceder, force-o a trabalhar; se ele perder tempo à toa, castigue-o; se der um passo de lado, ordene-o a retornar novamente; se ele escapar e abandonar o trabalho, use sua autoridade; mantenha-o bem próximo de sua ação até que obtenha seu objetivo. Não abandone, se for possível, até que seu amor resplandeça, até que sua alegria se eleve, ou até que seu desejo, ou outras graças, produza efeito intenso. Peça também o auxílio de Deus; misture os derramamentos com suas cogitações e solilóquios; até que tenha argumentado com seriedade o caso com seu coração, e argumentado com reverência o caso com Deus; você pleiteou para que você se transformasse de um torrão de terra a uma chama; de pecador descuidado a amante atento; de amante do mundo a alguém sedento por Deus; de covarde medroso a cristão resoluto; e que a tristeza infrutífera se transformasse em vida cheia de alegria. Em uma palavra, o que não fizer em um determinado dia, faça no outro, até que tenha pleiteado com seu coração para que ele vá da terra para o céu; das conversas aqui debaixo ao caminhar com Deus; e até que você consiga fazer com que seu coração descanse, como se estivesse recostado no peito de Cristo, nessa meditação sobre seu descanso eterno e pleno. Esse é o resumo dessas orientações precedentes.

 

Capítulo 24

A CONCLUSÃO

 

Assim, caro leitor, ofereci a você meu melhor conselho para conseguir e manter sua cidadania celestial. A forma é imperfeita, e muito particular à minha pessoa, mas, quanto ao assunto principal, ouso dizer que recebi isso de Deus. Entreguei a você o que recebi dele, e a instrução dele passo a você para que possa acolhê-la e praticá-la. Se não puder fazer isso de forma metódica e completa, ainda assim faça isso da forma que puder; apenas certifique-se de que a pratica de forma séria e constante. Se você acredita que um homem tenha tido algumas pequenas experiências com essa responsabilidade, descobrirá que ela o transformará em um novo homem, e elevará sua alma, e clareará seu entendimento, e aperfeiçoará sua conversa, e deixará um sabor agradável em seu coração; para que sua própria experiência faça você confessar que essa hora gasta dessa forma será mais eficaz para reavivá-lo que muitas outras meras responsabilidades externas; e um dia nessa contemplação lhe fornecerá substância mais verdadeira que todas as riquezas da terra. Familiarize-se com esse trabalho e, desse modo, você ficará, de alguma forma remota, familiarizado com Deus. Suas alegrias serão espirituais, e prevalentes, e duradouras, conforme a natureza de seu abençoado objeto; você terá conforto na vida, e conforto na morte. Quando você não tiver riqueza, nem saúde, nem prazer neste mundo, ainda assim terá conforto. Conforto, sem a presença ou a ajuda de um amigo, sem um ministro, sem um livro; quando todos os meios lhe forem negados, ou retirados de você, ainda assim você terá conforto real e vigoroso. Suas graças serão poderosas, e ativas, e vitoriosas; e a alegria diária, trazida do céu, será sua força. Você será como aquela pessoa que fica no topo de uma montanha muito alta; ela olha para o mundo como se ele estivesse muito abaixo dela. Como os campos, e as matas, e as pastagens parecem pequenos para ela! Cidades e vilarejos não passam de pequenos pontos. Como seu olhar desprezará todas as coisas aqui debaixo.  As ameaças dos homens não serão um terror para você, nem as honras deste mundo lhe representarão uma forte sedução. As tentações serão mais inofensivas, pois perderam sua força, e as aflições serão menos dolorosas, pois perderam seu ferrão; e toda misericórdia será mais bem conhecida e saboreada.Caro leitor, a escolha de levar essa vida depende, abaixo de Deus, de sua escolha; como também a escolha se todo esse esforço que empreendi em seu favor prosperará ou será perdido. Se for perdido por causa de sua preguiça, proibida por Deus, fique sabendo que você é quem será o maior perdedor. Se não valorizar essa vida celestial e angelical, como pode dizer que valoriza o céu? E se não o valoriza, não é de admirar que você seja deixado do lado de fora. O poder da bondade repousa nas ações da alma; preste atenção para não ater-se à forma vã e ilusória.  Os primeiros pensamentos de qualquer homem sobre todas as coisas são estranhos; a familiaridade e o conhecimento não surgem em um momento, mas é conseqüência do costume e da convivência freqüente; e a estranheza, naturalmente, ocasiona o temor, como a familiaridade ocasiona o deleite.  Assim, você fugiria de Deus, sua única felicidade, se soubesse como fazer isso, e se não remover essa estranheza durante o período de sua vida. E não é uma pena quando a criança é tão estranha a seu pai a ponto de não temer nada mais do que entrar em sua presença e achar que fica melhor quando estiver o mais longe dele?  Ó que vida magnífica os homens teriam se, pelo menos, tivessem dispostos e fossem diligentes! Deus gostaria que nossas alegrias fossem muito mais numerosas que nossas tristezas; sim, ele gostaria que não tivéssemos tristezas, mas que nos inclinássemos à alegria; e não mais que nossos pecados fossem necessários para o nosso bem. Como esses cristãos procedem mal com Deus e consigo mesmos, ao tornar seus pensamentos sobre Deus a passagem para seus sofrimentos, ou ao deixar que essas alegrias fiquem de lado, negligenciadas ou esquecidas! Alguns podem argumentar o seguinte: não vale a pena gastar tanto tempo e esforço para pensar sobre a grandeza das alegrias do alto, de forma que possamos nos certificar que elas são nossas, quando sabemos que elas são magníficas. Mas como os homens não obedecessem às ordens de Deus, que exige que a cidadania deles esteja no céu, e que os sentimentos deles estejam nas coisas do alto, de forma que eles, ao recusar as delícias que Deus pôs diante deles, transformam, de forma obstinada, sua vida em uma infelicidade. Ainda assim, se isso fosse tudo, não passaria de um assunto sem maior importância; se fosse apenas a perda do conforto, não discorreria muito sobre o assunto. Mas veja que abundância de outros prejuízos acompanham a ausência dessas delícias celestiais.  Isso sufoca, se não destruir, nosso amor a Deus;  isso fará com que nossos pensamentos sobre Deus sejam escassos e desagradáveis, pois nossos pensamentos acompanham nosso amor e deleite; fará com que o homem fale raras vezes sobre Deus, e isso de forma desagradável, pois quem se importa em falar sobre aquilo em que não se deleita?  Isso faz com que os homens não tenham nenhum deleite no serviço a Deus;  quando os homens não têm deleite em Deus e no céu, isso põe em risco os julgamentos deles, ao pervertê-los, em relação aos caminhos de Deus, e os meios da graça, quando não se deleitam com Deus nem com o céu;  e é essa ausência desses deleites celestiais em Deus que tornam os homens tão incertos quanto aos deleites da carne.  Essa ausência dos deleites celestiais é o que deixa os homens sob o poder de toda e qualquer aflição; eles não terão nada para os confortar;  isso também faz com que os homens temam a morte e sintam relutância em morrer.  Essa ausência de deleite celestial deixa os homens vulneráveis a toda e qualquer tentação;  sim, uma preparação perigosa para a total apostasia. E, bem, amigos cristãos, esbocei aqui, para vocês, um trabalho precioso e celestial: se você o realizar, isso o transformará realmente em ser humano pleno. Se Deus o persuadisse a tomar consciência dessa responsabilidade, e se o ajudasse nela por intermédio de seu abençoado Espírito, você não trocaria sua vida pela vida do maior príncipe da terra.  Oro para que você, leitor, feche aqui o livro e pondere sobre ela; determine-se a abraçar essa responsabilidade antes de seguir adiante! Para vocês, crentes sinceros, cujo coração, pela graça de Deus, desapegou-se das coisas aqui debaixo, espero que valorize essa vida celestial, e busque caminhar todos os dias na nova Jerusalém! Sei que Deus é seu amor, e seu desejo; e sei que você, de bom grado, gostaria de ter mais familiaridade com seu Salvador; e sei que seu pesar é em razão de seu coração não estar mais perto dele, e do temor de que ele não o ame de forma mais espontânea e apaixonada e não se deleite tanto no Senhor.  Você, como sempre, corrigirá essa situação e desfrutará de seus desejos.  Ó, experimente essa vida de meditação sobre seu descanso eterno. Eis aqui as montanhas de Ararate, onde a arca flutuante de sua alma deve repousar. Ó permita que o mundo veja, por intermédio de sua vida celestial, que a religião não se resume a discussões e a opiniões, nem à execução das responsabilidades externas; permita que os homens vejam em você a vida à qual devem almejar. Moisés, antes de morrer, subiu ao monte Nebo para ver a terra de Canaã, e os cristãos, da mesma forma, ascendem ao monte da Contemplação e, pela fé, vêem esse descanso.   Daniel, em seu cativeiro, abria, três vezes ao dia, a janela voltada para Jerusalém, embora essa cidade não estivesse ao alcance da vista, quando buscava a Deus em suas devocionais; também a alma que crê, nesse cativeiro da carne, olha para a Jerusalém que está no alto; e o que Paulo foi para os colossenses, também possa ser aquele cujo espírito é glorificado, ausente da carne, mas presente no espírito, e possa exultar ao observar sua condição celestial. Assim como a bela cotovia canta mais docemente e jamais cessa sua agradável cantiga, enquanto flutua nas alturas, como se ali pudesse espiar a glória do sol, mas silencia rapidamente assim que cai na terra, também a estrutura da alma é mais agradável e divina enquanto cultiva as visões de Deus por intermédio da contemplação; mas Deus meu!   Ficamos ali muito pouco, mas logo caímos e interrompemos nossa música. Mas, ó tu, o Pai misericordioso dos espíritos, o Cativador do amor, o Oceano de deleites, atrai para ti e guarda-os ali até que sejam espiritualizados e refinados, e auxilia esses tímidos esforços de seus servos, e persuade aqueles que lêem estas linhas a praticar essa responsabilidade celestial e prazerosa. E, ó, não permitas que a alma de seu servo mais indigno desconheça aquelas alegrias que o Senhor revela a seu povo, ou que trilhe raras vezes esse caminho desbravado por outras pessoas; ó, enquanto me demoro nesta terra, guarda-me, com suspiros diários e sérios por ti, com o caminhar afetuoso e cheio de fé contigo; e quando tu vieres, ó que me encontres fazendo isso, e não escondendo meu talento, nem servindo minha carne, nem dormindo com minha candeia desguarnecida, mas à espera, cheio de antecipação, do retorno de meu Senhor; e que essas orientações celestiais possam não só amadurecer o fruto de meus estudos e o produto de minha vontade, mas também o fôlego de minha esperança ativa e de meu amor diligente; e eles, se meu coração estivesse aberto para que eles o vissem, poderiam ler ali o mesmo, gravado profundamente com um feixe de luz da face do Filho de Deus; e que não encontres, ó Senhor, vaidade, cobiça, ou orgulho no interior, onde as palavras da vida aparecem sem nada; e que estas linhas não possam testemunhar contra mim, mas que, por proceder do coração do escritor, ser eficazes, por intermédio de tua graça, no coração do leitor; e que sejas o Salvador da vida do escritor e do leitor. Amém.

 

 

Estudo realizado por Pastor Rogério Costa

Caxias do Sul – 26/08/15

 

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